O maior pagador de imposto de renda no Brasil não lê, mas como fala! É o Sílvio Santos. Lula falou, numa Bienal do Livro, que ler lhe dá sono, e apesar disso chegou a presidente da República, fazendo até três discursos por dia. Então para que ler?
Ora, se você tem pendor para a linguagem falada, pode fazer como eles, que fizeram cursos intensivos de comunicação oral, um como camelô e outro como sindicalista. Senão, é melhor ler para ganhar fluência de linguagem e comunicação oral e escrita.
Hoje, o diploma é apenas pré-requisito no mercado de trabalho. O que decide contratação, mantém emprego e garante promoções são as habilidades de trabalhar em equipe, liderar ou motivar, criar ou interagir, e para isso é necessário falar bem, pelo menos. Não precisa escrever bem, desde que você ou a empresa possa pagar alguém para corrigir seus e-mails... Aí, na hora de terem de escolher entre você e outro que fala e escreve bem, o escolhido será ele.
Ler ensina a língua, dá vocabulário e acesso a fontes de informação e formação no mundo da palavra impressa. No mundo da palavra falada, você pode ouvir ou conversar com alguém ou com um grupo por vez, marcando encontro. No mundo da palavra impressa, pode a qualquer momento acessar o que quiser, onde quiser, graças a internet, livros e imprensa.
Mas desconfio que não é possível fazer alguém gostar de ler depois que passou da adolescência. O melhor que os pais podem fazer é contar histórias para os filhos pequeninos, passando a ler histórias quando crescerem mais, para chegarem à escola vendo os livros como amigos de fantasia, aventura e prazer, e não como fonte de deveres e castigos, como a escola tradicional faz. Ler para as crianças é o melhor investimento-Brasil que se pode fazer.
Há pais que se queixam dos filhos não lerem, mas na casa... cadê aquela revista de divulgação científica tão apreciada pelos jovens? Cadê a revista semanal e o jornal diário? Cadê os livros aqui e ali? E há pais que reclamam dos filhos só lerem gibis. Ora, então lhes dê Asterix, Mafalda e o que houver de melhor nos quadrinhos! Quem ama, não reclama apóia, dá, sugere, instiga, desafia:
Filho, se você ler Os Sertões do Euclides da Cunha, comentando um pouco por dia comigo, você será um homem feito! Comece pela parte da Luta, filho, que as partes da Terra e do Homem você só vai gostar de ler a luta! Se não gostar, eu trepo naquela árvore e canto que nem passarinho! (Quem quer motivar adolescente, deve se tornar adolescente...)
A leitura prepara o terreno antes e, depois, consolida a cultura e, principalmente, a cidadania. Em qualquer ônibus ou trem europeu vemos dezenas de pessoas lendo livros, jornais e revistas. Aqui, algumas ou nenhuma. Povo mais bem formado e informado desenvolve o país, e a leitura de massa contribuiu decisivamente para formar os países do Primeiro Mundo, há mais de século, através da imprensa e das leituras nas famílias, nas escolas e também nas igrejas. Mesmo a Rússia, no czarismo, teve leitura de massa, criando as condições para a revolução comunista, suas conquistas e males, que o país ainda goza e paga.
Se o Japão, a segunda maior economia do mundo, tem jornais de milhões de exemplares, é porque gosta ou porque precisa? Decerto porque gosta e precisa.
Um operário pode não ler, seu chefe tem de ler algumas coisas, o gerente precisa ler várias coisas, o diretor ou lê ou não dirige, a não ser que a empresa seja paroquial. E quem mais lê mais dirige a própria vida, seja no trabalho, na saúde, na família, na felicidade.
Mas, para o jovem, o pior a fazer é se obrigar a ler o que não gostar. O melhor é procurar até gostar. Mesmo quem lê apenas romancetes policiais, por exemplo, pode desenvolver a linguagem, a percepção, o raciocínio e mesmo a visão estratégica, com prazer. No entanto, quem chegar à maturidade lendo apenas gibis, decerto terá estacionado a mente numa eterna adolescência.
Desconfio que eu continuaria contista, sem chegar a romancista, se não tivesse lido (com gosto) História, Filosofia, Sociologia, Antropologia, Psicologia, Teoria da Literatura. Cada um tem seus gostos, para montar seu cardápio de leituras.
Ler é crescer por dentro, e comunicar-se é crescer por fora. Uma coisa ajuda a outra. Ou, em outras palavras:
Ler para que? Cres-ser por dentro e por fora.Se eu não lesse, você não me leria agora.
Domingos Pellegrini - Escritor e colunista da Gazeta do Povo, autor de vários romances, contos e livros infanto-juvenis.



