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Globalização

Troca global de ideias não para

Fluxo de inovações e conhecimentos pode até perder fôlego com a crise internacional, mas quem vive dele diz que é impossível detê-lo

Costa e Tacla, da Go2nPlay Studios: escritório na Rua XV, clientes nos EUA e concorrentes na Índia | Ivonaldo Alexandre/ Gazeta do Povo
Costa e Tacla, da Go2nPlay Studios: escritório na Rua XV, clientes nos EUA e concorrentes na Índia (Foto: Ivonaldo Alexandre/ Gazeta do Povo)

Se o desenvolvimento das caravelas permitiu o início da globalização, a aceleração do trânsito de ideias, conhecimentos e tecnologias foi fundamental para sua consolidação. Esse vaivém extrapola os limites da economia e mostra a sua face em áreas como a educação, a cultura e os movimentos migratórios. Quem vive desse intercâmbio acha que ele pode até perder fôlego na crise – mas não vai parar.

A agência curitibana Go2nPlay Studios, especializada em desenvolvimento de sites, tem dez anos – mas a tecnologia que está usando na maioria de seus produtos surgiu lá fora há apenas três meses, diz o jornalista Bernardo Costa. "Passamos metade do tempo nos informando. Se deixarmos de fazer isso por um dia, ficamos defasados." Em contrapartida, explica, seus concorrentes não estão no Paraná, mas em São Paulo, na Califórnia, na Índia. "Enquanto alguns falam em desglobalização, estamos, em um escritório no calçadão da XV, roubando clientes de agências americanas e, eventualmente, perdendo jobs [trabalhos] para agências da Índia, por causa do preço", comenta o publicitário Ohmar Tacla, que, como seu sócio, é um "viciado em informação" assumido.

Orlando Laragnoit Júnior, que aos 21 anos lidera da área de relacionamento da Câmara Americana de Comércio em Curitiba, pondera que a "overdose" de informações da internet torna humanamente impossível filtrar tanto conteúdo de forma a torná-lo útil. Por isso, diz, passou a usar ferramentas de busca que elencam sites conforme o número de pessoas que os consideram relevantes. "Encontrei blogs de autores conceituados, de vanguarda, que acesso diariamente. Para conhecer suas ideias, não preciso esperar anos até que seus livros sejam publicados no exterior, traduzidos no Brasil e, depois, indicados por um professor da faculdade", conta Laragnoit, que morou nos Estados Unidos entre 2005 e 2006.

Para Gustavo Lins Ribeiro, coordenador do Laboratório de Estudos da Globalização e do Desenvolvimento da Universidade de Brasília (UnB), as consequências de um intenso intercâmbio de ideias podem ser observadas na evolução histórica dos EUA. "Embora sejam hipernacionalistas, eles sempre estiveram abertos ao migrante e, portanto, às energias renovadoras do empreendedorismo. Fechar-se é impedir esse fluxo de energia."

Adaptação

O contato com o que ocorre no exterior é imprescindível para muita gente que trabalha no Brasil. A proprietária da loja Madre, Paula Kubrusly, que estudou Moda em Nova Iorque, carimba o passaporte ao menos duas vezes por ano. "Hoje está tudo interligado – moda, música, arte, gastronomia. Procuro absorver o máximo que cada cidade oferece. Entrar numa loja e sentir o ambiente, ouvir a música que está tocando, reparar na roupa do vendedor", explica. "Em vez de simplesmente copiar tendências lá fora, importante para mim é usá-las como inspiração", emenda a designer de acessórios de luxo Silvia Döring.

Essa espécie de "inspiração adaptada" move uma porção de empreendedores paranaenses. Um deles é Diego Fortun, que morou em Barcelona por três anos e de lá trouxe um conceito que poderia ser chamado de "restaurante pré-balada", que aplicou no Santillana Lounge Bar. "Pensando em manter os clientes nas casas após as refeições, os empresários espanhóis reuniram em um só lugar o conceito de alta gastronomia e diversão. Como em Curitiba não dá certo restaurante e balada no mesmo lugar, o Santillana serve, na verdade, como um ‘esquenta’."

O empresário Ivo Petris foi buscar nos EUA a ideia para o shopping de descontos Polloshop. "Em 1970, uma crise encalhou a produção de confecções da Pensilvânia. Elas resolveram tirar as etiquetas das grifes e fazer uma liquidação, apelidada de ‘outlet’, nas próprias fábricas, na periferia. Foi um sucesso", conta. "Mas, no Brasil, não adiantaria abrir o Polloshop na periferia. Para atrair a classe média, teria de ser em uma área nobre. Por isso começamos pelo Alto da XV."

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