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Gilson Marciano de Oliveira tem 25 anos de Polícia Civil e longo convívio com atos de violência brutais | Rodolfo Bührer/Gazeta do Povo
Gilson Marciano de Oliveira tem 25 anos de Polícia Civil e longo convívio com atos de violência brutais| Foto: Rodolfo Bührer/Gazeta do Povo

Em 25 anos de Polícia Civil, Gilson Marciano de Oliveira já investigou todo tipo de crime. Diante de corpos mutilados, empalados, decapitados, cremados, deparou-se com um inesgotável repertório de maldades. E presenciou, ele próprio, um sem-número de assassinos cair em sono profundo sem sequer cogitar arrependimento. Nunca aceitou a barbárie com a naturalidade comum nesse ofício e, longe das delegacias, decidiu dar cabo às dúvidas acerca dos motivos que levam o homem a agredir, ferir, matar. Assim nasceu o livro A Agressão Humana, a ser lançado hoje em Curitiba. Não se trata de obra moralista ou policialesca, convém dizer.

O intuito é desmistificar o modelo clássico das Ciências Sociais que, no entender de Steven Pinker – fonte primeira de consulta de Gilson –, está fundamentado em três mitos que forjaram o ideário de natureza humana. Pela ordem, o primeiro mito fala do fantasma da máquina, de René Descartes (1556-1650), que supõe existir em nossa mente um fantasma capaz de promover o livre-arbítrio; o segundo deriva da suposição de que a mente é uma tábula rasa ao nascermos, ideia de John Locke (1632-1704); o terceiro supõem que o convívio social degenera o homem, ideário fundamentado no bom selvagem de Jean-Jacques Rousseau (1712-1778).

O autor de A Agressão Humana não nega que parcela significativa do comportamento humano deriva do convívio social, mas os avanços no campo das ciências cognitivas, biologia molecular e genética comportamental suscitam uma reavaliação das premissas que norteiam os três mitos. "O alvorecer do século 21 sugere a busca de novos conceitos no entendimento daquilo que convencionamos como natureza humana. O mundo globalizado é uma teia social extremamente complexa e necessita de novas abordagens para que possamos discutir assuntos como clonagem humana, eutanásia, aborto e demais pesquisas envolvendo o campo da biogenética", diz.

A pesquisa de Gilson se aporta nas teses de Pinker, psicólogo da linha evolucionista, autoridade em ciências cognitivas e professor do Centro de Neurociência Cognitiva do MIT Universidade de Harvard. Quatro de suas obras foram publicadas em português: Como a Mente Funciona, Tábula Ra­­sa, O Instinto da Linguagem e Do Que É Feito o Pensamento. Pinker trata de vários temas (religião, ciências, filosofia), mas um em particular está sempre presente: o comportamento agressivo da espécie humana. Para ele, a humanidade evita discutir o assunto e quando aborda o problema o faz negando a agressão como derivada de fatores biológicos e genéticos.

Para consolidar a tese de que a violência sempre se fez presente na vida do homem, durante toda sua caminhada evolutiva, Gilson buscou argumentos em 30 outros autores – neodarwinistas entre eles –, para os quais ao longo da evolução o cérebro humano foi adquirindo dispositivos biológicos e genéticos que podem ser acionados em determinadas situações de estresse. Contudo, esses mesmo pesquisadores afirmam que os dispositivos de violência vagarosamente foram atenuados pelos controles sociais, que, como o biológico, também se desenvolveu numa escala evolutiva. Entretanto, a evolução social acontece de forma muito mais rápida do que a biológica.

A obra de Gilson encontrará resistência, assim como as de Pinker encontraram, porque não é fácil admitir que o mal é intrínseco a nós. Não só. A visão neodarwinista de ambos questiona os modelos delineadores da natureza humana atual, derivados de ideias originadas há mais de dois séculos. Trata-se de tema explosivo, reconhece Gilson, pois são conceitos provocativos que encontram antipatia nos setores conservadores da esquerda e direita nos mais variados segmentos – ciência, religião, cultura, meio acadêmico, política.

Serviço

Lançamento do livro A Agressão Humana. Centro Cultural Indiano Himalaias (Alameda Júlia da Costa, 1.643, Bigorrilho), (41) 3022-7468. Hoje, às 19 horas.

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