Arnaud Desplechin é um diretor e escritor relativamente novo. Tem 46 anos e sete filmes no currículo. O que bastou para ser considerado um dos principais nomes do cinema francês atual (muito carente de "principais nomes"). O seu trabalho mais recente acaba de chegar ao Brasil no formato DVD.
Reis e Rainha (2004) começa com Nora (Emmanuelle Devos) descendo do carro ao som de uma versão instrumental de "Moon River" diante da galeria onde trabalha. É bem recebida pelos funcionários, que parecem adorá-la. Ela dá uma olhada nas obras recém-adquiridas para o espaço e encontra uma que faz referência à mitologia grega. Decide comprar para dar de aniversário ao seu pai.
Ela perdeu o marido semanas antes de dar à luz Elias. O garoto sem pai cresceu apegado ao avô. Daí o choque que Nora sente ao saber que seu pai está doente câncer e não tem muito tempo de vida. O que vai ser do pequeno Elias, primeiro sem pai e, agora, prestes a perder o avô?
Atônita com a situação e sem saber o que fazer, Nora pede ajuda a um ex-namorado, Ismael (Mathieu Amalric), um violonista excêntrico que é internado contra a sua vontade e sem saber o motivo em um sanatório. Ele é o protagonista da história que se intercala com o drama de Nora.
No hospital, Ismael flerta com enfermeiras e pacientes, ao mesmo tempo em que tenta entrar em contato com sua analista famosa e com seu advogado hipocondríaco, responsável por resolver um problema do cliente na receita federal.
Nora espera que Ismael possa virar uma figura paterna para Elias, atendendo do menino enquanto ela cuida do pai moribundo.
À medida que o filme avança, os enredos de Nora e Ismael se aproximam até atingir um ponto de encontro. O contato das histórias não chega a entusiasmar porque acontece de modo sutil, sem alardes.
Desplechin é co-autor do roteiro ao lado de Roger Bohbot, o mesmo que adaptou Desde que Otar Partiu. No desfecho de Reis e Rainha, a dupla reserva uma ou duas informações de cair o queixo. A mais impactante delas está relacionada ao desabafo de um personagem secundário, impressionante tanto pelo conteúdo do que é dito quanto pelo modo impiedoso com que diz.
Emmanuelle Devos ainda não é muito conhecida fora da França. Seus traços lembram um pouco os de Béatrice Dalle (Betty Blue), outra atriz que parece saída de um quadro de Picasso, com olhos, nariz e boca desproporcionais, mas que acabam criando um conjunto harmônico. No papel de Nora, Emmanuelle consegue encarnar uma mulher adorável em sua devoção ao filho e ao pai. É quase impossível não sofrer com ela todos os percalços que é levada a enfrentar.
Reis e Rainha título faz referência aos homens na vida de Nora recebeu sete indicações ao César, o Oscar francês, e levou a de melhor ator para Mathieu Amalric.
Em uma produção sustentada por nomes da nova geração (Desplechin, Bohbot, Devos, Amalric), aparece o medalhão Catherine Deneuve. Apesar de ter sua participação alardeada na edição nacional do DVD a sinopse na caixinha diz até que a interpretação da diva de 63 anos foi muito elogiada , na verdade, Deneuve faz uma participação discreta como a médica que avalia Ismael, a fim de decidir se ele precisa mesmo ser hospitalizado. Ela recomenda a internação depois de ouvir um violento discurso machista do paciente.
Se não bastasse narrar uma história humana com desfecho acachapante, alternando humor, drama e até suspense, Reis e Rainha mereceria um prêmio só por conseguir criar 2h30 de imagens sem ter de apelar para efeitos especiais, explosões, edição-relâmpago, tiroteios, super-heróis e o que mais o cinema costuma usar para vender ingressos. GGGG







