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No desfile de 2006 parte dos foliões saiu como bloco. Neste ano, o grupo inteiro terá a mesma fantasia | Alice Rodrigues/Divulgação
No desfile de 2006 parte dos foliões saiu como bloco. Neste ano, o grupo inteiro terá a mesma fantasia| Foto: Alice Rodrigues/Divulgação

De pai para filhos

Na casa do jornalista Marden Machado, colecionam o pai e os três filhos. Tudo começou pela compulsão de Marden, 44 anos, o orgulhoso proprietário de uma coleção de mil DVDs, 700 CDs e um sem-número de quadrinhos. Tudo muito arrumadinho em ordem alfabética e cronológica em um ambiente reformado recentemente para reacomodar a série sempre crescente – e adaptada aos novos tempos. O jornalista trocou seus LPs por CDs, desfez-se dos VHS e trocou os gibis avulsos que lia na adolescência por edições encadernadas.

Os filhos aderiram à mania do pai. A mais velha, Danielle Oliveira Machado, 20 anos, conta que sua coleção de CDs é parecida com a de Marden, mas em escala bem menor. "Às vezes, rola briga. Compro um CD que ele gostaria de ter para ele", diz. Os irmãos Philip e Lucas de Oliveira Machado diferenciam-se pela coleção de mangás (quadrinhos japoneses). A única que foge à regra familiar é a esposa de Marden. "Ela só coleciona canetas", conta ele.

A família não aderiu aos downloads de música e vídeo pela internet. "Piratear é só para os outros", diz Danielle, referindo-se aos amigos que pedem cópias. "É outra sensação ter o CD ou o DVD original", finaliza.

O conceito de colecionismo poderia aparecer no dicionário como uma "espécie de patologia que afeta, em grande parte, os homens". Mas, antes de ser acusada de misoginia, é melhor esclarecer que quase não surgiram nomes femininos entre as inúmeras referências de possíveis entrevistados para esta reportagem. Exceções existem, é claro, mas parece que o gosto pela posse de objetos em série é uma mania bem masculina.

E sem limite de idade. "Por aqui passam crianças de 7 a 90 e poucos anos", diz Luiz Francisco Utrabo, proprietário da Itiban Comic Shop, especializada em quadrinhos. Em alguns minutos de conversa ao telefone, ele passou à repórter uma dezena de contatos de consumidores inveterados do gênero.

Um deles é o executivo Eduardo Ribas Fontana, que alia às pilhas de HQs uma coleção de bonecos, mais conhecidos como action figures. Predador, Exterminador do Futuro, Homem-Aranha e os personagens do filme Sin City são apenas algumas peças de sua coleção "de perder a conta". A paixão pelos quadrinhos de super-heróis e adultos – já somam 10 mil exemplares –, que nutre desde os 16 anos, é uma conseqüência do gosto pelas artes gráficas. "As pessoas pensam que gibi é só da Mônica. Não sabem que se pode ir bem mais além", diz, referindo-se à sofisticação dos desenhos em seqüência feitos para o público adulto.

Mas, Fontana não se considera um comic maniac, como são chamados os fanáticos por quadrinhos. Já não tem tempo de ler tudo o que compra – embora não deixe de comprar para manter sua coleção completa. Aos 37 anos, orgulha-se de outra coleção – a de livros, que pretende expandir para além dos já consideráveis 2 mil exemplares atuais.

Janela para o passado

Luiz Utrabo sim é um comic maniac, mesmo que não colecione nada. "Sabe como é. Casa de ferreiro espeto de pau", brinca. O provérbio não vale para Paulo José da Costa, proprietário do sebo Fígaro. A criação da loja foi uma bela desculpa para ampliar ainda mais seu raio de aquisições.

A mania de colecionar começou aos cinco anos, com dois gibis. Algumas décadas mais tarde, foi preciso comprar um apartamento para acomodar melhor a coleção de 4 mil vinis, 4 mil CDs, 5 mil discos de 78 rotações, 600 discos de 16 polegadas, 1.200 DVDs, cassetes, livros, revistas, selos, postais, álbuns de fotos de família e filmes em celulóide, entre outros objetos pré-década de 40.

