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Quem vai sobreviver?

Na era do mp3, o ciclo de vida dos artistas pop é cada vez mais curto, mas alguns deles prometem

Sting: sem dom para as rimas | Arquivo Gazeta do Povo
Sting: sem dom para as rimas (Foto: Arquivo Gazeta do Povo)

Façamos agora um exercício de futurologia. Imagine-se dez anos no futuro. Que músicos ou bandas internacionais consagrados em 2007 ainda estarão tocando nos iPods (ou seu equivalente) em 2017? Melhor formulando: que artistas que despontaram nesta década agonizante ainda terão alguma relevância daqui a dez ou 20 anos? Pergunta difícil de responder, principalmente se levarmos em conta o prazo de validade cada vez menor da música pop na era MP3, com a morte anunciada da música "física" (em CDs ou DVDs).

Melhor especularmos sobre que artistas dos anos 00 exercerão (ou terão exercido) alguma influência sobre a música pop do futuro. A esse respeito, aí vão alguns palpites:

The Strokes

Os glamurosos nova-iorquinos dos Strokes já foram considerados a salvação do rock – disputados a tapa que foram pelas gravadoras assim que saiu o EP The Modern Age, em 2001. Com apenas três músicas lançadas, o quinteto liderado por Julian Casablancas (filho de John Casablancas, dono da Elite Models) já era considerado "a maior banda de rock em anos".

O primeiro álbum, Is This It?, lançado no mesmo ano pela RCA, fez um sucesso estrondoso no Reino Unido, que amplificou o hype para o resto do mundo. O rótulo "novo rock" foi usado pela primeira vez com eles. Musicalmente, a banda não é assim tão revolucionária. A exemplo do que fez o Nirvana nos anos 90, tem o mérito de ter ressuscitado o "rock de garagem", mais básico e cru. Bebe na fonte do minimalismo cool de Velvet Underground e Television, com boas melodias, riffs econômicos e uma atitude meio displiscente.

Mas foi especialmente na imagem que os Strokes inovaram. Talvez pelo vocalista Julian ter a moda no DNA, a sua banda foi a primeira a estabelecer uma ligação estreita com o mundo fashion. Ainda que o visual dos cinco caras de Nova Iorque faça o estilo largadão, com cabelos ensebados e roupas de brechó, é um despojamento milimetricamente calculado. A preocupação com o look se acentuaria nas bandas que viriam depois dos Strokes, como Franz Ferdinand, Kaiser Chiefs e The Killers. Surgia assim o roqueiro fashion.

Os Strokes lançaram outros dois discos, Room on Fire (2003), em que repetiram com sucesso a fórmula consagrada no disco de estréia, e First Impressions of Earth (2006), considerado um pouco mais "pop" e "polido" que os anteriores. Trabalha atualmente no quarto álbum, que deve ser lançado no ano que vem.

Não conhece? Ouça "Hard to Explain", do álbum Is This It?

The White Stripes

Talvez o White Stripes propriamente dito não esteja na ativa daqui a dez anos, mas Jack White, a mente criativa por trás da dupla, certamente tem fôlego para continuar como um dos músicos mais influentes do século 21 por muitos anos.

A sonoridade do duo que ele formou em Detroit com sua então esposa (a quem sempre chama de irmã) Meg White em 1997 é única – uma espécie de punk blues energético, com forte influência do rock setentista de bandas como Led Zeppelin e Grand Funk Railroad, além do blues do Delta do Mississipi e da folk music norte-americana.

Um parêntese: sim, o White Stripes já tem dez anos de estrada, e talvez você esteja se questionando por que eles aparecem nesta relação sobre as bandas mais influentes da década. É que os dois primeiros álbuns da banda, The White Stripes (1999) e De Stijl (2000), não foram percebidos fora dos limites de Detroit.

O mundo só começou a prestar atenção no casal no terceiro CD, White Blood Cells, que ecoou na Grã-Bretanha e levou a revista Q Magazine a elegê-los em 2002 como "uma das 50 bandas que você deve ver antes de morrer". É desse álbum também o "clipe do Lego", onde o casal aparece tocando "Fell in Love with a Girl" numa animação feita a partir das peças de montar. O vídeo faturou três prêmios no Video Music Awards 2002.

O sucesso mundial se consolidaria no ano seguinte, quando eles lançaram Elephant – que trazia o hino "Seven Nation Army". Depois disso a dupla lançou outros dois discos: Get Behind me Satan (2005), e Icky Thump (2007). Jack também assina a trilha sonora do filme Cold Mountain (2003) – no qual até faz ainda uma participação como ator – e chegou a fundar um projeto paralelo, o The Raconteurs.

Não conhece? Ouça "Seven Nation Army", do álbum Elephant.

Franz Ferdinand

Se hoje voltou a ser possível chacoalhar o esqueleto numa pista de dança ao som de uma banda de rock, a exemplo do que faziam New Order, Duran Duran e Echo & The Bunnymen nos anos 80, é graças à trilha aberta em 2001 em Glasgow, capital da Escócia, pelo Franz Ferdinand. Foram eles que inauguraram o que viria a ser chamado de new rave, as bandas neo-oitentistas que usam e abusam dos sintetizadores em músicas irresistivelmente dançantes. A fórmula seria repetida depois por outras bandas bem-sucedidas, como The Killers, The Bravery e Interpol.

