Atores de Urubu Comum encaram plateia quase o tempo todo, em meio a danças e aparições de surpresa. | Elenize Dezgeniski/Divulgação
Atores de Urubu Comum encaram plateia quase o tempo todo, em meio a danças e aparições de surpresa.| Foto: Elenize Dezgeniski/Divulgação

A sensação de confinamento trazida pelo espetáculo Urubu Comum é sugerida ao espectador logo ao se sentar diante do cenário em perspectiva, montado no Teatro Novelas Curitibanas, onde a estreia acontece nesta sexta-feira (15) às 20 horas.

O texto e a montagem, assinados por uma das discípulas de Antunes Filho (de São Paulo), Michelle Ferreira, foram abraçados por um elenco local. Que, aliás, estreia também enquanto companhia: a Cia. do Urubu, de Carolina Meinerz.

Participam do grupo a cantora Michelle Pucci e os atores Anderson Caetano, Gustavo Gusmão e Muhammad Chab.

Mas não é só Michelle quem canta: uma das marcas contemporâneas da montagem é a utilização de coreografias que marcam o início, o meio e o fim. São dancinhas que lembram a estética do videoclipe, do hip-hop glamourizado.

A trilha original de Rodrigo Lemos confere uma identidade àquele mundo ilusório que a plateia tem bem perto de si. E ela entra no espetáculo, na medida que os atores endereçam o público o tempo todo.

“O importante para mim é que seja uma obra arejada e que o público consiga participar também dando sentindo com seu próprio repertório”, sugere a autora e diretora Michelle Ferreira. Ela abriu um dos últimos ensaios antes da estreia à Gazeta do Povo.

ESTREIA

Urubu Comum

Teatro Novelas Curitibanas (R. Pres. Carlos Cavalcanti, 1.222 – São Francisco), (41) 3321-3358. Estreia dia 16. De 6ª a dom. às 20h. Até 31 de maio. Entrada franca. Classificação indicativa: 18 anos. Mais informações no Guia.

A frontalidade dos atores, que olham para a plateia, é um dos recursos que lembram a televisão e o desenho animado, com risadas de seriado norte-americano e mãos que estendem um cigarro do nada, por exemplo.

Apesar da encenação que opta por um estilo artificioso e do quê absurdo, existe uma trama para ser seguida: um casal parece preso ao seu apartamento, onde vive situações bizarras.

São professores (menos bala, mais giz!, diz o protesto em meio à encenação, que rompe de vez com a “quarta parede” de separação entre atores e público).

O rapaz sofre de chagas que o impedem de sair da água; ela é um típico exemplar do estigma de neurose feminina e parece ligada na tomada o tempo todo.

O cenário partiu da ideia de que os atores pudessem se esconder e mostrar somente partes do corpo, e é uma criação de Paulo Vinícius. Uma surpresa aguarda o espectador no final.

Outros personagens entram e saem desse cubículo, enredados num crime que matou uma criança de rua. Mas é uma morte que não surge sombria. No máximo, grotesca, seguindo o registro de todo o espetáculo.

Passado

O novo grupo surge buscando diálogos com o passado: a própria logomarca é um desenho que constava no cartaz da peça Urubu, de Manoel Carlos Karam, em 1977.

Carolina Meinerz, também vinda de São Paulo, conta que a leitura do texto lhe trouxe uma sensação de urgência, como se ele precisasse ser montado nos dias atuais. A obra foi a primeira peça escrita por Michelle nos moldes profissionais, mas nunca foi ao palco. Ao longo de 2014, ela esteve com vários espetáculos em cartaz em São Paulo, criando uma imagem positiva de autora e encenadora “pop”.

“Eu sempre gostei muito das ideias dela sobre arte”, explica Carolina, que cursa Filosofia. “Nenhum dos textos que leio na faculdade fala tanto dos dias de hoje quanto Urubu Comum”, elogia. “Ele tem uma força simbólica muito forte, não é nem um pouco ingênuo, e é honesto, apesar do sarcasmo.”

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