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Gazeta no set de "400contra1"

"Sempre tive fascinação por presídios", diz Daniel de Oliveira em filmagem

Daniel de Oliveira como William da Silva Lima, em 400contra1 | Cícero Cavalli
Daniel de Oliveira como William da Silva Lima, em 400contra1 (Foto: Cícero Cavalli)

Daniel de Oliveira, 31 anos, gravou em Curitiba, Paraná, cenas do seu próximo filme, 400contra1 – Uma História Sobre o Comando Vermelho, que se passa dentro de um presídio. Vestido como William da Silva Lima, um dos fundadores do movimento Comando Vermelho, o ator disse à Gazeta do Povo Online, no intervalo das filmagens, que "sempre teve fascinação por presídios. "É uma sensação que não sei explicar", disse.

Cercado por fãs e curiosos, Oliveira contou que o contato com internos da Colônia Penal Agrícola de Piraquara, na capital paranaense, foi essencial na composição de seu personagem. "Estar ali com eles, confinado, e trabalhar em conjunto com os internos foi fundamental. Pegamos o jeito deles, a postura."

Em seu quinto personagem verídico nos cinemas – Cazuza, Stuart, Frei Betto e Santos Dumont foram os demais -, o ator precisou cortar o cabelo para acentuar a calvície e usar lentes de contato escuras para interpretar William.

Mineiro de Belo Horizonte, Daniel de Oliveira diz que passou a ver William como um ser humano depois de ler o livro que intitula o filme. "Ele é um personagem complexo, escreve coisas muito interessantes, além de poesia. É um ser humano que está ali e que teve essa história de vida."

400contra1 narra a criação do Comando Vermelho no Brasil, durante o período do regime militar, quando presos políticos e comuns dividiam a Galeria B, do presídio de Ilha Grande, no Rio de Janeiro. O filme mostra a luta dos detentos contra as condições subumanas da cadeia e o respeito e companheirismo que surgiram junto das "leis" que proibiam roubos, ataques e violência física e sexual entre os presos.

Parte do longa (cerca de 60%) foi gravada no Presídio do Ahú, em Curitiba. As demais cenas serão filmadas em Ilha Grande e Rio de Janeiro. O filme tem previsão de estreia para o fim de 2009 ou início de 2010.

Confira a entrevista na íntegra:

Você já fez cinco personagens verídicos, assim como o William da Silva Lima. O que te atraiu para esse personagem?

É, esse é meu quinto personagem verídico, foram: Cazuza, Suart, Frei Betto, Santos Dumont e agora o William. Esse personagem me atraiu por ser forte, por fazer parte do início de uma organização. E o que mais me chamou atenção foi que ele é um documento histórico e é importante registrar nossas histórias, além de ser totalmente cinematográfico. Eu também sempre sonhei em fazer algo parecido. Uma vez, depois de assistir à peça "Salmo 91", de Gabriel Vilela, eu participei de um debate com o Drauzio Varella e ele disse que a cadeia o atraía, o fascinava. E eu também sempre tive essa fascinação. Na época eu até pensei: "um dia vou fazer um trabalho assim".

Como você explica essa fascinação por presídios?

Eu não sei, é uma sensação que não sei explicar. Estar ali aglutinado, na cadeia, acho que é visualmente interessante. Não sei de onde vem isso. O Drauzio também não soube explicar, mas não deixa de ser engraçado. E essa é a terceira vez que filmo em presídios. Teve o Frei Betto e Stuart também.

Você já conhecia a história do William?

Não conhecia. Durante a composição de Frei Betto e Stuart li algumas coisas, mas não me concentrei na parte do início do movimento. Era mais a história dos frades dominicanos e do próprio Suart. Mais uma história da ditadura nesse país.

Você pensou em dormir no Presídio do Ahú para entender melhor o personagem. Você chegou a fazer isso?

Não. Ali no Presídio do Ahú não dava para dormir. Eu até pensei em dormir lá, mas quando entrei, vi que não é um lugar legal de se dormir. Mas tivemos uma vivência bem bacana com o pessoal da Colônia Penal Agrícola de Piraquara. Tivemos uma interação muito boa com internos de verdade. E estar ali com eles, confinado, e trabalhar em conjunto com os internos foi fundamental. Pegamos o jeito deles, a postura de estar sempre alerta e de não poder vacilar. Vimos que tem uma coletividade entre eles, mas ao mesmo tempo tem uma solidão profunda. É cada um por si, com seus sentimentos. Você pode até confidenciar coisas com seu parceiro, defendê-lo e ser amigo, irmão, mas a solidão ainda existe. Cada um tem sua história e vai sair quando tiver que sair.

Como você compôs esse personagem? O próprio Caco Souza já fez documentários sobre o William. Isso ajudou?

Ajudou demais. Assistir aos documentários dele foi essencial, o primeiro passo. Até tem uma história engraçada com o Caco: ele foi o diretor de fotografia do primeiro comercial que eu fiz em Belo Horizonte, isso há 11 anos.

E você se lembrava dele?

Não. Ele que lembrou e me convidou para fazer esse personagem. Na hora eu aceitei. O primeiro passo para compor o personagem foi assistir aos documentários. Depois, li o livro "Quatrocentos Contra Um", do próprio William da Silva Lima, que é um cara muito interessante por ser um dos mentores da organização, depois intitulada de Comando Vermelho – porque no início eles nem procuravam um nome, era uma organização só para se defender dentro do presídio. Eles tinham que se organizar para evitar estupros, roubos... Tiveram que se impor dentro dessa coletividade e em contato com os políticos abriram a cabeça para outro universo. E o William se autointitula como poético, e ele é, porque escreve coisas muito interessantes e poesia. É um cara muito complexo. Eu não o estou endeusando e idolatrando, tanto é que ele pagou pelos crimes que cometeu, ficou preso por 30 anos. Mas agora o vejo de uma forma humana. Na hora de assaltar o banco, ele assaltava. Não é um herói, é um ser humano que está ali e que teve essa história de vida.

Nesta quarta-feira, confira a entrevista com diretor de ' 400contra1 - Uma História Sobre o Comando Vermelho', Caco Souza

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