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O que é bom e o que é ruim

 | Jack Russell/Reprodução
(Foto: Jack Russell/Reprodução)
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Foi após assistir a um documentário que o músico paulista Alex Buck encontrou pistas para elaborar suas suspeitas de que, acordando todos os dias com melodias chiclete na cabeça, estava sofrendo uma espécie de "obesidade musical".

Ligado à música instrumental – um dos gêneros que, ofuscados por estilos como o sertanejo pop, o arrocha e o funk, buscam espaço e atenção do ouvinte brasileiro além de pequenos nichos e da crítica especializada –, Buck percebeu que a crescente preocupação da sociedade com o que andamos comendo levanta problemas que têm seus paralelos na música. Afinal, para ele, tamanha hegemonia de um tipo de música que abusa tanto da repetição em nossa paisagem sonora não poderia ser um bom sinal.

"Assistindo ao documentário Muito Além do Peso (de Estela Renner, 2012), que trata de obesidade infantil, e depois lendo uma pesquisa [do jornalista americano Michael Moss] chamada Salt Sugar Fat: How the Food Giants Hooked Us ["Sal, Açúcar e Gordura: Como os Gigantes da Comida nos Fisgaram", em tradução livre do inglês], que explica como as grandes empresas fazem para nos viciar, vi que o modelo de negócio da indústria alimentícia é o mesmo da indústria da música", defende Buck, que também é professor na Escola de Música do Estado de São Paulo (Emesp)."

Para o músico, o sal, o açúcar e a gordura dos salgadinhos, refrigerantes e chocolates seriam equivalentes aos "padrões tonais simples, métricas binárias, pulsos regulares, discursos curtos" e "letras fáceis" das canções que dominam a tevê, as baladas, as rádios e os alto-falantes dos carros. E as práticas de ocupação do máximo de espaço nas prateleiras de comidas e bebidas para impedir a entrada de produtos da concorrência corresponderia ao famoso jabá, que consiste em pagar às emissoras de rádio pela execução das canções em que a indústria fonográfica escolhe investir. O que, em matéria de alimentação se chama de junk food, seria a junk music no mundo musical, conforme Buck escreveu no artigo Muito Além do Hit: Considerações Sobre a Junk Music, apresentado em 2013 no Encontro de Música e Mídia , organizado por um grupo de pesquisa ligado à Universidade de São Paulo (USP).

"Lançam refrigerantes sabor laranja, uva, limão, mas a fórmula é a mesma: água, gás e muito açúcar. O saborzinho é uma pequena variação. Os gêneros que indústria cria, como o sertanejo universitário, também são pseudogêneros. No fundo, é a mesma formulazinha com um leve tratamento", dispara Buck. "Musicalmente falando, é a mesma coisa. E o problema está em as pessoas não terem repertório para diagnosticar isso. Estão sendo enganadas o tempo inteiro."

Música ruim faz mal?

Mas, práticas nefastas e ilegais (como o jabá) à parte, qual o problema em cada um ouvir o que bem entende? Se sal, açúcar e gordura podem matar, que mal um punhado de canções despretensiosas podem fazer a quem as escolhe para dançar, sorrir e relaxar?

Nenhum, para o compositor e professor do departamento de Artes da UFPR Mauricio Dottori. O problema, segundo ele, está em confundir o direito de cada um gostar do que bem entende com o dever de reconhecer a qualidade deste gosto. "Você pode dizer que tem direito a gostar de pornofunk carioca. É direito de cada um. Isso não se pode disputar. Eu gosto de músicas que sei que não são boas músicas. Da mesma forma, a pessoa tem direito de gostar de comer Baconzitos. Mas ninguém tem o direito de dizer que aquilo é bom para alguém", compara.

O professor de filosofia da USP Vladimir Safatle também separa a questão do gosto de um policiamento da fruição musical. E defende a necessidade e o direito de se dizer o que é bom e o que é ruim sem ser automaticamente acusado de autoritarismo cultural. "Parte-se do princípio de que é impossível fazer algum tipo de avaliação da experiência estética das obras de arte sem que isso seja uma simples emulação do gosto privado", diz Safatle, "o que é materialmente falso, porque, se fosse assim, você não teria uma história da arte. Não poderia falar que Kandinsky é mais importante que um maneirista do século 17. Existe um desenvolvimento interno das linguagens que coloca questões estéticas muito objetivas", diz.

Para o professor, esta repreensão da crítica também tem a ver com um discurso motivado pelo uso da cultura como um agente de integração social pelos Estados. "Foi se criando um certo discurso em que não faz sentido ter uma avaliação crítica de produção cultural alguma. Porque todas têm que estar neste melting pot que é organizado por políticas públicas", explica. "O preço a se pagar por esta visão instrumental da cultura é: qualquer tentativa de crítica vai parecer como uma empáfia acadêmica contra a produção espontânea da vida cultural. O que é uma coisa completamente inacreditável. Porque imaginar que se tem espontaneidade em produção cultural em uma sociedade na qual a cultura é um ativo financeiro é uma das ingenuidades mais absurdas da nossa época", critica.

A objetividade citada por Safatle é um dos critérios perseguidos por Alex Buck para definir o que seria a junk music e defender que não nos limitemos apenas a consumi-la. Pode não ser uma necessidade para quem quer viver mais, como quem opta por uma alimentação sadia. Mas ele promete: o universo encoberto pela junk music está cheio de novos sabores.

O que acontece com a música brasileira?

