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Michelle Pucci: um respiro em meio ao concreto da cidade | Rosano Mauro Jr/ Divulgação
Michelle Pucci: um respiro em meio ao concreto da cidade| Foto: Rosano Mauro Jr/ Divulgação

Depoimento

"Canção fala sobre o que resta para um homem"

Luiz Felipe Leprevost, especial para a Gazeta do Povo

"Estávamos na casa do Karam ensaiando a leitura pública de Encrenca, em 2007, que tinha a intenção (e realizou) de colocar a obra do Karam de novo nos palcos, pois ele já não se relacionava com teatro há muito. O espetáculo foi a última aparição pública do Karam.

Lá pelas tantas, eu disse que lamentava que ninguém da música fizesse um uso, um intercâmbio da obra do Karam para o campo da canção, já que ele adorava música, conhecia muito, tinha um irmão e um filho músicos e etc.

Então mostrei pro Ulisses Galetto o poema que tava dentro do livro Pescoço Ladeado por Parafusos e provoquei: "Se você é homem, musica esta pérola".

O que tinha de pérola no poema eram duas coisas, o fato de ele funcionar independentemente do resto do livro, por si só, já que o Karam em geral deixa tudo tão amarradinho em suas obras e mesmo entre elas, que é difícil adaptar qualquer coisa.

A segunda razão era o fato de ser um poema que falava sobre o roquenrol (ele escrevia assim). Se fosse musicado se tornaria um poema/letra e teria entre seus sentidos o da metalinguagem, uma canção que fala justamente sobre o não saber fazer, sobre o que resta para um homem, e, neste caso, era só o roquenrol." *Luiz Felipe Leprevost é escritor, editor, músico e dramaturgo, autor do livro Salvar os Pássaros.

Karam

O catarinense Manoel Carlos Karam (1947-2007) viveu e produziu em Curitiba desde 1966. Foi dramaturgo, escritor, jornalista e autor de mais de vinte peças de teatro e sete livros em vida. Em 1995, com a obra Cebola, ganhou o prêmio Cruz e Souza de Literatura. Como jornalista, trabalhou em televisão, jornais e na Prefeitura de Curitiba. Em 2008, a Casa da Leitura do Parque Barigui foi batizada com o nome do escritor. O espaço abriga a biblioteca particular de Karam, composta de mais de três mil volumes.

Michelle

A curitibana Michelle Pucci é cantora desde criança. Seu primeiro trabalho profissional foi na banda Nega Fulô, que interpretava músicas dos anos 1970. No início dos anos 2000, fez parte do grupo de música de raiz Caixaprego. Na mesma época iniciou carreira de atriz: integrou a companhia de teatro Vigor Mortis e trabalhou em peças de autores como Alexandre França e Marcos Damasceno, além de participações em filmes, publicidade e televisão. Durante três anos apresentou o programa Noites Curitibanas, na ÓTV. Respiro é seu primeiro álbum solo.

  • A cantora estuda a obra de Manoel Carlos Karam
  • Karam, um escritor

Respiro, o primeiro disco solo da cantora e atriz Michelle Pucci lançado em maio deste ano, começou a ser gestado em 2006. O projeto surgiu como um show que foi ganhando fôlego e mudando de direção, até se consolidar na gravação concluída no ano passado.

"Fiz muitos shows antes de gravar. Foi ótimo para o meu olhar, para como eu me relaciono com o meu trabalho", explica Michelle.

O álbum tem dez canções e um happening. "Foi uma experiência de liberdade. Eu e todos os músicos fomos juntos para o estúdio e ficamos vinte minutos improvisando", relembra.

A última faixa é uma inusitada parceria entre o músico Ulisses Galetto e o escritor curitibano Manoel Carlos Karam (1947-2007), nascida de uma provocação do escritor Luiz Felipe Leprevost ao músico, em 2007.

Na ocasião, Leprevost, Michelle e a atriz Nadia Naira e o ator Alexandre Nero montavam o espetáculo Encrenca; uma seleção de fragmentos da obra do autor que trazia de volta aos palcos a trajetória do escritor, que já estava debilitado pelo câncer que o matou no mesmo ano (leia mais ao lado).

"Eu a vejo como uma música de ritual. No meu disco funciona como um fim que fica suspenso no ar", observa a cantora.

O clipe da canção chamada Roquenrol está sendo lançado hoje no site da Gazeta do Povo. Gravado ao vivo em maio, no Teatro Paiol, a faixa é uma mostra da relação íntima que a cantora estabelece com "este homem fatal", maneira como define o escritor.

"O Karam tem uma literatura muito provocante e aos mesmo tempo bem-humorada. Me interessa muito a maneira como ele constrói os textos, usa as suas referências. A alta qualidade, em termos de composição, fortalece meu trabalho como atriz e como cantora", analisa.

A "ocupação Karam" na subjetividade criativa da cantora não para por aí. O disco traz também uma parte do texto Inviável, declamado pelo escritor.

Incomunicabilidade

Michelle, que está se for­­­­man­­do em Letras na Uni­­­versidade Federal do Paraná (UFPR), é pesquisadora da obra de Karam – sua monografia de conclusão de curso será sobre a obra do escritor, com orientação da professora e poeta Luci Collin.

Ela afirma que a influência do escritor foi uma das forças que usou para vencer a encrenca que é gravar e trabalhar a vida de um disco em um ambiente de mercado cada vez mais hostil ao formato.

"O respiro é isso, é a brecha. Um pequeno rasgo de liberdade na opressão do concreto da cidade. Cantar para mim é uma libertação", avalia.

O disco abriga composições de poetas como Rodrigo Garcia Lopes, Marcelo Sandman, entre outros autores da cena curitibana. Também traz duas faixas do músico paulista Maurício Pereira, "Mergulhar na Surpresa" e "Common Uncomunicability", do repertório dos Mulheres Negras, que fala sobre a incomunicabilidade contemporânea. Para a cantora, o tema central de seu disco.

"Penso que qualquer pessoa pode ser inviável. Por mais que você se olhe e goste do rosto e do que ela mostra, não a conhecerá por inteiro", filosofa. "No arranjo do disco, eu e o produtor Rodrigo Lemos tentamos reproduzir esta distância entre janelas de apartamentos das grandes cidade. A canção deixa no ar esta pergunta: por que ficamos distantes, estando tão próximos?", indaga Michelle.

Confira o vídeo:

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