
Sob rajadas de balas e tecida com os fios da utopia, as jovens literaturas dos países africanos de língua portuguesa consolidaram-se, como outras em África, em meio às lutas pela independência, empenhadas na construção dos países e de si próprias, resistindo aos ataques das forças coloniais. Não causa espécie, portanto, que nas vozes de seus poetas e prosadores, se façam ouvir cantos armados de combate e afirmação da nacionalidade.
Há, no entanto, o diálogo encetado pelos autores africanos de língua portuguesa com o modernismo brasileiro no momento de consolidação dos sistemas literários de seus países, que deve ser encarado como um dos fatores positivos na construção daquelas literaturas, na medida em que as diretrizes que orientaram o movimento iniciado em 1922 no Brasil iluminaram caminhos de escrita dos autores africanos. Assim, o "direito permanente à pesquisa estética; a atualização da inteligência artística (...) e a estabilização de uma consciência criadora nacional", expressos por Mário de Andrade no já clássico [texto] "O Movimento Modernista" como os eixos que orientaram a produção dos modernistas brasileiros, também tiveram peso considerável entre os autores africanos, sobretudo no que se refere à reflexão sobre a questão das culturas tradicionais e as formas de incorporação da oralidade à escrita.
Nota-se, portanto, que estamos frente a literaturas que mantêm o diálogo com a literatura brasileira, mas também afirmam de forma veemente a sua especificidade. É necessário cautela, todavia, pois a singularidade não significa exotismo. Assim, os leitores brasileiros não acharão nos livros dos autores de Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe a "África profunda" ou os clichês que (de)formam o imaginário sobre o continente africano.
O que se encontra, então nessas literaturas?
De maneira geral podemos dizer que há os dramas humanos, a expressão de uma dolorosa modernidade periférica, e a luta por uma forma estética própria em que a tradição milenar oral cruza-se com as formas modernas da tradição literária ocidental.
É nessa senda que podemos dizer que Arlindo Barbeitos, José Luís Mendonça, Ruy Duarte de Carvalho, Ana Paula Tavares e João Melo (de Angola) e Luís Carlos Patraquim e Eduardo White (de Moçambique), nomes bastante expressivos do novo fazer poético em terras africanas, apresentam em seus textos a tensão dialética entre a superação da tradição e sua continuidade (mesmo que em novas roupagens).
No caso da prosa contemporânea de Angola e Moçambique, pode-se afirmar que uma de suas tendências mais interessantes, é exatamente a do hibridismo entre a "oratura" (entendida aqui em um sentido amplo que congregaria os traços da oralidade e ainda aspectos antropológicos, religiosos e filosóficos) e a tradição do romance, tal qual no Brasil realizou Guimarães Rosa. Essa senda, trilhada em Angola por Luandino Vieira e Boaventura Cardoso e em Moçambique por Mia Couto, tem resultado em romances de qualidade estética indiscutível, em que uma linguagem que foge à convenção leva o leitor às paragens da poesia e mas também da reflexão sobre a arte e sobre o humano.
Vale ainda mencionar uma outra tendência da prosa: o texto que busca a História, re-significando os acontecimentos e personalidades, de forma a iluminar os desvãos ocultados por uma ideologia oficial. Pepetela, autor angolano, é sem dúvida um dos maiores representantes dessa tendência, com seus numerosos romances que discutem e desnudam a Angola contemporânea. Mas deve-se ainda fazer referência a Ondjaki, com os textos que iluminam a infância mas também os primeiros passos do país, e os contos de João Melo, que, de forma cruel e bem humorada, desnudam a nascente burguesia angolana.
Esse brevíssimo panorama, pintado a largas pinceladas, não dá conta da diversidade e da riqueza da literatura produzida nos dois países. Fica, no entanto, o convite ao leitor que o preencha a partir do conhecimento dos textos produzidos em Angola, Moçambique e Cabo Verde que, felizmente, já se encontram publicados no Brasil. Será uma experiência estética e humana enriquecedora.
Tania Macêdo é professora da Universidade de São Paulo (USP), onde leciona Literaturas Africanas de Língua Portuguesa. Publicou, entre outros títulos: Luanda, literatura e cidade (Editora da UNESP e Editora Nzila, de Angola).



