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O esporte como metáfora

Invictus, novo filme de Clint Eastwood, retrata o momento em que Nelson Mandela resolve apostar no futuro da África do Sul, optando pela conciliação ao invés da vingança

O então recém-eleito Nelson Mandela (Morgan Freeman) e François Pienaar (Matt Damon), o capitão da seleção sul-africana de rúgbi: braço estendido | Divulgação
O então recém-eleito Nelson Mandela (Morgan Freeman) e François Pienaar (Matt Damon), o capitão da seleção sul-africana de rúgbi: braço estendido (Foto: Divulgação)

À primeira vista, talvez não pareça óbvio que o novo filme de Clint Eastwood, Invictus – uma instigante história verídica sobre triunfo atlético – seja também a última investigação do diretor acerca do tema recorrente de sua carreira – vingança. Difícil imaginar um ator ou diretor que tão claramente expresse o impulso humano de se vingar como Eastwood o fez – desde O Cavaleiro Solitário até Sobre Meninos e Lobos, de Dirty Harry – Magnum 44 até Gran Torino.Ao mesmo tempo ele certamente desenvolveu uma visão crítica sobre o acometimento que leva alguém a se vingar, investigando de suas raízes trágicas até suas terríveis conseqüências. Um exemplo célebre seria o filme Os Imperdoáveis, que sugere que a vingança que faz uso da violência só suscita arrependimentos. Mas muito raramente, no mundo dos filmes de Eastwood, essa vingança pode ser evitada.Até certo ponto, Invictus, que tem estreia no Brasil prevista para 29 de janeiro, é uma exceção, pois se trata de um filme sobre reconciliação e perdão – os opostos da vingança – que ganha domínio moral precisamente porque a possibilidade de derramamento de sangue é iminente. O filme, baseado no livro de John Carlin Playing the Enemy, se passa na África do Sul em meados da década de 1990, logo após a eleição de Nelson Mandela como o primeiro presidente negro do país. Muitos dos brancos no filme – em sua maioria nacionalistas africaners ainda ligados a um sistema que mantinha seus compatriotas negros em um estado de pobreza, opressão e sem direitos civis – se unem em busca de revanche enquanto Mandela assume o poder. Um grande número dos aliados negros do presidente também espera que eles o façam, visto que passaram por décadas de brutalidade e humilhação durante o apartheid.

Mas Mandela, interpretado com seriedade, graça e um certo ar de travessura por Morgan Freeman, sabe que um acerto de contas seria um curso desastroso para uma democracia ainda recente e fragilizada. Ao passar por uma banca de jornais na manhã seguinte a sua vitória, ele avista a manchete de um dos jornais locais. "Ele demonstrou que pode ganhar uma eleição", diz a manchete, "mas mostrará que sabe governar?" De pronto seus guarda-costas se enfurecem com a hostilidade da imprensa local, mas Mandela dá de ombros. "É uma pergunta justa", diz ele.

E uma pergunta sempre urgente em qualquer democracia. Eastwood e o roteirista Anthony Peckham estão por demais absortos nos detalhes da trama em questão para sugerirem analogias históricas, mas Invictus tem implicações que vão além de seu espaço e tempo imediatos e que são difíceis de ignorar. É um filme de esportes estimulante, assim como uma narrativa inspiradora sobre preconceitos superados e, acima de tudo, um fascinante estudo de liderança política.

Mas muita da ingenuidade da atuação de Freeman reside no modo com que ele conduz aquele idealismo e a perspicaz manipulação de símbolos e emoções que não são incompatíveis, mas complementares. Ao assumir o poder alguns anos após ter sido libertado de 27 anos de encarceramento, Mandela já é uma figura extremamente popular, um ídolo tanto na África do Sul quanto no resto do mundo. Sua celebridade também é uma espécie de fardo, bem como um bem que ele precisa aprender a usar – seu prestígio moral é uma arma política.