Por falta de espaço, Paulo precisa ser exigente. "Preciso fazer com que cada centímetro quadrado receba o melhor", diz. Por isso, em sua coleção de MPB não há nada comercial. É uma seleção requintada "da história da música no Ocidente e no Oriente", como ele próprio classifica.

O garimpo de novos artigos para a coleção quase nunca é feito pela internet. Paulo prefere visitar a casa de quem quer se desfazer de suas raridades. "Compro livros e discos para a livraria e já pergunto sobre outras coisas", conta. Os catadores de papel também colaboram, trazendo álbuns com fotos, às vezes antiqüíssimas, que as famílias jogam no lixo.

A agonia de saber que "há muita coisa se perdendo por aí" é um dos motivos que levam Paulo a colecionar. "Além disso, cada objeto é uma janela para o passado", conta. Daqui há 30 anos, o livreiro estuda doar seu acervo fotográfico. "É preciso dar destino em vida à coleção, para que ela não se perca", justifica.

É doloroso se desfazer de objetos que não raro se misturam à lembranças da própria história de vida de seus donos. Apesar da relutância, tornar pública a coleção talvez seja a melhor solução, a exemplo do que fez recentemente o maior colecionador de livros do país, o empresário paulista José Mindlin.

Quando era adolescente, ele desenvolveu uma obsessão pela leitura que, após 80 anos, culminou em uma biblioteca particular de cerca de 50 mil volumes. Em maio do ano passado, aos 92 anos, Mindlin decidiu doar metade de seu acervo à Universidade de São Paulo (USP). "A gente tem que lidar com nosso lado emocional e racional. O emocional foi vencido e o racional tem que seguir a decisão tomada", disse, em entrevista ao Caderno G, no final de 2006.

Por enquanto, Mindlin guarda sua invejável coleção em casa mesmo. "Quando a compramos, em 1947, era uma casa pequena que foi aumentada para formar dois pavilhões para os livros. Além disso, há espaços fora de casa".

A casa é o museu de outro grande colecionador, o professor Ario Taborda Derjint. Ao longo de 40 anos, ele reuniu uma das mais importantes coleções de arte da região Sul – com destaque para a série de arte moderna paranaense, que reúne o trio Miguel Bakun, Teodoro de Bona e Guido Viaro.

Os quadros estão pendurados do rodapé ao teto do apartamento."Não fiz sancas para não perder espaço", diz o professor. A esposa é "cúmplice do crime" desde que se casaram, em 1963. "Foi quando pude ter liberdade para colecionar, pois passei a ser o dono da casa", conta. Hoje, aos 75 anos, ele já recebeu propostas de compra – sempre negadas – e até de criação de um museu para acomodar suas obras. "Só aceito com uma condição: morar no museu." A brincadeira tem um fundo de verdade, afinal, é doloroso se distanciar de objetos que exigiram dele escolhas na vida. "Tive que abdicar de muitas coisas. Além disso, é gostoso morar junto com a arte", diz.

Como Mindlin, que nunca pára de limpar seus livros – "quando acaba, recomeça" –, o professor toma cuidados específicos para manter "intocáveis" obras de autoria de Portinari, Di Cavalcanti e Guignard, só para citar exemplos. A esposa limpa pessoalmente algumas salas e é preciso mandar restaurar os quadros, de tempos em tempos, o que custa caro.

O professor não sabe se sua coleção seria tão bem cuidada se estivesse sob a tutela de um órgão público – sujeito a trocas de administração a cada mudança de governo. "O respeito à arte ainda é fraco no Brasil", conta.

Este é o temor de muitos colecionadores. Mindlin impôs algumas condições à doação que fez a USP: se a construção da nova sede do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB), que vai abrigar parte de sua biblioteca, não ficar pronta até 2009, a doação poderá ser anulada, o que também poderá acontecer se, porventura, a universidade for privatizada.

Exigências indispensáveis em um país com fama de desmemoriado, para que coleções como a de Paulo José da Costa não sejam um dia encontradas na rua por catadores de lixo.

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