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Jello Biafra, o porta-voz do ativismo e símbolo punk | Divulgação
Jello Biafra, o porta-voz do ativismo e símbolo punk| Foto: Divulgação

O ex-líder do grupo californiano Dead, Jello Biafra, tem importância fundamental no punk e ativismo. Confira a entrevista completa que o repórter Yuri Al’Hanati fez com o músico:

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Gazeta do Povo - Em 2009, Jello Biafra and The Guantanamo School of Medicine lançou seu primeiro álbum, The Audacity of Hype, que faz menção direta à campanha The Audacity of Hope, que garantiu a eleição de Barack Obama em 2008. Quatro anos depois, você ainda acredita no hype de Obama?

J.B - Mais do que nunca. Temos uma música nova agora chamada "Barack Star O’Bummer" [‘bummer’ é uma interjeição negativa], sobre todas as promessas que ele quebrou ou áreas onde falhou por se comprometer cedo demais. Um dos versos diz "professor substituto que não consegue tomar conta da classe, ou isso é parte da encenação?", porque a questão final é: considerando o quão pouco ele alcançou em vista do poder que ele confere em seus discursos, o que esse homem quer da vida, afinal? Como ele quer ser lembrado se tudo o que ele faz é rolar e fingir-se de morto para a chamada oposição e provar definitivamente que os Estados Unidos é um país de um único partido disfarçado de um país bipartidário.Eu não votei no Obama em 2008 porque eu vi o seu histórico de votação da época em que ele era senador e ele sempre votou do jeito que o Bush queria em leis que eu achava importante. Bill Clinton em sua época, também se autovendeu como o Homem da Esperança, porque ele nasceu numa cidade chamada Hope, no Arkansas. Mas o maior dano que Clinton causou foi voltar a soberania e a democracia americana para as corporações e Wall Street, com o NAFTA, a Organização Mundial do Comércio, e a tentativa de forçar a ALCA em países como o Brasil. E ele também se livrou de todas as restrições em quem poderia controlar a mídia e agora Rupert Murdoch e outros da ala direita agora usam seus impérios indiscriminadamente como ferramenta de propaganda. E, pior de tudo, foi Clinton e não Bush quem aboliu as restrições bancárias para que bancos comerciais pudessem pegar o dinheiro do povo e investir na bolsa de valores como se estivessem num cassino de Las Vegas. Isso se tornou ilegal na década de 30 após o crash da bolsa e a Grande Depressão, e quem tornou isso legal novamente foi Clinton. E a nova depressão, em 2008, aconteceu ainda mais rápido! Isso foi tudo trabalho dos democratas, mas será que não deveríamos chamar a todos de "republicratas"? Obama fez a mesma coisa, e ele é muito, muito pior quando o assunto é atividade policial e espionagem. Ele não fechou Guantanamo ainda, e tornou mais fácil para que os americanos sejam espionados, e agora não há mais apenas suspeitos terroristas em outros países, mas qualquer pessoa que o presidente disser que é um terrorista pode ser jogada na prisão sem julgamento e ficar lá pro resto da vida. Isso parece a velha ditadura brasileira nos dias do general Geisel e Cia.. Outra: ele nunca processou os criminosos de guerra da época do Bush e o problema é que se aparecer novamente um regime republicano ainda mais de direita do que o democrata, esses criminosos de guerra vão ter uma posição ainda mais alta e ninguém poderá tocá-los, e então saberemos que as pessoas podem sair impunes. Mas eu não tenho mais medo de Bush, Cheeney e Rumsfeld como eu tenho medo das pessoas que trabalham para eles, os jovens fascistas linha-dura cujos nomes não sabemos...Obama trabalha basicamente para os bancos. Na época da crise ele poderia ter pego o dinheiro que ele usou para resgatar os bancos do colapso e dar para as pessoas com a condição imediata de que elas usassem o dinheiro para pagar o banco. Dessa forma as pessoas ficariam com as suas casas e o banco receberia o dinheiro de qualquer forma.

Gazeta do Povo - Você fez músicas para outros políticos também. Um dos grandes hits do Dead Kennedys, "California Übber Alles", era uma crítica ao governador Jerry Brown, que concorria para a presidência em 1984. Hoje em dia ele é governador da California novamente. A música se desgasta?