Mas ele se preocupa, para total horror dos radicais em seu partido, em achar algum tipo de acordo – não necessariamente amizade, mas pelo menos um estado de não animosidade – com as pessoas que o odeiam e o temem: os brancos que o veem como um terrorista, um usurpador e uma ameaça a suas tradições e valores. A tentativa de diálogo de Mandela com os afrikaners – começando pela sua recusa em demitir membros brancos de sua equipe e de sua segurança – surge parcialmente de um dos princípios de Ghandi, e de cálculo político. Eles são uma força poderosa dentro do excército, da polícia e da economia Sul Africana.

Os assessores de Mandela – em particular Brenda Mazibuko (Adjoa Andoh) – ficam desconcertados quando ele assume a causa do time de rúgbi sul-africano, até então um símbolo do orgulho arrogante dos afrikaners e desprezado pela maioria dos negros. A mascote, nomeada em homenagem a um tipo de gazela, e a bandeira verde e dourada do time são quase tão repulsivos quanto à bandeira do apartheid, e quando Mandela insiste que as cores deveriam ser mantidas, é quase como se estivesse traindo a causa de toda sua vida.

A África do Sul, uma pária no mundo dos esportes por tanto tempo ("o gambá do mundo" como Mandela diz), está se preparando para sediar Copa do Mundo de Rúgbi, e Mandela decide que, se a nação deseja encontrar algum tipo de unificação e respeito mútuo, os desacreditados Springboks – como são chamados os jogadores de rúgbi sul africanos – têm de ganhar o campeonato.

A partir daí uma aliança se desenvolve entre o presidente e François Pienaar, o capitão dos Sprinboks, representado com meias palavras rápidas e disciplinadas (bem como total domínio do sotaque diabolicamente complicado) por Matt Damon. A luta de Pienaar em controlar seu time, e também em persuadi-los a aceitar algumas perplexas e novas realidades sociais, é como um microcosmo do próprio projeto de Mandela. E em silêncio ele aceita Mandela, que compartilha com Pienaar, qual um mentor, o poema vitoriano "Invictus" que dá título ao filme.

Mais do que o político, Freeman e Eastwood nos permitem vislumbrar um homem complicado e, de certa forma, melancólico, que carrega a solidão de seu longo aprisionamento consigo e permanece afastado de boa parte de sua família. Ele tem graça e charme em grupos pequenos, é um orador firme mas convincente e um chefe cuja autoridade é sustentada por uma falange de assessores devotados e por vezes, céticos.

Mas se Invictus é, em essência, um estudo apaixonante sobre um dos mais extraordinários personagens de nosso tempo, ele também é repleto de personagens secundários bem construídos e histórias dentro da História que iluminam o desenvolvimento da reconciliação racial em sua cômica dimensão humana.

Os guarda-costas negros e brancos progridem de hostilidade mútua para tolerância desconfiada e daí para cordialidade cautelosa de tal maneira que não soa exagerado. E isso, na maioria das vezes, é o que caracteriza a direção de Eastwood, sempre despretensiosa, comedida e eficiente. Nesse filme ele conta uma grande história por meio de uma série de momentos menores e bem observados, e o faz de seu modo intenso e direto, deixando que as nuances cuidem do resto.

E novamente, como em Cartas de Iwo Jima – uma investigação mais trágica do que heroica sobre a natureza da liderança – isso acontece. Invictus é mais desordenado e disposto a arriscar sentimentalismos. Esse é um risco que Eastwood está quase sempre disposto a correr, e não há gênero mais suscetível a isso (ou que consiga persuadir mais honestamente) do que o de filmes sobre times desacreditados que saem vitoriosos no final. E embora o esporte em questão seja tão desconhecido dos norte-americanos quanto é para os sul-africanos negros, antes do final do filme você talvez esteja mais interessado em rúgbi do que jamais imaginou, mesmo que ele continue mais difícil de entender do que política.

É a convergência das duas coisas que fornece solo fértil para um cinema pujante e inteligente – um filme que atinge você sinceramente com seu impacto visceral e permanece em seu pensamento por um bom tempo depois.

Tradução de Miguel Nicolau Abib Neto.

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