Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Rock

Os melhores (e piores) momentos

Jornalista inglês aponta em livro os 50 fatos marcantes da música que abalou o século 20

 | Divulgação
(Foto: Divulgação)
Autor destaca a prisão de Jim Morrison em 1969 |

1 de 5

Autor destaca a prisão de Jim Morrison em 1969

Hendrix inspirou título |

2 de 5

Hendrix inspirou título

Encontro de Sinatra e Elvis dá início à lista |

3 de 5

Encontro de Sinatra e Elvis dá início à lista

Tragédia no show do Rolling Stones em Altamont está no ranking |

4 de 5

Tragédia no show do Rolling Stones em Altamont está no ranking

Livro: 50 Fatos Que Mudaram a História do Rock. Paolo Hewitt. Tradução de Leandro Woyakoski. Verus Editora, 272 págs., R$ 42,90. |

5 de 5

Livro: 50 Fatos Que Mudaram a História do Rock. Paolo Hewitt. Tradução de Leandro Woyakoski. Verus Editora, 272 págs., R$ 42,90.

Nome destacado na imprensa musical britânica, Paolo Hewitt encontrou a fórmula ideal para ser lido – e discutido. Escreveu um livro que é uma listagem dos episódios mais importantes na história do roquenrol, o estilo de música (e de vida) que marcou com som e fúria a segunda metade do século 20. Lançado no Brasil pela Verus, 50 Fatos Que Mudaram a História do Rock tem o título original de Scuse Me While I Kiss the Sky: 50 Moments That Changed Music. Existe uma diferença sutil entre "fato" e "momento." Um destes 50 momentos eleitos por Hewitt é uma mera manchete de jornal — "Você deixaria sua filha casar com um Rolling Stone?" — criada pelo assessor de imprensa Andrew Loog Oldham, para promover o perfil bad boy da banda.

Hewitt deixa claro que "alguns destes momentos se escolheram, outros representam minha escolha pessoal". Em seus acertos estão os megafestivais de Woodstock e Altamont, em agosto e dezembro de 1969: os "três dias de paz e música" e seu "negativo", o pesadelo de uma noite de sábado sangrenta. A imprensa saudou Woodstock como "o dia em que o homem pousou na Terra" (a Apolo 11 pousou na Lua um mês antes). Já Altamont foi uma tragédia em que os Stones, que haviam lançado o single "Sympathy for the Devil" exatamente um ano antes, foram plenamente atendidos pelo Demo, ao escolherem como "seguranças" do evento os Hells Angels... Hewitt cita ainda o Live Aid de Bob Geldof, em 1985 – em favor dos famintos da África – mas omite o Concerto para Bangladesh de 1971, marco inicial do rock beneficente.

Nem sempre Hewitt faz as associações necessárias, o entrelaçamento de fatos e pessoas que um tema tão fascinante como o rock exige. O primeiro megaconcerto de rock — com um público estimado entre 250 e 500 mil pessoas — foi o show grátis no Hyde Park de Londres, em 5 de julho de 1969, em homenagem ao ex-guitarrista dos Stones, Brian Jones, morto dois dias antes.

