
Começou com o Youtube. Divulgar qualquer vídeo de curta duração, seja uma experiência mais ou menos amadora, por vezes caseira, ficou até fácil. Com sorte e um boca-a-boca eficiente (ao vivo ou virtual), é possível se destacar entre os milhões de títulos ao ponto de alcançar certa fama. Sem esquecer que a concorrência é imensa e a atenção do público é disputada com trechos de programas de tevê, shows, clipes e escapadinhas de celebridades.
Na mesma onda de estabelecer canais amplos de interatividade com o público, entrou no ar em julho a FIZ TV, uma emissora fechada do Grupo Abril, para assinantes da TVA, cuja programação depende inteiramente dos vídeos que os internautas mandam para o site www.fiztv.com.br. A vantagem do projeto é dar ainda mais liberdade para o público, que, além de criar a programação, tem à disposição ferramentas para definir como e quando os vídeos irão ao ar.
É na página virtual que tudo acontece. Depois de se inscrever, o usuário do site pode postar vídeos de sua autoria que obedeçam às especificações técnicas (arquivos de até 50 megas, nos formatos mov., avi, ou mpeg.). Todos os vídeos enviados ficam à disposição no site e os mais vistos e votados entram na programação da tevê.
A iniciativa de aliar site e televisão foi "um negócio natural". "As pessoas têm mais acesso à tecnologia, os equipamentos estão com preços acessíveis, mas faltava um lugar para dar vazão ao que é produzido. Os blogs e páginas pessoais estavam pequenos para isso. O Youtube é um grande reservatório, mas os vídeos ficam diluídos entre os não autorais", explica o gerente de produção da FIZ TV, Demian Grull.
A proposta do projeto, segundo Grull, é promover a obra autoral, dando liberdade de tema, linguagem e formato aos usúarios. Os vídeos são divididos em categorias que abrangem os filmes feitos em casa, curtas-metragens, animação, esquetes de humor, documentários, jornalismo, esporte e lugares mas elas não existem para restringir a criatividade de ninguém.
Para reforçar a interatividade, deve ser criado nos próximos meses um videochat, no qual os espectadores poderão, de suas próprias casas, em frente às câmeras digitais, debater ao vivo sobre a programação.
Outro estímulo à interação é a remuneração para os vídeos que forem selecionados para passar na tevê. O valor varia de R$ 50 a R$ 500 cresce de acordo com a maior colaboração do usuário no site, até que a pontuação atinja a patente máxima, o "Chuck Norris". Quem chegar lá, além de estabelecer uma relação mais estreita com o site, participará de uma premiação para os melhores diretores.
Os usuários, segundo o gerente de programação, são pessoas entre 17 e 45 anos, de diversos cantos do Brasil. Há vídeos feitos no Paraná, Belo Horizonte, Recife, Bahia etc.
O conteúdo é bastante variado e não sofre moderação por parte da administração do site. A não ser em casos de suspeita de que a autoria seja falsa ou de que o vídeo foi copiado de outra emissora, para os quais uma assessoria jurídica entra em ação.
Além disso, há um cuidado com a faixa etária recomendada. "Na tevê por assinatura, não temos tanta preocupação com a classificação indicativa, mas criamos uma faixa de horário para os programas mais picantes", diz Grull.
Do Orkut à FIZ TV
Fernanda Farion, Wilton Isquierdo e Luiz de Oliveira nunca tinham atuado. A inexperiência, porém, não os impediu de interpretar os personagens de A Flor, o curta-metragem mudo, escrito e dirigido pelo publicitário Marcos Farion, que foi parar na programação da FIZ TV.
"Na verdade, era mais uma coisa entre amigos, para dar umas risadas depois. Acabou virando um filme de verdade", conta Marcos, que fez uma especialização em Cinema.
A trama amorosa com final trágico foi gravada no Parque Barigüi, com uma câmera Mini DV emprestada e a ajuda de outros amigos, que se conheceram na comunidade Banda Teatro Mágico, do site de relacionamentos Orkut, no qual o projeto foi idealizado.
No primeiro dia de gravação, a chuva impediu as atividades. No segundo, o grupo de dez pessoas esperou o tempo abrir e contou com a boa vontade de quem passeava no parque e topou fazer a figuração.
Afinal, sem grandes gastos, A Flor recebeu menção honrosa no PUTZ! Festival Universitário de Cinema e Víde de Curitiba; foi selecionado pelo festival Mostra Língua, de Portugal; ultrapassou as 2,5 mil visualizações no site da FIZ TV e já está no ar na TVA embora o diretor ainda não tenha tido a chance de assistir.
No Youtube, o publicitário também postou A Flor e o vídeo-clipe Fico Assim sem Você. Apesar de ele não levar à sério a animação "tosca" sobre a música da dupla Claudinha e Buchecha, cantada por Adriana Calcanhotto, o vídeo está perto da impressionante marca de mil visualizações.
Mais do que concorrentes, entretanto, os dois sites são maneiras de driblar limitações de mercado para buscar a atenção do público para o trabalho de quem ainda é anônimo. E as perspectivas que abrem, na opinião de Marcos, são ilimitadas.
"Pessoas de outros países podem ver, encontram outros trabalho que fiz. Para a divulgação é maravilhoso", diz. É por isso que o diretor iniciante já planeja postar um terceiro filme, Esperando Mariana, na FIZ TV. Quanto mais canais para alcançar os espectadores, melhor.