O primeiro álbum, Franz Ferdinand (2004), encantou o mundo com sua coleção de hits, como "Take Me Out", "The Dark of the Matinée", "Michael" e "This Fire". Desde o New Order não se via tamanho potencial para incendiar uma pista de dança numa banda de rock. Some-se a isso o visual retrô refinado e clipes caprichados, repletos de referências históricas e da cultura pop, e dá para começar a compreender o estrondoso sucesso dos rapazes de Glasgow. O segundo disco You Could Have It so Much Better, lançado em 2005, também é excelente. Hoje eles fazem mistério sobre o novo álbum. No site, www.franzferdinand.co.uk, aparece apenas a mensagem "Not yet" (ainda não).

Não conhece? Ouça "Do You Want To" e tente ficar parado.

Justin Timberlake

Quem diria que o ex-integrante de uma boy band se tornaria o cantor mais aclamado da sua geração? O raio já havia caído uma vez na virada dos anos 70 para os 80, quando o menino-prodígio Michael Jackson deixou os o Jackson Five para se tornar o rei do pop. O que ninguém poderia imaginar é que o fenômeno se repetiria 20 anos depois com Justin Timberlake. Parecia que o garoto oxigenado do N’Sync estava condenado ao esquecimento eterno, como quase todos os integrantes de boy bands (a outra exceção é Ricky Martin, ex-Menudo).

Mas Justin deu a volta por cima: cortou o cabelo, deixou a barba por fazer, começou a vestir ternos bem cortados e, acima de tudo, passou a produzir um pop refinado e de boa qualidade. Não tem o gênio criativo de Michael Jackson, mas por outro lado não herdou sua bizarrice. Seu álbum de estréia na carreira-solo, Justified, de 2002, vendeu sete milhões de cópias ao redor do mundo. Espertamente, se associou a grandes produtores de hip-hop como Timbaland, e no ano passado lançou FutureSex/LoveSounds – que o levou a ser um dos grandes vencedores do Video Music Awards deste ano. É famoso ainda por suas namoradas, como Britney Spears e Cameron Diaz.

Não conhece? Ouça "SexyBack", do álbum mais recente.

Arctic Monkeys

A música está fora de controle nesta era do MP3 e do MySpace. Ídolos juvenis nascem e morrem em questão de semanas, muitas vezes antes sequer de ter canções suficientes para gravar um álbum. As gravadoras, completamente perdidas nessa avalanche de novidades, são obrigadas a escolher alguns desses artistas e rezar para que "peguem".

Nesse ambiente extremamente inóspito, uma banda que parece ter condições de sobreviver a esse novo darwinismo musical é o Arctic Monkeys, o primeiro grande hype planetário gestado e alimentado exclusivamente na rede mundial de computadores. Nem disco eles tinham – o primeiro, Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not, só saiu no ano passado – e esses moleques com espinhas na cara de Sheffield já estavam sendo convidados para turnês ao redor do mundo.

Hoje já estão no primeiro time do pop mundial – tanto que vêm para Curitiba no fim do mês, quando se apresentam no Tim Festival – , mas ainda precisam provar que merecem ser lembrados em 2017. A música? Um rock urgente e cheio de energia, como convém a jovens que mal chegaram aos 20 anos.

Não conhece? Ouça "I Bet You Look Good on the Dancefloor", do primeiro álbum.

Amy Winehouse

Depois de Madonna (que ainda está por aí, e cada vez melhor), parecia que o pop feminino estava condenado a ser representado por estrelas pré-fabricadas como Britney Spears, ou pseudodivas especializadas em malabarismos vocais, como Christina Aguilera ou Mariah Carrey. Até que uma inglesa de 23 anos ousou ser feia, suja, malvada e... brilhante. Amy Winehouse deixou o mundo de queixo caído no ano passado, quando lançou Back to Black – seu segundo álbum. O primeiro, Frank, de 2003, passara despercebido.

Quem é essa garota angustiada, que canta como Billie Holiday, se veste como uma dona de casa dos anos 60 e de saída escancara para o mundo os seus problemas com álcool, drogas e as agruras do seu casamento – com direito a fotos de um pujilato conjugal inundando a internet? Que garota aparece para o mundo gritando aos quatro ventos que não vai se internar numa clínica de reabilitação – como afirma no megassucesso "Rehab".

Amy Winehouse recuperou a estética da autodegradação, da depressão junkie e do escândalo, e fez escola – que o diga a artiz Lindsey Lohan. O mundo fashion correu atrás, e aproveitou para explorar a auto-imolação em editoriais de moda. Resta saber onde isso vai dar. Se sobreviver fisicamente, Amy Winehouse tem tudo para ir longe também artisticamente.

Não conhece? Ouça "Rehab", do álbum Back to Black.

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