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Livro

O “poetinha” que escondia erudição na popularidade

O coautor de “Garota de Ipanema” reescrevia muitas letras que compunha | Reprodução
O coautor de “Garota de Ipanema” reescrevia muitas letras que compunha (Foto: Reprodução)

Dizer que o livro Vinicius de Moraes – Um Poeta Dentro da Vida resulta de um descontentamento talvez seja exagero, mas a verdade é que Bebel Bernardes sempre se incomodou com o apelido "Poetinha" dado ao escritor pelo cronista Antonio Maria.

"Vinicius usava muito o diminutivo, e os amigos o chamavam de poetinha de modo carinhoso. Mas para umas pessoas isso ficou como se ele fosse um poeta menor. Isso me motivou", conta Bebel, idealizadora, editora e coordenadora editoral da luxuosa obra, ao lado de Heloisa Faria.

Não se trata de mais um livro sobre Vinicius. "Ele tem coisas excepcionais", diz Susana Moraes, filha mais velha de Vinicius. "Tem textos exemplares, que revelam muito da obra, e uma pesquisa da Bebel que desencavou coisas que nem nós conhecíamos."

Entre elas estão fotos de Alécio de Andrade (1938-2003) que estavam com a viúva do fotógrafo, Patrícia, em Paris. "A maioria das fotos do capítulo ‘Memórias’, dele com amigos como Drummond, Fernando Sabino, Chico e Niemeyer, são do Alécio", diz Bebel.

O acervo do fotógrafo tirou um peso de suas costas. É que parecia a ela que tudo sobre Vinicius já havia sido visto. "Para fazer o livro, fui pesquisar e aí comprei Cancioneiro Vinicius de Moraes – Biografia e Obras Selecionadas [com texto de Sergio Augusto e songbook com músicas escolhidas por Paulo Jobim, filho de Tom]. Pensei: ‘Meu livro micou. O que vou mostrar de novidade?’ Liguei para o Miguel [Faria Jr., que fez o documentário Vinicius], e disse: ‘Pronto, acabou’."

Texto resolvido

Ao descobrir o acervo, Bebel se acalmou. Quanto ao texto, o livro estava bem resolvido desde o início. Há uma entrevista com Susana feita pela jornalista Regina Zappa, uma análise da obra poética de Vinicius assinada por Eucanaã Ferraz, um capítulo sobre suas letras escrito por José Miguel Wisnik e uma parte biográfica, a cargo de Júlio Diniz.

"Tem muito folclore em torno de Vinicius, suas mulheres, a boemia, o uísque. Mas eu me pergunto se sabem que ele é fruto de grande erudição", questiona Bebel. "Tem muito estudo de poesia e literatura. Ele passou por grandes transformações. Fez coisas eruditas que caíram no gosto popular."

Wisnik descreve o trabalho por trás das letras. "Garota de Ipanema" não saiu de primeira, espontaneamente. Do rascunho manuscrito na mesa do bar, na esquina da Rua Montenegro (hoje Vinicius de Moraes) com a Prudente de Moraes, até a versão final, muito uísque rolou. A começar pelo título, que se chamava "Menina que Passa". "‘Garota de Ipanema’ foi longamente elaborada, e muito longe de qualquer bar", escreve.

No texto há algo já dito no show que Wisnik e Artur Nestrovisky faziam sobre Vinicius. "Artur dizia que ‘Garota de Ipanema’ é uma música triste, sobre um cara mais velho que vê uma menina cheia de vigor passar. Tem uma melancolia nisso. Eles dois me deram um olhar mais profundo sobre a música", diz Susana.

Serviço:

Vinicius de Moraes – Um Poeta Dentro da Vida. Vários autores. Organização de Heloisa Faria e Bebel Bernardes. Editora 19 Design, R$ 280. Arte/biografia.

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