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Alexandre Vidal Porto cria uma narrativa enxuta e sofisticada | Ryan Stevenson/Divulgação
Alexandre Vidal Porto cria uma narrativa enxuta e sofisticada| Foto: Ryan Stevenson/Divulgação

Entrevista

Leia a seguir entrevista com o escritor paulista Alexandre Vidal Porto, diplomata de carreira e atualmente licenciado do Ministério das Relações Exteriores para se dedicar à literatura.

Armando, o psiquiatra, é também uma espécie de detetive. O processo psicoterapêutico tem muito de investigação, mas, no caso do personagem, ele também tenta descobrir o que lhe escapou, onde ele teria "falhado", em um mergulho em si mesmo. Fale sobre isso.

Quando Dr. Armando descobre, por acaso, o destino que teve seu paciente, inicia um processo de autocrítica. Ele, que se julgava perfeito, percebe que seria capaz de cometer erros grosseiros. No livro, a luta do Dr. Armando é conseguir aceitar que, para viver bem os últimos anos de sua vida, precisará aprender uma lição de humildade e aceitar suas limitações.

O romance discute de maneira bastante sóbria a questão de identidade sexual. Quando e por que você se interessou pelo tema?

Trabalhei com direitos humanos e tenho contato com todo o espectro da comunidade LGBT. No entanto, no livro, utilizei a questão da identidade sexual quase como metáfora, apresentando-a como um fato da vida, um aspecto da natureza humana, que não deve ser reprimido, contra o qual não se deve lutar.

Como surgiu a ideia de criar um romance fictício, Angelus in America: The Story of Our Father, que tem um papel tão importante no processo de autodescoberta de Sergio? Não teve receio que soasse inverossímil?

Para desenvolver a história de Sergio Y, precisava contar a história de Angelus, um imigrante lituano que, um século antes, havia trilhado percurso semelhante ao de Sandra. Como a história de Angelus era um relato histórico, poderia estar registrada em um livro. A ideia partiu daí. Pesquisei sobre a imigração lituana para os Estados Unidos. A história de Angelus poderia talvez ter acontecido de fato. Como saber?

Nova York tem um papel libertador tanto para Armando quanto para Sergio. Qual a sua ligação com a cidade? Por que a escolheu?

Nova York foi o meu primeiro posto como diplomata. Nunca havia morado no exterior. Foi lá que aprendi a ser estrangeiro. Em Nova York, convivia com gente vinda de todas as partes do mundo para tentar uma vida melhor. Esse sentido de possibilidade e otimismo, que todo imigrante tem de ter, eu aprendi em Nova York. Isso, até hoje me ajuda. Sou grato a Nova York por isso.

O processo psicoterapeutico sempre o interessou? Você teve de pesquisar muito para construir o personagem-narrador?

Eu gosto do universo da psicoterapia. Tenho certa familiaridade com o método porque, ao longo da vida, fiz terapia em diferentes ocasiões, com médicos diferentes, Os meus ex-terapeutas, de alguma forma, serviram como modelos para compor Dr. Armando. Com o manuscrito acabado, consultei alguns psiquiatras amigos para saber se o que se passava com o Dr. Armando no livro poderia se passar com um deles na vida real.

Qual a importância de ter vencido o Prêmio de Literatura do Estado do Paraná?

Para mim foi muito honroso ganhar o Prêmio Paraná de Literatura. Seja pelo nível do juri, seja pela tradição literária paranaense. Curitiba é hoje uma das capitais literárias do Brasil, com uma comunidade de escritores, tradutores, críticos e acadêmicos das mais sofisticadas. Além disso, tem o fato de o Paraná ter uma longa história de imigração, e o meu livro fala disso.

O romance conta uma história bastante universal e tenho a sensação de "viajará" muito bem. Já teve propostas de editoras de outros países?

Algumas editoras estrangeiras já manifestaram interesse pelo romance. Ainda antes do lançamento no Brasil, participei da leitura de uma versão alemã do livro, na Biblioteca Central de Frankfurt. Recentemente, fui convidado para apresentá-lo em Paris. Espero que "Sergio Y Vai à America" ainda viaje bastante.

Romance

Sergio Y. Vai à América

Alexandre Vidal Porto. Companhia das Letras, 184 págs., R$ 39,90.

Vencedor da categoria de melhor romance do Prêmio Paraná de Literatura em 2012, Sergio Y. Vai à América legitima o concurso promovido pela Secretaria de Estado da Cultura. Recém-lançado pela Companhia das Letras, o livro do escritor paulista Alexandre Vidal Porto, que também é diplomata, é um achado. Com uma narrativa enxuta, mas sofisticada e envolta em mistério, captura o leitor logo nas primeiras páginas e não o solta até o desfecho.

O narrador e protagonista da trama é um médico psiquiatra experiente, de nome Armando, um homem viúvo que vive uma existência solitária em São Paulo – a única filha faz mestrado na Universidade de Columbia, em Nova York. A história tem como ponto de partida o encontro entre ele e Sergio Yacoubian, um adolescente de 17 anos de classe média alta, sensível e inteligente, que busca na psicoterapia uma explicação para sua tristeza.

Embora seja um aluno aplicado, tenha um relacionamento aparentemente harmonioso com os pais, algo lhe falta. E sua esperança é encontrar uma resposta para esse vazio nas sessões com Armando, que também se afeiçoa ao rapaz, e se torna para ele uma espécie de desafio.

Tudo parece ir muito bem até que, depois de retornar de uma viagem a Nova York, Sergio anuncia ao terapeuta que acredita ter encontrado o que buscava e que deseja interromper o tratamento. Mais: pretende se mudar para os Estados Unidos. A ruptura frustra Armando, que não consegue compreender os motivos por trás da decisão abrupta do jovem paciente. Mas aceita.

O tempo passa. Em um encontro com a mãe de Sergio, Armando descobre que o ex-paciente está bem e feliz, prestes a abrir um restaurante em Nova York. Ela lhe agradece por tudo que fez pelo filho, mas Armando não sabe ao certo como reagir a tanta gratidão: o que ele teria feito, afinal, pelo rapaz? Há muitas perguntas sem respostas para que ele se sinta contente.

Meses mais tarde, Armando lê no jornal uma notícia que o desestabiliza: Sergio teria sido assassinado, lançado da janela de seu apartamento em Manhattan. O psiquiatra não se conforma com o fato e se, mesmo antes da morte do rapaz, já encontrava dificuldades em aceitar o distanciamento abrupto, agora tem certeza de que não ficará em paz se não descobrir o que, de fato, teria ocorrido na vida dele desde que se viram pela última vez.

Essa obsessão leva Ar­­­mando a um trabalho de investigação que o conduz a uma revelação surpreendente, com impacto traumático sobre o psiquiatra: ele passa a questionar não apenas o processo terapêutico, mas sua própria competência. Essa crise, aos poucos, o aproxima da verdade de Sergio, muito surpreendente, em uma obra que, apesar de relativamente curta, envolve uma jornada tortuosa que atravessa as vidas desses dois personagens. GGGG

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