
Um romance pode ser escrito em diversos níveis de consciência. Os que são demasiados lúcidos e racionais, capazes de fazer o leitor duvidar da existência de uma alma por trás do homem que escreveu aquelas palavras frias e precisas, e os passionais tradicionalmente latinos que desenvolvem sua narrativa e seu estilo calcados quase exclusivamente em suas próprias emoções, preocupando-se muito pouco com coerência e jogos sintáticos. E claro, todos os meios-termos da zona cinzenta entre a razão e a emoção do prosador. O italiano Antonio Tabucchi, falecido em março deste ano, publicou em 1984 o livro Noturno Indiano, que chega agora às lojas pela Cosac Naify em nova tradução, no qual trabalha um registro narrativo que se aproxima muito de um estado de inconsciência, como se realmente estivesse a meio caminho entre o sono e a vigília.
O protagonista do livro, um homem misterioso e sem muita profundidade, chega à Índia à procura de um amigo de muitos anos atrás que se perdeu por lá. A partir de encontros que lhe revelam pistas do paradeiro de seu objeto de busca, falsas ou não, ele percorre hotéis vagabundos, pousadas de luxo e lugares turísticos em Bombaim (hoje chamada de Mumbai), Madras e a colônia portuguesa de Goa, nas três partes que dividem a curta história. Não há, entretanto, um fluxo unitário que liga esses encontros. Mesmo eles parecem partes soltos, fragmentos de memórias, como num sonho de que se lembra depois de acordado. Os diálogos e suas implicações também frequentemente carecem de sentido, e por fim, grande parte das cenas e conversas representativas do romance acontecem durante a noite.
Está aí, portanto, a força do elemento noturno em Noturno Indiano. Tateando por um país misterioso e cada vez mais exótico, o protagonista de Tabucchi se perde nos contrastes sociais e nas peculiaridades místicas da Índia, sem, contudo, tratá-los como etéreos e conectados a uma metafísica distante dos ocidentais. O personagem resvala na religiosidade indiana como um turista típico. Seu conhecimento sobre o país se resume ao caricato livro India, a Travel Survival Kit (na tradução livre, algo como O Guia de Sobrevivência na Índia), e seu interesse sobre a vida dos jainistas homens que choram pela maldade do mundo , mesmo quando se depara com um, é nulo.
Mesmo assim, Tabucchi não furta ao leitor a sensação de se estar, de fato, conhecendo uma nação estranha em toda sua complexidade. Tudo uma ilusão, é claro. Os personagens, a busca pelo amigo, e o próprio amigo não passam de invenções narrativas propostas por um autor-narrador que escreve um livro, como diz em sua introdução, a partir de uma insônia e uma viagem. "A insônia pertence a quem escreveu o livro, a viagem a quem a fez". GGG