Era o primeiro dia de 2015. Incomodado com o som emitido pela favela que invadia sua casa pela janela, o veterano cantor e compositor Sérgio Ricardo disparou em sua conta de Facebook contra o que chamou de "destruição sonora emitida pela favela, ligada 24 horas por dia aos rádios e tevês, massificando o gosto popular, que, lamentavelmente, emprenhado pelo costume, já canta e dança um falso Brasil".

Para o músico, a verdadeira música popular, representada por Pixinguinha, Noel Rosa, Cartola, Luiz Gonzaga, Caymmi, João Gilberto, Radamés Gnattali, Tom Jobim e outros está sendo jogada no lixo em detrimento de um "bate-estaca" feio e alienante.

O artista faz coro a um argumento comum entre os defensores desta música que já não ressoa com a amplitude com que ressoava no passado. A canção brasileira teria piorado, e produtos musicais cada vez mais comerciais estariam sendo bombardeados sobre as pessoas, influenciando em massa o gosto musical – para pior.

Contrariando a ultrapassada ideia de que se consome passivamente tudo o que a mídia veicula, o professor do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste) Paulo Henrique Dias lembra que os indivíduos sempre fazem a seleção de acordo com inúmeras variáveis, que passam pela origem social, escolaridade, região, idade, etnia e até sexo. Mas reconhece que a principal delas é a repetição sistemática. "Se você tem acesso escasso a determinado estilo, a possibilidade de se aproximar dele é grande. Da mesma forma que um acesso exaustivo pode causar saturação", diz. "O mercado é um fator muito forte. Ele percebe nichos e passa a investir neles massivamente", analisa.

Involução

À lógica do mercado, o compositor e professor de música da UFPR Mauricio Dottori acrescenta a relação custo-benefício dos produtos. "A indústria de antigamente multiplicava o que os artesãos faziam, que era de boa qualidade. Pegava o Chico Buarque, por exemplo, e multiplicava para todo mundo. Mas, depois, passou a produzir e desenhar seus próprios produtos. E ao invés de fazer o que faz Chico Buarque, faz 'Ai Se Eu Te Pego', porque tem uma relação de preço e lucro", critica. "Nos anos 1960, era possível algo como os Beatles aparecerem na indústria de música. Hoje, uma coisa dessas é impossível."

O professor de filosofia da USP Vladimir Safatle também fala em retrocesso. "Não tenho medo de dizer: você teve uma involução do processo de produção desse setor de música popular", defende, citando o apagamento do rock como um exemplo. "O sujeito ouvia uma banda alternativa que se dizia influenciada pelo Kraftwerk, que se dizia influenciada por Stockhausen. E o sujeito ia atrás do Stockhausen", explica. "É impossível pensar nisso com, sei lá, Michel Teló e companhia."

Safatle acrescenta ao problema o desconhecimento da música clássica contemporânea brasileira mesmo entre a intelectualidade do país. "É inegável que chegamos a uma situação na cultura brasileira em que a possibilidade de circulação de uma série de experiências musicais fora do padrão da forma canção, e de um tipo muito especifico de forma canção, está completamente inviabilizado. E acho isso um problema extremamente grave", diz.

Revolução

Há vozes menos apocalípticas também. É o caso do antropólogo Hermano Vianna, que – voltando à questão avaliação objetiva das obras – nem se atreve a olhar para as manifestações artísticas com um "fundamento estético único", conforme explicou ao jornal O Estado de São Paulo, em fevereiro de 2013, definindo-se como um "relativista incorrigível". E celebrou o funk carioca como vanguarda.

Com um "relativismo" afim e o mesmo entusiasmo, o jornalista cultural Pedro Alexandre Sanches – editor do site Farofafá, que defende a cobertura de toda a diversidade da música brasileira "sem preconceitos" – ouve em canções como "Ai Se Eu Te Pego" ou "Camaro Amarelo" (hit de 2012 da dupla Munhoz e Mariano) qualidades das quais o Brasil deveria se orgulhar. "Temos que sair da prisão estética, ética e política de dizer que todo funk é ruim, todo sertanejo é ruim, toda a música que o pessoal da USP acha ruim é ruim", diz o jornalista, para quem boa parte da rejeição a estilos da música popular vem de preconceitos sociais e do equívoco estético de se tomar parte pelo todo. "Há funks sofisticados, funks politizados, funks que são achados rítmicos", defende. "Dizer que um determinado tipo de música não tem o direito de existir, sendo que já existe e é consumida por milhões, é autoritarismo."

Para o jornalista, embora as grandes gravadoras ainda tenham influência, a configuração do cenário musical do país ficou mais complexa, com o surgimento de estilos como o tecnobrega que não tiveram origem na lógica do jabá, por exemplo. E mesmo a música sertaneja, que movimenta muito dinheiro e domina as paradas no Brasil (o estilo emplacou mais da metade das 100 canções mais tocadas nas rádios em 2014), é influenciada por fenômenos que se impõem por força própria.

Foi o caso da própria "Ai Se Eu Te Pego", que percorreu o mundo em 2012. Conforme mapeou Hermano Vianna, ela surgiu de uma brincadeira de garotas paraibanas de classe média em uma viagem à Disney, foi parar em Porto Seguro (BA) e virou sucesso de forró em Feira de Santana antes de cair nos ouvidos de Michel Teló. O gaiteiro deu à música a mistura de sertanejo, forró, arrocha e vanerão.

"MPB, hoje, é a reunião de todas as identidades periféricas de várias partes do país. É o tecnobrega do Norte, o forró do Nordeste, o lambadão e o sertanejo do Centro-Oeste e de um pedaço do Sul, o funk carioca, o rap de São Paulo. Juntos, formam a identidade brasileira, e é música que não vem das gravadoras", explica. "Quem somos nós a rejeitá-la?"

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