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Subsolo contemporâneo

Uma nova galeria, criada em novembro passado, se propõe a abrigar as mais diversas manifestações, como o grafite e a arte popular

Baycroc, a batata guerrilheira grafitada por Caio Augusto Bill nas esquinas de Curitiba, invade a galeria, uma das boas novidades no cenário local de artes plásticas | Fotos: Hedeson Alves/Gazeta do Povo
Baycroc, a batata guerrilheira grafitada por Caio Augusto Bill nas esquinas de Curitiba, invade a galeria, uma das boas novidades no cenário local de artes plásticas (Foto: Fotos: Hedeson Alves/Gazeta do Povo)
As telas de Bill extrapolam os limites das telas em cenário de guerrilha urbana |

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As telas de Bill extrapolam os limites das telas em cenário de guerrilha urbana

Um tapete vermelho sempre estendido convida os passantes a entrar na casa da década de 1950 localizada à Avenida Iguaçu, 2.481. Mas o piso não dá acesso a um lugar luxuoso e exclusivo. Ao contrário. A Subsolo Galeria de Arte Contemporânea foi criada, em novembro passado, para abrigar exposições de arte contemporânea de um modo que a aproxime do público.

A intenção está explicitada em um adesivo colado à parede com o lema "Homem + Arte + Homem". "A ideia é que as pessoas saíam daqui mais humanizadas, diferentes, e isso acontece de fato", conta Joice Gumiel, curadora do espaço.

Entram ali de artistas a curiosos que nunca conheceram uma galeria de arte. De funcionários de empresas vizinhas, em intervalo de almoço, a mendigos convidados a descer a escadaria que leva ao subsolo que nomeia significativamente esta galeria de arte pequena, mas de projetos ambiciosos. "Buscamos selecionar nossa programação de modo a ampliar o máximo possível o conceito de arte", explica Joice.

De volta do Rio de Janeiro há dois anos, onde viveu por três décadas e fez mestrado em Estética Filosófica na Universidade Federal do Rio de Janeiro, Joice envolveu-se no projeto da galeria inicialmente para trabalhar no acervo do artista pernambucano Delima Medeiros (1935-2002), cujos herdeiros são os proprietários do espaço. "A galeria é um centro cultural em referência a ele", conta. Tanto que a primeira exposição reuniu algumas das grandes telas do pintor que viveu 19 anos na Europa, onde participou da 35.ª Bienal de Veneza – o restante do acervo será mostrado de tempos em tempos, e Joice planeja um modo de organizar uma mostra itinerante pelo país.

Grafite

A segunda mostra, Baycroc, reflete a heterogeneidade de uma curadoria que considera a galeria uma extensão da rua. O que é de fato. Basta ver as portas da frente sempre abertas por onde adentram os sons da avenida. Foi, aliás, andando pelas ruas que Joice conheceu os grafitis de Caio Augusto Bill e, admirada, convidou-o para realizar uma exposição. O jovem artista de rua, que trabalha como ilustrador em casa como forma de flexibilizar seus horários para sair por aí pintando muros, nunca quis levar o que faz para o espaço de uma galeria ou museu. "Mas o convite feito pela Joice foi bem interessante, nossas ideias ‘bateram’", diz.

"No início, Caio ficou em dúvida porque há, sim, uma contradição quando a arte de rua entra em um lugar fechado. Isso incomoda o artista. Mas demos liberdade para ele pensar em uma proposta de ocupação", diz Joice, que, para ser fiel às características do grafite, se preocupou mais do que nunca em evidenciar a galeria como um espaço público. A ponto de acatar o desejo de Caio e dispensar coquetel e seguranças na vernissage. "No início, fiquei apreensiva ao imaginar como seriam os visitantes de uma exposição de grafite. Mas veio todo o tipo de gente, e as pessoas se misturaram de um jeito muito tranquilo. Foi tudo ótimo", conta a curadora.

Trilha musical

"Essa música dá muito medo", disse uma dupla de visitantes, após visitar Baycroc. Eles se referiam à ambientação sonora selecionada por Joice: músicas eletroacústicas feitas por profissionais como, por exemplo, a paranaense Joci de Oliveira. A trilha sem melodias, pontuada por ruídos, dá um clima de estranheza à visitação das duas salas de exposição onde as obras de Bill extrapolam as telas sem mol­­duras e invadem as paredes brancas.

O protagonista é Baycroc – nome que faz referência ao primeiro dono da rede McDonald’s, Ray Croc –, uma batata que, ao ver suas amigas sendo aniquiladas por grandes empresas de fast food, resolve sair armada pelas ruas como guerrilheira urbana. Junto com o personagem, "sempre na surdina e com filosofia e pensamento próprios", Caio criou uma espécie de cenário que referencia o próprio ato artístico. Somam-se às pinturas, em que predominam o preto e o vermelho, uma cadeira grafitada; um cesto de lixo do Mc­­Do­­nald’s iluminado que, em vez de dejetos de lanches, guarda utensílios usados para pintar; e uma escada com um avental sujo e uma vasilha com tinta.

Se depender de Joice, o grafite será uma espécie de arte recorrente na galeria – ela já planeja, inclusive, a vinda de outra artista de rua, a carioca Petite Poupée, que grafita bonecas coloridas e românticas. A próxima mostra a tomar o subsolo, no dia 22 de abril, terá, contudo, viés bem diferente. Duo reúne obras de dois artistas bem conhecidos em Curitiba: Hélio Leites e Efigênia Rolim, que utilizam sucata para criar obras que incluem, inclusive, declamação de versos e contação de histórias.

"Um dos nossos projetos futuros é exibir peças artesanais produzidas no Vale do Jequitinhonha. Nossa proposta, no entanto, não é organizar exposições de artesanato, mas de arte popular", conta. As esculturas de barro da região mineira, aliás, decoram as prateleiras do andar de cima – a "lojinha", onde está a recepção, o catálogo com os preços das obras em exposição, estantes com livros de arte para consulta no local e souvenires como camisetas, adesivos e outros objetos.

Embaixo, o ar de casa aconchegante põe os visitantes à vontade para saborear uma fatia de bolo, no balcão, e assistir, todas às terças-feiras, às 19 horas, a projeções de vídeos de arte e performance em uma sala com mesinhas e até um piano.

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