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Entrevista

“O livro não deve ser reverenciado em excesso”

“Se for necessário para alcançar um resultado melhor com o roteiro, o texto literário pode ser desrespeitado, ultrajado até. Mestre Fellini dizia que, para adaptar uma obra literária, você deve ler o livro e depois jogá-lo fora e filmar o que ficou dele na sua cabeça.” Marçal Aquino, escritor e roteirista | Lorena Martins
“Se for necessário para alcançar um resultado melhor com o roteiro, o texto literário pode ser desrespeitado, ultrajado até. Mestre Fellini dizia que, para adaptar uma obra literária, você deve ler o livro e depois jogá-lo fora e filmar o que ficou dele na sua cabeça.” Marçal Aquino, escritor e roteirista (Foto: Lorena Martins)
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Entrevista com o escritor Marçal Aquino

Aos 50 anos, Marçal Aquino é referência quando se fala em adaptação de literatura para o cinema no Brasil. Autor de 13 obras literárias, elaborou os roteiros dos longas Os Matadores, Ação entre Amigos, O Invasor, além de ter roteirizado os seus romances Cabeça a Prêmio e Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios. Transformou em roteiros obras de outros autores, a exemplo de Um Crime Delicado, de Sérgio Sant'Anna, Até o Dia em Que o Cão Morreu (no filme Cão sem Dono), de Daniel Galera, e O Cheiro do Ralo, de Lourenço Mutarelli. O filme Nina é fruto de uma livre leitura que ele e Heitor Dhalia fizeram de Crime e Castigo, de Dostoiévski. A seguir, a entrevista que Aquino concedeu à Gazeta do Povo:

Gazeta do Povo – O que muda ao transpor um livro para as telas?

Marçal Aquino – Muda muita coisa ao passar uma história da linguagem literária para a do roteiro. Há aspectos técnicos específicos que só se aplicam ao produto audiovisual, assim como há questões que só interessam ao reino da literatura. O importante é entender qual é a essência do livro que se está buscando para apoiar o roteiro. Na minha opinião, o livro não deve ser reverenciado em excesso, sob pena de ser malsucedido no roteiro. Se for necessário para alcançar um resultado melhor com o roteiro, o texto literário pode ser desrespeitado, ultrajado até. Mestre Fellini dizia que para adaptar uma obra literária, você deve ler o livro e depois jogá-lo fora e filmar o que ficou dele na sua cabeça. Acredito nisso.

Qual o processo ao adaptar um livro seu e o de outro autor para o cinema?

Minha postura como roteirista é idêntica em relação a livros de minha autoria e a textos de outros escritores. Foi assim com O Cheiro do Ralo, do Mutarelli, e com Um Crime Delicado, do Sérgio Sant'Anna. O importante é tentar captar a essência da coisa. E acho que nos dois casos, nós conseguimos.

Você ministra oficinas de roteiro. É possível formar um roteirista por meio de um curso?

Não acredito que seja possível ensinar alguém a escrever. Essas oficinas são mais conversas sobre cinema e trocas de experiências e impressões do que propriamente um curso. Não tenho a veleidade de achar que posso ensinar alguma coisa a alguém.

Dois livros seus, Cabeça a Prêmio e Eu Receberia as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios, devem ganhar as telas. Em que fase se encontram as adaptações?

O Marco Ricca, estreando como diretor de cinema, acabou de rodar o Cabeça a Prêmio. Estive no set em Campo Grande e gostei muito do que vi. Já o Eu Receberia...., que será dirigido pelo Beto Brant, está um pouco mais cru. Encontramos as locações no interior do Pará, mas é um projeto grande, complexo, a ser materializado longe de São Paulo, e requer um orçamento muito diferente daqueles com os quais o Beto trabalhou até hoje. Não há ainda projeções de quando será feito.

Como se deu o processo de tranformar a novela Até o Dia em Que o Cão Morreu, do Daniel Galera, para o filme Cão sem Dono?

Eu conhecia a literatura do Galera, a partir da experiência da editora Livros do Mal, e indiquei o livro para o Beto. Trabalhamos numas três versões do roteiro. Na beira do início das filmagens, passei um tempo em Porto Alegre, dando uma última mexida no roteiro. Aí, o Beto adequou esse texto à realidade e aos personagens da cidade, que, na minha opinião, aparece no filme de um jeito belíssimo. Uma curiosidade: na escrita do roteiro, sugeri ao Beto, e ele topou, incluirmos um conto do livro Dentes Guardados, o volume de estréia do Galera. Eu achava que o personagem do conto "Natureza-Morta" é o mesmíssimo da novela Até o Dia em Que o Cão Morreu, que adaptávamos. No conto, ele apenas era mais novo. E deu certo.

Consegue escrever ficção durante a produção de um roteiro?

Normalmente, não. São trabalhos que exigem mergulhos, concentração. E cada um tem sua dinâmica e exige um tipo de disponibilidade intelectual.

Escrever roteiros paga as contas?

Acabo vivendo do meu texto, mas não exclusivamente de qualquer das minhas atividades (jornalista, escritor e roteirista), e sim da soma delas. Ninguém consegue viver só de roteiros no Brasil.

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