Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
PESQUISA

Professor encontra texto inédito de Machado de Assis

Poema intitulado “O grito do Ipiranga” foi publicado em 1856

Um professor e pesquisador do Departamento de Letras da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) descobriu um texto inédito de Machado de Assis, escrito quando o autor tinha apenas 17 anos.

De acordo com informações divulgadas pela instituição de ensino, o poema “O grito do Ipiranga” que ainda não havia sido alvo de pesquisa de estudiosos foi publicado no dia 7 de setembro de 1856 no jornal Correio Mercantil – importante jornal carioca que costumava receber os textos de Machado em seu início de carreira.

O poema foi encontrado pelo professor Wilton Marques, durante os trabalhos da atual pesquisa desenvolvida pelo docente, que busca identificar a influência dos autores românticos na formação de Machado de Assis e, de modo especial, na análise de seus primeiros poemas.

“Fui pesquisar os poemas publicados no jornal Correio Mercantil e que, segundo a crítica, teriam sido publicados somente a partir de outubro de 1858. Resolvi não apenas checar as fontes dos poemas como também ampliar um pouco a pesquisa para os anos anteriores. Foi assim que o poema, publicado em 9 de setembro de 1856, acabou aparecendo na história”, contou o pesquisador à equipe de reportagem da UFSCar.

De acordo com Marques, a descoberta do poema implica ao menos em dois aspectos fundamentais para os estudos sobre a vida e a obra de Machado de Assis: traz novas informações de aspectos biográficos e apresenta traços inéditos na produção literária do escritor.

Leia o poema:

O grito do Ipiranga

Liberdade!... Farol divinizado! –
Sob o teu brilho a humanidade e os séculos
Caminham ao porvir. Roma as algemas
Quebrou dos filhos que a opressão lançara
Dentre a sombra de púrpura dos Césares,
Que envolvia Tarquínio em fogo e sangue,
Cheia de tua luz e estimulada
Por teu nome divino – essa palavra
Imensa como as vozes do Oceano.
Sublime como a ideia do infinito!
Tal como Roma a terra americana,
Um dia alevantando ao sol dos trópicos
A fronte que domina os estandartes,
Saudou teu nome majestoso e belo –
E o brado imenso – Independência ou morte! –
Soltado lá das margens do Ipiranga.

Desenrola nas turbas populares
Dos livres a bandeira o herói tão nobre,
Digno dos louros festivais que outrora
Roma dava aos heróis entre os aplausos
Do povo que os levava ao Capitólio!
Ele foi como o César de Marengo;
Sua voz como a lava do Vesúvio
Levada pela voz da imensidade
Foi do Tejo soar nas margens, onde
Estremeceu de susto o lusitano!

Ipiranga!... Ipiranga!... A voz das brisas
Este nome repete nas florestas!
Caminhante! Eis ali onde primeiro
Soou o brado – Independência ou morte! –
O homem secular levando as águias
Por entre os turbilhões de pó, de fumo,
Ostentando nos livres estandartes
O lúcido farol de um século ovante,
Mais sublime não foi nem mais valente
Que Pedro o herói, da América travando
Do farol da sagrada liberdade,
E acordando o Brasil, escravizado,
Sob férreos grilhões adormecido.

Somos livres! – Nas páginas da história
Nosso nome fulgura – ali traçado
Foi por Deus, que do herói guiando o braço,
Nas folhas o escreveu do eterno livro.
Somos livres! – No peito brasileiro
A ideia da opressão não se acalenta!
Somos já livres como a voz do oceano,
Somos grandes também como o infinito,
Como o nome de Pedro e dos Andradas!

Seja bendito o dia em que Colombo
César dos mares, afrontando as ondas,
À Europa revelou um Novo Mundo;
Ele nos trouxe o cetro das conquistas
Nas mãos de Pedro – o fundador do Império!

O herói calcando os pedestais da história,
Ergue soberbo aos séculos vindouros
A fronte majestosa! Imenso vulto!
É ele o sol da terra brasileira!
Neste dia de esplêndidas lembranças
No peito brasileiro se reflete
O nome dele – como um sol ardente
Brilha dourado no cristal dos prismas!

Tomando o sabre, dominou dois mundos
O herói libertador, valente e ousado!
Ele, o tronco da nossa liberdade,
Foi como o cedro secular do Líbano,
Que resiste ao tufão e às tempestades!

Ipiranga! Inda o vento das florestas
Que as noites tropicais respiram frescas
Parecem murmurar nos seus soluços
O brado imenso – Independência ou morte!
Qual o trovão nos ecos do infinito!

Disse ao guerreiro o Deus da Liberdade:
Liberta o teu Brasil num brado augusto,
E o herói valente libertou num grito!

Joaquim Maria Machado de Assis
7 de setembro de 1856.
Publicado em 9 de setembro de 1856 no Jornal Correio Mercantil, página 2.
(Transcrição atualizada ortograficamente por Wilton Marques, professor da UFSCar)

Você pode se interessar

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.