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Artigo

Observações de um tradutor de Tolstói

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Ao procurar pela primeira vez informações so­­bre Tolstói, encontrei invariavelmente duas afirmações que se repetem de vá­­rias formas: a obra de Tolstói se di­­vide em duas fases bem delimitadas e incompatíveis; Tolstói aban­­donou a literatura para se de­­dicar à pregação religiosa.

Quando me aproximei um pou­­co mais das obras e dos dados biográficos do escritor, percebi que a vastidão de sua obra e a abrangência de suas preocupações e atividades pareciam tão desproporcionais à minha capacidade de síntese que, de fato, era um consolo ter à mão tal simplificação e fiquei tentado a adotá-la.

Porém, ao me deter um pouco mais na leitura de Tolstói e sobretudo ao adquirir mais informações sobre seu contexto histórico e social, comecei a notar que havia algo errado. Como não sou um pesquisador profissional, mas sim um tradutor — ou seja, algo mais próximo de um trabalhador braçal —, de início me senti inseguro de minhas observações.

Em seguida, talvez mais por intuição do que por uma questão de método, passei a relacionar as noções críticas mais difundidas sobre Tolstói com o ambiente histórico e — por que não? — geográfico e político (aspectos cruciais para a Rússia) em que tais noções foram e continuam sendo formuladas e repetidas. Logo se acumularam indícios de que se havia construído um re­­trato de Tolstói à imagem dos temores das camadas sociais do­­minantes e dos países dominantes. Essa imagem prima por di­­luir ou anular as objeções do es­­critor às premissas do mundo moderno e capitalista.

Se nesses temores existe alguma ambiguidade, mais ambiguidade ainda parece existir, de fato, nas declarações de Tolstói. Pois ele disse muitas coisas diferentes em situações diferentes, no curso de uma vida longa e de uma militância social e intelectual talvez sem paralelo. Assim será possível colher, em Tolstói, uma frase aqui e outra ali para res­­paldar pontos de vistas diferentes. Mas, como sempre, é preciso abstrair-se dos dados isolados e procurar os processos ge­­rais que eles exprimem.

Ao traduzir Guerra e Paz (concluído em 1869), encontrei longas passagens que poderiam figurar com perfeição nas páginas de Ressurreição (concluído em 1899). Trata-se exatamente do questionamento de mecanismos que justificam e reproduzem as desigualdades sociais (Tomo 3, terceira parte, cap. 25; Tomo quatro, parte 1, cap. 9, por exemplo). Longe de serem trechos destoantes, as passagens estão em sintonia es­­treita com o romance em seu conjunto. De resto, a crítica sistemática aos historiadores que permeia Guerra e Paz já contempla em si uma denúncia das imposturas inerentes a um sistema calcado na dominação.

O que foi feito da cronologia das duas fases inconciliáveis da obra de Tolstói? Onde está o escritor que repudiou de uma vez por todas a literatura e a arte? Quanto a esse último ponto, aliás, cabe frisar que desde jovem Tolstói manifestou sérias reservas quanto à literatura e à arte prestigiosas na elite russa — cujo modelo estava configurado na arte europeia. Isso não o impediu de escrever contos e romances, de um ângulo problemático, até o fim da vida. Por outro lado, Tolstói sempre deixou patente sua atração pelas manifestações artísticas populares (narrativas orais, canções etc.) Há disso testemunhos constantes, desde as primeiras obras até aquelas que deixou inéditas ao morrer. Suas pesquisas sobre as narrativas orais o levaram até a experimentar um novo estilo, presente, por exemplo, no conto "O Prisioneiro do Cáucaso".

Portanto trata-se de algo mais complexo. Melhor dizendo, trata-se de algo muito mais simples. O questionamento que Tolstói de­­senvolve, de forma quase programática, ao longo de toda sua obra e de sua militância pública implica uma imagem de nossa sociedade (moderna e capitalista) incompatível com a maneira como gostaríamos de vê-la. Como não nos agrada, é preciso filtrá-la, na crítica e na tradução.

Por exemplo, o extraordinário conto "Khoziain i Rabótnik" (ou seja, "O proprietário — ou o patrão — e o trabalhador") tem sido traduzido há décadas em inglês por "Master and Man". Nessa versão, o teor social fica muito diluído, para di­­­zer o mínimo.

Em Guerra e Paz, a expressão "na­­ródnaia voiná" tem sido traduzida em inglês e francês por "guerra patriótica". O adjetivo na­­ródni abriga ao mesmo tempo os sentidos de povo e nação, como ocorre em outros idiomas. Mas não o de "patriótico" (para isso há outro adjetivo). Em tese, poderia ser "guerra nacional". Mas Tolstói, ao usar a expressão repetidas vezes, sublinha o empenho da resistência de camponeses, que preferem matar seus animais e queimar sua lavoura a comerciar com os franceses invasores. Camponeses que, de resto, nem têm ideia do que significa nação, ou mesmo Rússia, tal como a entendem seus senhores. Portanto a tradução, que me parece até óbvia, é "guerra popular".

O problema é que cadeias de pa­­lavras desse tipo não apenas soam pouco "literárias" para a tradição moderna, como também, por trás disso, são politicamente inconvenientes. Ou antes, as duas coisas são uma só. Os protocolos da grande literatura imortal que se precisa instituir não contemplam esse ti­­po de empenho social direto, concreto e específico. Quanto à tradução, opções dessa ordem, praticadas de forma sistemática, não po­­dem deixar de alterar o sentido geral de uma obra.

Tolstói parecia ter certo prazer em se mostrar um pouco bárbaro – um bárbaro na casa dos ci­­vilizados. Se ele gostava de ca­­minhar descalço na terra, andar a cavalo sem sela e se preferia con­­versar com mujiques analfabetos a falar com pessoas nobres e instruídas — preferência de que tanto se queixava sua esposa, ainda pouco depois de se casar —, talvez não admire que gente tão ciosa das virtudes de sua civilização julgue necessários alguns ajustes nas incivilidades desse es­­critor da periferia do mundo oci­­dental.

*Rubens Figueiredo (Rio de Janeiro, 1956) é autor de três livros de contos e cinco romances – Passageiro do Fim do Dia, o mais recente, sai esta semana pela Companhia das Letras. Como tradutor, verteu dezenas de livros do inglês para o português, incluindo títulos de Philip Roth, Raymond Carver, Susan Sontag, V.S. Naipaul e Paul Auster. Do russo, especificamente de Liev Tolstói, traduziu Anna Kariênina, Ressurreição e, hoje, trabalha na edição de Guerra e Paz, um colosso de mais de mil páginas, a ser publicado pela Cosac Naify em 2011.

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