Matthew Miller levou uma vida de aventuras, atravessando os estados norte-americanos do Colorado, Oregon e Nova Iorque, além de uma temporada em Israel, até ouvir o que diz ter sido "um profundo chamado espiritual". Com a cabeça cheia de idéias, mas um tanto confuso quanto à melhor forma de expressá-las e colocá-las em prática, o rapaz, nascido na Pensilvânia, encontrou na música um instrumento poderoso para exteriorizar tudo o que pensava e sentia.
Mais até do que uma constatação de seus dotes artísticos, Matthew diz ter vivenciado uma espécie de epifania de caráter religioso. Judeu de nascimento, mas não-praticante, ele optou por passar a observar os preceitos de sua fé com ortodoxia e fazer da música um veículo para suas mensagens de paz, política, soliedariedade, encorajamento e amor universal. Assim nasceu Matisyahu (Matthew em hebraico), uma das grandes revelações do pop internacional.
Toda a trajetória descrita acima não prepara o ouvinte para a primeira audição de Youth, segundo álbum de estúdio de Matisyahu e primeiro a ser lançado no Brasil. Na capa do CD, ele mais parece um judeu hassídico que vemos com certa freqüência no bairro Bom Retiro, em São Paulo: barba longa, óculos, terno e chapéu negros e um ar de aspirante a rabino. Mas quando a primeira faixa de Youth começa a tocar no CD player, o que se ouve é uma sonoridade que, aparentamente, nada tem a ver com esse universo semita. Matisyahu, acreditem ou não, é o novo grande nome do reggae de raiz, apesar de ter sido criado numa cidadezinha do interior do estado de Nova Iorque.
O artista, hoje com 26 anos, canta como um jamaicano nativo e vai contra a velha corrente que acusa o reggae de fazer apologia às drogas. Ele se utiliza de uma sonoridade que vai numa linha chamada "nu-roots" para falar sobre religião e política.
As linhas de voz são mais faladas e soam como pregação em determinados momentos, não fossem as bases animadas, contagiantes até, e muito bem construídas. E por mais estranho que essa combinação pareça, Matisyahu consegue um ótimo resultado em Youth, que promete repetir no Brasil o sucesso que anda fazendo nos Estados Unidos.
O material é como uma continuação de Shake off the Dust... Arise, de 2004, e contou com a produção do experiente Bill Laswell. A influência de estilos como hip-hop e dub, de origem negra e urbana, é grande e serve para atiçar a curiosidade dos fãs de reggae.
Os destaques do disco são "Fire of Heaven/Altar of Earth Youth", que abre o CD, "Dispatch The Troops", "Jerusalem" e a balada "Late Night in Zion", precedida da vinheta "Shalom/Saalam". Youth se encerra com a bela "King Without a Crown", um dos hits do ano nas rádios americanas. Shalom. GGG1/2



