
Respiro, o primeiro disco solo da cantora e atriz Michelle Pucci lançado em maio deste ano, começou a ser gestado em 2006. O projeto surgiu como um show que foi ganhando fôlego e mudando de direção, até se consolidar na gravação concluída no ano passado.
"Fiz muitos shows antes de gravar. Foi ótimo para o meu olhar, para como eu me relaciono com o meu trabalho", explica Michelle.
O álbum tem dez canções e um happening. "Foi uma experiência de liberdade. Eu e todos os músicos fomos juntos para o estúdio e ficamos vinte minutos improvisando", relembra.
A última faixa é uma inusitada parceria entre o músico Ulisses Galetto e o escritor curitibano Manoel Carlos Karam (1947-2007), nascida de uma provocação do escritor Luiz Felipe Leprevost ao músico, em 2007.
Na ocasião, Leprevost, Michelle e a atriz Nadia Naira e o ator Alexandre Nero montavam o espetáculo Encrenca; uma seleção de fragmentos da obra do autor que trazia de volta aos palcos a trajetória do escritor, que já estava debilitado pelo câncer que o matou no mesmo ano (leia mais ao lado).
"Eu a vejo como uma música de ritual. No meu disco funciona como um fim que fica suspenso no ar", observa a cantora.
O clipe da canção chamada Roquenrol está sendo lançado hoje no site da Gazeta do Povo. Gravado ao vivo em maio, no Teatro Paiol, a faixa é uma mostra da relação íntima que a cantora estabelece com "este homem fatal", maneira como define o escritor.
"O Karam tem uma literatura muito provocante e aos mesmo tempo bem-humorada. Me interessa muito a maneira como ele constrói os textos, usa as suas referências. A alta qualidade, em termos de composição, fortalece meu trabalho como atriz e como cantora", analisa.
A "ocupação Karam" na subjetividade criativa da cantora não para por aí. O disco traz também uma parte do texto Inviável, declamado pelo escritor.
Incomunicabilidade
Michelle, que está se formando em Letras na Universidade Federal do Paraná (UFPR), é pesquisadora da obra de Karam sua monografia de conclusão de curso será sobre a obra do escritor, com orientação da professora e poeta Luci Collin.
Ela afirma que a influência do escritor foi uma das forças que usou para vencer a encrenca que é gravar e trabalhar a vida de um disco em um ambiente de mercado cada vez mais hostil ao formato.
"O respiro é isso, é a brecha. Um pequeno rasgo de liberdade na opressão do concreto da cidade. Cantar para mim é uma libertação", avalia.
O disco abriga composições de poetas como Rodrigo Garcia Lopes, Marcelo Sandman, entre outros autores da cena curitibana. Também traz duas faixas do músico paulista Maurício Pereira, "Mergulhar na Surpresa" e "Common Uncomunicability", do repertório dos Mulheres Negras, que fala sobre a incomunicabilidade contemporânea. Para a cantora, o tema central de seu disco.
"Penso que qualquer pessoa pode ser inviável. Por mais que você se olhe e goste do rosto e do que ela mostra, não a conhecerá por inteiro", filosofa. "No arranjo do disco, eu e o produtor Rodrigo Lemos tentamos reproduzir esta distância entre janelas de apartamentos das grandes cidade. A canção deixa no ar esta pergunta: por que ficamos distantes, estando tão próximos?", indaga Michelle.
Confira o vídeo:





