
O 18º Festival de Curitiba começa, de fato, esta noite, quando Thiago Lacerda ouvir as primeiras reações do público à sua entrada em cena no Guairão, em Calígula; as atrizes Georgette Fadel e Isabel Teixeira surgirem em frente à plateia do Teatro Paiol, como protagonistas da peça Rainha[(s)] Duas Atrizes em Busca de Um Coração; e o circo armado pela Pia Fraus e pelos Parlapatões estiver completo na Ópera de Arame, onde encenam Oceano (leia reportagem na página 2).
A Mostra Contemporânea chega à sua maturidade simbólica quanto à artística, talvez demore um pouco mais em um ano de crise financeira. Atingida pela interrupção da parceria com a Petrobras, empresa que tem sido sua principal patrocinadora, teve de diminuir custos e contar com o auxílio do banco Itaú. Os reflexos da crise na mostra oficial não são admitidos, e, diante da programação, não se pode dizer que tenha perdido qualidade em relação às edições dos anos mais recentes. Afinal, a miscelânea de peças com linguagem mais elaborada, em meio a outras de apelo comercial, não é uma novidade por aqui.
Crítica
A presença de um espetáculo como Rainha[(s)] Duas Atrizes em Busca de Um Coração, aclamado pela crítica paulista, deve ser uma prova de que o comprometimento com a qualidade da mostra não foi esquecido.
Luiz Fernando Ramos, crítico da Folha de São Paulo, elogiou o trabalho, na ocasião da estreia paulista: "A encenação de Cibele Forjaz é um feito extraordinário (...) Filha do Oficina, ela consolida com essas rainhas sua própria marca, ao mesmo tempo em que confirma a origem, perfurando fundo. Mas o vinho raro da grande teatralidade não teria jorrado se não fosse o encontro com duas atrizes muito especiais: Isabel Teixeira e Georgette Fadel."
Mary Stuart
Há uma feliz coincidência em coexistir, na programação da Mostra Contemporânea, duas montagens construídas a partir do mesmo texto: Mary Stuart, do dramaturgo Friedrich Schiller (1759-1805). Um dos grandes literatos da Alemanha do século 18, ao lado de Goethe, o autor já havia sido lembrado nos palcos paulistas ano passado pelo Teatro Oficina, com Os Bandidos.
Maria Stuart, que entra em cartaz apenas dia 25, leva ao palco do Auditório Positivo a versão integral do texto alemão, traduzido pelo poeta Manoel Bandeira, com um elenco de 15 atores, encabeçado por Clarice Niskier e Júlia Lemmertz. A mesma tradução interessou à atriz Isabel Teixeira, depois de deixar a Cia. Livre, dirigida por Cibele Forjaz, com a qual havia encenado Um Bonde Chamado Desejo, em 2002. Foi então merecedora de uma indicação ao Prêmio Shell pelo papel de Stella.
Isabel seguiu seu caminho independente. Participou, entre outras montagens, de Gaivota, Tema para um Conto Curto, sob a direção de Enrique Diaz. Quando, enfim, resolveu produzir seu próprio projeto, pensou em Schiller. E em Cibele. Voltou à diretora e a convenceu do projeto, pelo qual venceu ontem o Prêmio Shell de melhor atriz.
Sanguinário
Rainhas é um embate. Um sanguinário jogo de estratégias. Isabel Teixeira e sua Mary Stuart enfrentam a atriz Georgette Fadel e sua Elizabeth I, em um confronto físico e emocional.
O Teatro Paiol se transforma em palco da luta entre essas personagens poderosas, adquirindo o formato de um labirinto, onde possam travar sua perseguição de gata e rata. "Sempre pensamos nesse tabuleiro com a plateia próxima", diz Cibele, a quem a intimidade do espaço pequeno agrada.
O encontro fictício das personagens verídicas da realeza europeia se tornou um clássico da literatura ocidental pela pena de Schiller, e é "devorado" pelas três mulheres que o atualizam em cena, interessadas no que aquelas rainhas lhes dizem agora sobre poder, vaidade, competição. Cibele Forjaz é herdeira de José Celso Martinez Corrêa e seu teatro antropofágico. Por isso, não se pode esperar que Rainhas seja outra coisa senão uma criação completamente nova e independente da obra original.
Serviço
Rainha[(s)] Duas Atrizes em Busca de Um Coração. Teatro do Paiol (Pça. Guido Viaro, s/n.º), (41) 3213-1340. Dias 19 e 20 às 21 horas. R$ 40 e R$ 20.








