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Jornalismo policial

Realidade e melodrama

Imprensa recorre a convenções da ficção para capturar o imaginário popular

Lindembergue Alves, de 22 anos, manteve como reféns por cinco dias a ex-namorada Eloá, de 15 anos, amiga Nayara. Eloá foi morta a tiros por Alves | Clayton deSouza/ Agência Estado/AE
Lindembergue Alves, de 22 anos, manteve como reféns por cinco dias a ex-namorada Eloá, de 15 anos, amiga Nayara. Eloá foi morta a tiros por Alves (Foto: Clayton deSouza/ Agência Estado/AE)
Pouco tempo depois do desfecho trágico do caso Eloá, um livro

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Pouco tempo depois do desfecho trágico do caso Eloá, um livro

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"A cultura de massa é animada por esse duplo movimento do imaginário arremedando o real e do real pegando as cores do imaginário." A frase é do filósofo francês Edgar Morin, em Cultura de Massas no Século XX (Ed. Forense). É a partir dessa reflexão de Morin, um dos principais teóricos da indústria cultural, que o professor Guilherme Jorge Rezende, autor do livro Telejornalismo no Brasil: Um Perfil Editorial (Ed. Summus), conclui: "Ao enevoar as fronteiras da realidade e da ficção, a mídia televisiva influi diretamente sobre a percepção que os telespectadores têm da realidade. De janela para o mundo, a tevê se transforma no próprio mundo".

Mas, conforme lembra outra estudiosa do assunto, Maria Cristina Mungioli, professora da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo e pesquisadora do Centro de Estudos de Telenovela, também da USP, "É preciso que se diga que o jornalismo utiliza técnicas narrativas comuns às obras de ficção há muito tempo e seu uso se opõe ao talvez mais importante princípio do jornalismo contemporâneo: a imparcialidade".

Rezende, por sua vez, no mesmo artigo em que cita Morin, intitulado "O discurso jornalístico e o discurso ficcional na televisão brasileira", retoma esse fenômeno nas suas mais remotas origens e dá a pista do que talvez seja, desde sempre, seu grande atrativo: "A parceria do fait divers com o folhetim, pilares da grande imprensa de massa, convoca a audiência para uma permanente intervenção na própria elaboração da narrativa noticiosa ou ficcional, estimulando a ilusória sensação de participação na história narrada".

Sonia Lanza, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), coloca essa semelhança em termos simples e elegantes: "O fait divers é a vida romanceada e o folhetim é o romance da vida". Ambos, segundo a pesquisadora, estão na origem da "espetacularização" ou "folhetinização" da notícia e compartilham uma mesma estrutura narrativa: "O corte sistemático que deveria criar suspense; textos e diálogos simples que prendiam o leitor; simplificação na caracterização dos personagens, geralmente maniqueístas (herói e vilão); o herói vingador ou purificador; a jovem deflorada e pura; os homens do mal".

"Mais real que a realidade"

São duas as principais inquietações desses pesquisadores, a maioria deles voltada ao meio, a tevê, que hoje praticamente monopoliza a chamada "espetacularização" ou "folhetinização" da notícia. Primeiro, é preciso se perguntar até que ponto o público consegue distinguir a novela do telejornal. E segundo: por sua já longa tradição no folhetim eletrônico – novelas de audiência impressionante que se sucedem na programação televisiva –, dá para dizer que a televisão brasileira induz à predileção pelo noticiário sensacionalista e melodramático?

Sobre essa última questão, a professora Maria Cristina Mungioli, da USP, lembra que "quando observamos o noticiário sensacionalista em outros países, notamos que o gosto pelo melodramático não se restringe aos países latino-americanos. Os sensacionalistas tablóides ingleses possuem uma tiragem extraordinária e convivem com o noticiário discreto e objetivo da BBC". "Por isso", completa Mungioli, "acho difícil dizer que o brasileiro prefere o melodramático devido à sua formação ‘novelística’".

"A folhetinização da informação parece anunciar praticamente a tônica da informação de hoje, que já não separa o público do privado e tornou muito tênues as fronteiras entre imprensa marrom e imprensa ‘séria’. Uma informação que apazigua e suscita a curiosidade de um público para quem o ‘excesso’ visceral do melodrama sempre foi natural." O comentário de Marlyse Meyer, em seu Folhetim: Uma História (Cia. das Letras), faz crer que o sempre fiel público dos folhetins, acostumado à estrutura do gênero, passaria a olhar para o fato noticioso da mesma forma – e, sendo o que o público pede, os meios de informação, todos, tenderiam ao sensacionalismo.

"Acredito que o público brasileiro em geral sabe distinguir o relato ficcional do relato factual", afirma Maria Cristina Mungioli, comentando as recentes coberturas dos casos Isabella e Eloá. "O público pode ter visto nessas histórias características folhetinescas, mas isso não significa que as considerou como ‘novela das oito’." Para a professora, "o problema maior não é o fato de o telespectador reagir emocionalmente frente à notícia, mas sim o de ser levado a crer que o que vê é o retrato fiel da realidade e que somente determinada emoção ou compreensão seja possível".

Já Sonia Lanza chama a atenção para outro aspecto, enfim um diferencial que não passará em branco nem ao mais distraído dos telespectadores: "Nas telenovelas os dramas são, de alguma maneira, resolvidos, têm função catártica, o que nem sempre acontece na "vida real". A ressalva vem em seguida: "As tragédias, os fatos", lembra a pesquisadora, "sempre foram pautas em todos os tempos, em todas as produções humanas: pintura, literatura, cinema. Mas atualmente a fantasia parece ser ‘mais real que a realidade’".

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