O afogamento misterioso de Jones na piscina de sua mansão está entre os "50+" do livro. Outras mortes que abalaram o rock são citadas por Hewitt, direta ou episodicamente. Uma delas é o assassinato de John Lennon em Nova York em 8 de dezembro de 1980. "Chapman e Lennon, Lennon e Chapman, unidos numa tragédia sem sentido. Agora Chapman está preso e assim permanecerá pelo resto da vida. Quanto a Lennon, continua a vender, e assim será por toda a eternidade." Em outro dia de dezembro de 1967, Otis Redding morre num desastre de avião, tornando-se um sucesso póstumo com a canção "Dock of the Bay". (Hewitt ignora o acidente de avião em 1959 que matou Buddy Holly e outros músicos, batizado como "o dia em que a música morreu.") Jimi Hendrix é mencionado no capítulo "Como um Cara ou Coroa Permitiu Que JH Conquistasse os EUA". (O título do livro tomou emprestado o verso "Scuse Me While I Kiss the Sky" da canção de Jimi, "Purple Haze"). Embora o autor não invista nisso, Otis e Jimi foram vítimas de duas maldições consagradas pelo folclore roqueiro: a Maldição de Monterey e o Clube 27. Vários astros presentes ao festival de 1967 morreriam pouco tempo depois: Otis Redding, Brian Jones, Jimi Hendrix, Janis Joplin, Mama Cass, Keith Moon. Jones, Jimi e Janis pertencem também ao Clube 27, a sociedade dos roqueiros mortos aos 27 anos, que inclui ainda Pigpen, do Grateful Dead (que tocou em Monterey), Jim Morrison, Kurt Cobain e Amy Winehouse, entre os mais famosos. A maldição foi inaugurada em 1938 pelo rei do jinx ("urucubaca"), o cantor de blues Robert Johnson, espécie de santo padroeiro do rock. Hewitt cita apenas Jim Morrison em função do tumultuado show de Miami em que foi acusado de exibir a genitália e dizer palavrões, o que lhe custou uma multa de US$ 50 mil e seis meses de prisão, revogados depois. Cobain é mencionado por uma trivialidade no capítulo "Kurt Cobain É Beijado por Colega de Banda na TV". (Entre nossos baianos, é praxe...)

Outras escolhas equivocadas de Hewitt: os Beach Boys quase contratam Charles Manson para o seu selo; Sinead O’Connor rasga a foto do Papa na tevê americana; Madonna lança o livro Sex; os Dexys roubam a fita master de seu álbum de estreia; Paul McCartney é preso no Japão. Qual a importância disso diante do "Yesterday" de Paul, a canção mais tocada de todos os tempos? O livro não ignora o LP Sgt. Pepper’s, lançado em 1.º de junho de 1967, uma escolha mais ou menos óbvia. Eu apontaria como o grande momento dos Beatles algo que veio 25 dias depois: a primeira transmissão mundial via satélite, ao vivo para 26 países, em que eles cantaram "All You Need Is Love", com uma pequena ajuda de amigos como Mick Jagger, Marianne Faithfull, Eric Clapton, Graham Nash e Keith Moon, atingindo simultaneamente 350 milhões de pessoas.

Outra opção estranha é começar o livro só a partir de 1960, com um encontro televisivo entre Elvis e Sinatra vestidos a rigor. O meu Elvis seria The Pelvis, aquele que teve seus requebros censurados pela tevê no Ed Sullivan Show em 1956. A meu ver, o ponto de partida de um livro destes teria de ser o reconhecimento oficial do rock, pela voz do povo, como a trilha sonora da segunda metade do século 20. Na segunda semana de julho de 1955, estourava o "torpedo" de Bill Haley & His Comets, "Rock Around the Clock", desbancando do primeiro lugar da parada de sucessos o chachachá de Perez Prado Cerejeira Rosa. Aquele som primal de Haley, Elvis, Chuck Berry e Little Richard tomaria conta do mundo, provocando uma onda de furor nas plateias onde se exibiam filmes de rock, em meio a quebra-quebras detonados pela "juventude transviada". Podia ser vandalismo, mas foi a maneira que a "geração silenciosa" dos anos 50 encontrou de dizer: "Estamos vivos!"

Um momento que eu incluiria entre os "50+" seria a canção "Layla", que Eric Clapton compôs em 1970 para a garota que queria conquistar: Pattie, mulher do seu melhor amigo, George Harrison. A canção era tão bonita que, depois de largar George, Pattie se casou com Eric em 1979. Daria para escrever outros livros sobre esse tema. Afinal, o rock, mais do que música, criou a sua mitologia.

Roberto Muggiati é autor de Rock/O Grito e o Mito (1973), traduzido no mundo hispânico pela Siglo Veintiuno, a editora de Borges e Cortázar. O livro será relançado em comemoração a seus 40 anos.

Você pode se interessar

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.