Indagar-se sobre o fim do mundo é algo recorrente no comportamento do ser humano, e isso tem explicação. A professora do Instituto de Letras da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) Delia Cambeiro diz que o homem sempre se perguntou a respeito de sua origem, "De onde eu vim?", e também fez o questionamento a respeito do futuro, "Para onde eu vou?". "O fato de observar os ciclos da natureza, que têm início e fim, fez com que o ser humano também passasse a se preocupar com os limites de sua própria existência", afirma Delia, especialista em mitos.
Diversos povos, incluindo os maias, falaram sobre um fim para a realidade. "São culturas que consideram o tempo linear, e não cíclico", explica o coordenador do programa de Pós-Graduação de Teologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), Leomar Antônio Brustolin. Na concepção de tempo linear, observa Brustolin, há uma meta a ser atingida e, como o ideal às vezes está distante do presente, basta uma crise no caminho para que seja anunciado o fim de tudo. "Diferentemente de um tempo pensado em ciclos, no qual há o eterno retorno. Nem tudo será apenas o bem, nem tudo será apenas o mal", argumenta o teólogo da PUCRS.
Brustolin observa que previsões apocalípticas, como a de 2012, são frequentes ao longo da História nas mudanças de milênio, de 1999 para o ano 2000, por exemplo, também houve anúncios similares. Mas, obviamente, o mundo não acabou. Brustolin, no entanto, pondera que essas profecias têm utilidade. "A ideia de fim do mundo tem um caráter terapêutico, porque faz com que a pessoa passe a se preocupar mais com a realidade. O mundo não acaba, mas há crises. É preciso se engajar, estar atento e forte, e agir para fazer do mundo um lugar melhor", argumenta o teólogo.
A morte não é um defeito
O coordenador do curso de Filosofia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), Jelson Oliveira, dialoga com Brustolin, e acredita que, diante de uma profecia de catástrofe planetária, o ser humano pode refletir sobre a morte, um tabu na civilização ocidental. "Até parece que a morte é um defeito, mas é algo absolutamente natural. Começamos a morrer desde o dia em que nascemos", diz Oliveira.
O que o filósofo da PUCPR quer dizer é que, ao ter notícia de uma possível extinção da espécie, o homem contemporâneo tende a ficar perturbado. Ainda mais agora, quando a expectativa de vida beira os 75 anos, três décadas a mais do que no século 19. "A ciência está retardando cada vez mais o fim da existência. O ser humano perde o chão quando anunciam que tudo pode terminar. O homem, por mais problemas que tenha, sempre luta pela vida", afirma.
O terremoto no Haiti em 2010 e as enchentes no Rio de Janeiro este ano, entre outras catástrofes, são interpretados, por não poucas pessoas, como sinais do início do fim. Brustolin recomenda cautela. Alguns mundos, de fato, desapareceram. O Iluminismo e a Revolução Francesa demarcaram o encerramento e o início de um tempo. Em 2001, com a queda do World Trade Center, o Oriente se manifestou contra o Ocidente, e se abriu uma nova ordem ou seria desordem? mundial.
Na Bíblia, no livro do Apocalipse, está escrito que haverá terremotos, guerras e fomes. "São alertas, lembrando que haverá um fim, só não é possível dizer quando", afirma Brustolin.



