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Cinema

O limite entre memória e ficção

Los Rubios foi uma das produções mais premiadas e elogiadas de 2004

O cinema argentino contemporâneo é um dos mais vigorosos da atualidade. Essa informação já não chega mais a ser novidade. Desde meados da década passada, várias produções ultrapassaram as fronteiras do país e conquistaram público e crítica ao redor do mundo. Exemplos não faltam, até mesmo no Brasil, onde o espaço para filmes da América Espanhola ainda é bastante limitado. Os longas-metragens Plata Queimada (de Marcelo Piñeyro), Nove Rainhas (Fabián Bielinsky), O Filho da Noiva (Juan Jose Campanella), O Pântano (Lucrecia Martel), Valentin (Alejandro Agresti) e O Abraço Partido (Daniel Burman) foram lançados no mercado nacional e tiveram considerável repercussão junto à imprensa especializada – e, em alguns casos, sucesso comercial nada desprezível.

Pouco se fala, entretanto, sobre o documentário argentino, que refletindo uma tendência mundial de fortalecimento do cinema de não-ficção, vem se consolidando nos últimos anos. Tanto que, em 2004, um dos filmes mais premiados e discutidos na Argentina foi Los Rubios (Os Loiros), da jovem diretora Albertina Carri.

Classificar Los Rubios como um documentário, embora tecnicamente pertença ao gênero, pode ser uma definição imprecisa. A diretora explica sua proposta como "ficção da memória", conceito dentro do qual fatos objetivos se mesclam a fantasias, relatos que podem ou não ser verdadeiros, já que partem de reminiscências não comprováveis e fragmentos de sua memória pessoal. A inventividade do projeto chega ao ponto de incluir cenas de animação feitas com bonecos Playmobil, que reproduzem momentos de uma domesticidade dos quais a cineasta tem apenas vaga lembrança.

O ponto de partida do filme de Albertina é sua própria tragédia pessoal. Quando tinha apenas 3 anos, seus pais, intelectuais e militantes da esquerda argentina, foram seqüestrados e assassinados pela ditadura, deixando ela e suas irmãs mais velhas orfãs. O ano era 1977, auge do regime militar.

Como era muito criança e suas recordações do pai e da mãe são fragmentadas, e talvez até mesmo baseadas em relatos de terceiros, a cineasta resolveu fazer uma investigação que lhe possibilitasse reconstruir, ainda que de maneira precária, a história de sua família.

A diretora explica que, "enquanto tentava dissecar a ausência dos pais (com se fosse um cadáver), conseguiu, de uma certa maneira, fundir passado e presente". Tentou ligar seu presente como cineasta a seu passado, marcado por esse vácuo, esse vazio representado pelo "crime" do qual foi vítima. Mais do que uma produção convencional que reconstituiria a trajetória dos seus pais, queria construir uma obra que discutisse os reflexos dessa perda gigantesca em sua vida. Tanto que ela, Albertina, é a protagonista – e não seus pais.

Como temia não ser capaz de alcançar o mínimo de objetividade, a diretora chamou a atriz Analia Couceyro para interpretar a Albertina de Los Rubios, aquela em busca da memória perdida de seus pais. O interessante é que essa "personagem", em vários momentos do filme, contracena com a Albertina Carri "real", que por vezes repete ações encenadas pela atriz, como um exame de sangue para comprovação de DNA.

Graças a essa premissa original e intrigante, Los Rubios (título que faz alusão ao fato de um antigo vizinho ter chamado seus pais de "os loiros") é, segundo definição da diretora, um jogo de espelhos, sub-enredos, histórias paralelas, uma investigação de erros e acertos no qual o processo de feitura do documentário, o que poderia ser um making of, faz parte do longa-metragem. Albertina tem a coragem de admitir que sua própria história é constituída tanto por fatos como por omissões, mentiras e reinterpretações dos acontecimentos. Essa bravura faz de seu documentário uma obra única, desconcertante e já essencial tanto ao cinema contemporâneo latino-americano quanto à história recente do país.

Depois de Los Rubios, já disponível no mercado argentino em DVD, Albertina Carri lançou recentemente o longa de ficção Geminis, escrito em parceria com Santiago Giralt, seu assistente de direção no documentário. O novo longa, também centrado na discussão da temática da família, tem como foco uma família burguesa abastada que se vê, pouco a pouco, corroída por um secreto caso de incesto entre um casal de irmãos gêmeos. Mais uma obra dolorosa, enfim.

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