
A técnica de reprodução sonora chegou ao auge na década de 1950, com inovações como o microssulco (33rpm em vez de 78rpm) e o LP, incluindo requintes como o hi-fi e o estéreo. Os veteranos dos primórdios do jazz em Nova Orleans estavam vivos e alguns foram gravados pela primeira vez. Muitos gravaram também ao lado dos músicos mais jovens, o que ensejou uma série de batalhas musicais do tipo "hot versus cool" ou "Dixieland versus moderno", ou encontros de gerações, como entre os trompetistas Roy Eldridge e Dizzy Gillespie e os saxofonistas Ben Webster e Gerry Mulligan.
O promotor de shows Norman Granz criou uma série de espetáculos itinerantes, a Jazz at the Philarmonic (JATP), que gravou em seu próprio selo, Clef, depois Norgran e finalmente Verve. (Em 1973, Granz criou outro selo, Pablo, em homenagem a Picasso.)
Os selos independentes de jazz proliferaram no pós-Guerra e revolucionaram o mercado com suas táticas de guerrilha. Entre 1944 e 1948, a Savoy gravou 101 takes de 31 temas, a maioria de Charlie Parker.
As composições originais foram estimuladas e o bebop adotou a norma de construir uma nova melodia sobre a grade harmônica de standards ou de blues. Assim surgiram Hot House ("What Is This Thing Called Love"), Donna Lee ("Indiana"), Evidence ("Just You, Just Me"), Ornithology ("How High the Moon").
Todo mundo lucrava: as gravadoras pagavam royalties aos próprios músicos e não às grandes editoras; os músicos embolsavam o royalty, além do cachê da gravação.
A Savoy atuava na área de Nova Iorque, mas abriu uma filial na Califórnia em 1948 e uma de suas descobertas foi o pianista Erroll Garner. Também em NY, a Blue Note criada há 70 anos pelo imigrante judeu Alfred Lion, que depois se associaria a Francis Wolff, autor das fotos em preto-e-branco que marcaram o estilo do selo mergulhou de cabeça no jazz moderno nos anos 1950.
Seu diretor artístico, o saxofonista Ike Quebec, foi o responsável pela gravação das primeiras obras-primas de Thelonious Monk, nos dois LPs Genius of Modern Music (1947-52). A Prestige foi a grande catalisadora do hard bop, com dezenas de gravações de Miles Davis, Sonny Rollins e John Coltrane. Outro selo importante de Nova Iorque foi a Riverside, contando em seu elenco Chet Baker, Thelonious Monk, Bill Evans e Cannonball Adderley.
Na Costa do Pacífico também floresceram gravadoras independentes importantes, como a Pacific Jazz, primeira a gravar o quarteto de Gerry Mulligan e Chet Baker; a Contemporary, que lançou o criador do free jazz, Ornette Coleman; a Fantasy, que gravou os primeiros discos de Dave Brubeck; a Dial, de Ross Russell, que gravou Wardell Gray, Erroll Garner e Charlie Parker, sobre o qual Russell escreveria uma biografia, Bird Lives!
Até o baixista Charles Mingus teve o seu selo, Debut, de 1952 a 1955 (Miles Davis gravou nele). Um exemplo singular de sucesso foi o da Atlantic. Criada pelos irmãos Ahmet e Nesuhi Ertegun, filhos do embaixador turco em Washington, descobriu o filão do rhythm & blues e do soul, com Joe Turner, Ray Charles e Aretha Franklin; aderiu depois ao jazz, gravando, entre outros, o Modern Jazz Quartet, Ornette Coleman, John Coltrane, Lee Konitz, Charles Mingus. A Atlantic acabaria absorvida pela Warner, formando o mega-selo WEA (Warner/Elektra/Atlantic), no qual os irmãos Ertegun teriam participação ativa. (Foi Nesuhi, fã de futebol, quem levou Pelé para a Warner.)
Uma figura-chave da época foi o engenheiro de som Rudy van Gelder, que trabalhou para a Blue Note e Prestige. Ele costumava fazer as gravações num estúdio instalado em sua própria casa, em Nova Jersey, em Hackensack (Thelonious Monk deu o nome "Hackensak" a um de seus temas) e depois em Englewood Cliffs. Era tão perfeccionista que costumava examinar cada LP e inscrever com estilete, na faixa entre os sulcos e o rótulo, sua rubrica e o número do disco: RGV#1274. Van Gelder continua vivo e ativo, aos 84 anos.
As grandes gravadoras não demoraram a acordar para o sucesso das independentes na área do jazz. Já em meados da década, a Columbia assinava com Miles Davis um contrato exclusivo que duraria 30 anos. E as outras saíram também à caça de músicos talentosos capazes de produzir uma música ao mesmo tempo vendável e "clássica" como a de Kind of Blue. (R.M.)




