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Memória

O lado B de Londrina

Antigo Cadeião de Londrina: presos passavam maus bocados | Gilberto Abelha/Jornal de Londrina
Antigo Cadeião de Londrina: presos passavam maus bocados (Foto: Gilberto Abelha/Jornal de Londrina)

Londrina ainda era um projeto, por volta de 1926, quando os desbravadores abriam estradas e delimitavam espaços. Já nesta época, nas casinhas de palmito, a única diversão do local apinhado de homens ficava por conta de uma moça trazida de Ourinhos, pioneira da zona do meretrício que se desenvolveria na Rua Rio Grande do Sul – depois Rua Brasil. Pois a demanda era tanta, que a garota foi para a cidade paulista buscar reforço.

Desenvolvia-se, a partir de então, um espaço capaz de reunir jagunços, prostitutas e boêmios, uma zona decaída onde a polícia agia com truculência. Um espaço contrastante com a propaganda de cidade planejada e em franca expansão.

Foi justamente este aspecto da cidade que o jornalista, escritor e compositor Marinósio Filho destacou no livro Dos Porões da Delegacia de Polícia, lançado originalmente em 1979. No mês passado, a obra ganhou nova edição pela Coleção Doc.Londrina e Kan Editora, com patrocínio do Promic e organização de Tony Hara, que desenvolveu a pesquisa ao lado de Felipe Melhado.

Marinósio Filho era um sujeito articulado. Saiu de Salvador, onde nasceu, em 1939, num giro pelo norte e nordeste do Brasil onde acumulou informações para criar o grupo musical Afoxé – uma iniciativa compatível à música nacional populista de cunho getulista.

Com uma linguagem musical definida pelos instrumentos afro-indígenas, Marinósio desceu até o Uruguai, onde a marcha "Cachaça Não É Água", de sua autoria, fez sucesso. No retorno ao Brasil, porém, Marinósio parou em Londrina. Como homem da noite, viu o dinheiro circulando, em 1947, e fez o que muitos faziam: aliou-se a um grupo político para criar o jornal O Combate.

Denúncias

No jornalismo, entretanto, acabou por dar voz aos desvalidos de toda sorte, narrando casos como o do menor que, após sofrer violência sexual na cadeia, mudou o nome para Adriana.

Torturas, afogamentos, assassinatos: as práticas corriqueiras foram denunciadas pela pena do jornalista, apresentando uma Londrina diferente daquela exaltada pela publicidade, que se refletiria na historiografia oficial. Enquanto o jornalismo policial parecia concordar com tais "procedimentos", Marinósio, um pioneiro do gênero, seguiu caminho contrário.

Tony Hara explica o cenário com uma frase famosa do escritor João Antonio, que também fez sua leitura da cidade: "Em Londrina, o mais bobo acende cigarro no relâmpago".

Destacar esta voz dissonante é uma das características da coleção Doc.Londrina, que também reeditou o romance satírico Escândalos da Província (1959), do jornalista Edison Maschio. O próximo livro será dedicado justamente a João Antonio – uma compilação de textos memorialistas (e autobiográficos) que deve sair até novembro.

"Acho estranho demais você ter uma pluralidade, mas eleger apenas uma perspectiva", ressalta o jornalista e historiador Tony Hara, para quem a diversidade de abordagens torna Londrina uma cidade mais interessante e humana. Daí a vontade de destacar aqueles que foram ficando à margem da história.

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