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Opinião

Tragédia iluminada

A direção busca um ca­­mi­nho acessível mas nunca sim­­plificador. Tanto que en­­cena o texto integral, com reforços que evidenciam as questões metateatrais ori­ginais, sem descuidar da complexidade de emoções do protagonista e suas incertezas existe

O príncipe (Wagner Moura) dá mostras de loucura ao rei traidor (Tonico Pereira) | Divulgação
O príncipe (Wagner Moura) dá mostras de loucura ao rei traidor (Tonico Pereira) (Foto: Divulgação)

Em um auditório com as proporções do Teatro Posi­tivo, especialmente lotado até a última fileira para assistir ao Hamlet de Wagner Mou­ra, no sábado, cabem públicos bastante diversos.

Enquanto representantes da classe teatral curitibana buscavam pelas fileiras seu lugar, outros espectadores menos acostumados à situação controlavam, a pedido do próprio ator, o afã de fotografar o ídolo da televisão e do cinema (cuja repercussão tamanha nos dois meios quase fez com que se esquecesse que sua projeção se deu primeiramente sobre o palco, em cena da peça A Máquina).

Para públicos contrastantes, a experiência de quatro horas diante da montagem dirigida por Aderbal Freire-Filho (de O Que Diz Moleiro) há de ter surtido efeitos igualmente dis­­­­­­tintos. Houve inclusive quem não se importou de desviar a atenção no momento decisivo (e dramático) em que o suicídio de Ofélia é comunicado, para olhar os atores pela tela da câmera fotográfica. Ou quem manifestasse estranhamento: a história de Hamlet é mesmo assim?

Sinal de que, embora sabidas suas citações mais famosas, a tragédia escrita por William Shakespeare não é tão conhecida quanto seria de se supor – e o quanto mereceria. A propósito, um dos incontáveis méritos da montagem atual se encontra na tradução coloquial feita especialmente para a ocasião. "Ser... não ser... essa é a questão", é uma atualização simples, mas eficiente para desintegrar frases cristalizadas, que já passavam pelos ouvidos sem atingir a reflexão. Quem conseguiu ouvir os atores, vencendo problemas no som e as vozes baixas que não chegavam a todos os cantos da plateia, teve ao alcance a genialidade do clássico.

A direção busca esse caminho acessível, mas nunca simplificador. Tanto que encena o texto integral, com reforços que evidenciam as questões metateatrais originais, sem descuidar da complexidade de emoções do protagonista e suas incertezas existenciais. Lida com a ambiguidade como artimanha para iluminar a multivalência e a profundidade da peça.

O personagem de Wagner Moura foi justamente chamado pela crítica paulista de "Hamlet de uma geração". Sua atuação intensa, de marcação frenética, contraditoriamente cabisbaixa e altiva, incorpora uma figura que é, ao mesmo tempo, o príncipe da Di­­namarca do século 16 e um homem contemporâneo atirado fora de órbita ao se deparar com a morte, a traição e o luto como partes da condição humana. Ao provocar identificação, atrai o espectador para dentro da trama.

Os figurinos moderninhos trazem referências à realeza, traduzindo em imagem essa duplicidade. Já o cenário – com coxias aparentes, onde os atores esperam por sua vez de entrar em ação, e os canhões de luz rebaixados, à vista – serve ao comentário sobre o próprio teatro como espelho da vida, presente na peça que contém em si a encenação de outra peça como chave para revelar seus enigmas.

Wagner Moura busca um registro debochado para canalizar a ira do personagem e sua lou­cura atuada. Se Hamlet é, entre outras camadas, uma obra sobre a relação do teatro com a vida, a orquestração de Aderbal ressalta essa faceta, incorporando registros de interpretação diversificados.

A fala de Hamlet condena a grandiloquência, mas ele mesmo não se contém nos gestos. É uma autoironia, consciente da escolha, que não impede o ator de recorrer à sutileza de intenções quando melhor cabe.

Também o Polônio de Gillray Coutinho assimila o tom caricatural que leva ao riso fácil, desprezado no monólogo do príncipe. Tonico Pereira faz o tipo canastrão (adequado ao papel), legando a vilania de Polônio às ações praticadas. Só a rainha de Carla Ribas e o fantasma feito coletivamente não alcançam a força do restante do elenco.

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