J.B - Eu acho que estava errado em pintar Jerry Brown como o grande fascista. Eu tinha minhas razões na época, como seus comentários que diziam que a América só precisava que alguém viesse num cavalo branco e a guiasse, e é claro que ele estava falando dele mesmo. Mas comparado ao que veio depois, Brown não era ruim mesmo em muitos aspectos. E eu percebi que o problema sério era Reagan e as forças por trás dele que eram empresas da ala direita governada por cristãos fundamentalistas que queriam transformar os EUA numa teocracia como o Irã, só que governada por pastores evangélicos. Por isso a música foi mudada em 1981 para "Ronald Reagan", e isso virou uma espécie antiga canção folk em que as pessoas faziam suas versões em cima... Attila the Stockbroker fez uma versão com a Margaret Tatcher, Michael Franti, antes de entrar para o Spearheads fez sobre o Pete Wilson, que foi governador da Califórnia, então era natural que eu fizesse outra versão da música para o Schwarzenegger quando eu comecei a tocá-la de novo. Acho que Schwarzenegger desistiu de se tornar presidente agora que ele descobriu que ser político é muito mais difícil do que bancar o machão nos cinemas. Mas houve um movimento empurrado pela mídia corporativista para mudar a constituição, permitindo que estrangeiros pudessem se tornar presidente, e obviamente estavam tentando fazer isso para o Schwarzenegger se tornar presidente. Felizmente, as pessoas não se empolgaram com a ideia.

Gazeta do Povo - Como será o show de Curitiba?

J.B - Vai ser basicamente composto pelas músicas novas que eu faço com essa banda. Para mim o punk nunca teve a intenção de ser um show retrô. Eu estou desapontado pelo conservadorismo que algumas pessoas têm por isso, só querem as mesmas bandas de sempre e não se pode tentar nada novo. É exatamente o oposto da época em que o Dead Kennedys começou, em que a pressão no underground era para nenhuma banda soar como a outra. E eu gosto dessa ideia. Terá também algumas músicas do Dead Kennedys e algumas músicas novas que ainda não foram lançadas e que estarão no nosso próximo álbum. Não sei quando vou lançá-lo, gostaria de fazer isso antes das eleições desse ano, mas eu trabalho devagar, vou tentar fazer o possível. Mas estou quase certo de que o título será White People and the Damage Done, lançado pelo meu selo, Alternative Tentacles.

Gazeta do Povo - Você ainda acompanha a cena californiana hoje?

J.B - A cena está grande agora e não dá mais pra acompanhar tudo. Existem bandas punks gigantescas e comerciais e também existem bandas anarco punks ultra undergrounds, e todo o meio termo. Eu tento acompanhar e ainda sou fã das coisas que são feitas direito ou diferente. Só não me interesso pelas bandas genéricas, mas eu ainda vou a muitos shows e tenho meu selo, Alternative Tentacles, que está sempre lançado novas bandas.

Gazeta do Povo - O seu selo, inclusive, já lançou discos do Brasil, não é?

J.B - Lançamos um disco do Ratos de Porão. Estamos falando com o Boca [baterista do Ratos de Porão] para ver se lançamos outro. Eu os vi no Brasil em 1992 e fizemos amizade naquela época. Eles já eram uma instituição antiga no Brasil, mas nos Estados Unidos eles ainda são um pouco underground, e a música deles está ainda mais extrema agora do que naquela época.

Gazeta do Povo - Como você balanceia o seu ativismo musical e seu ativismo político, com discursos e aparições públicas?

J.B - A música atinge mais pessoas porque tem todo aquele peso do rock, aquele barulho que é impossível de resistir. Eu gosto de fazer rock também, é por isso que eu não me encaixo muito bem na cena política, e por outro lado não me encaixo bem no punk porque faço outras coisas. Acho que se aplica ao espírito punk as atividades políticas radicais, mesmo que seja um professor de história que ensina a seus alunos de uma maneira diferente pela influência do punk, ou um advogado que processa as corporações ao invés de trabalhar para elas. Ao mesmo tempo você tem essas bandas punks horríveis e puxa-saco que não tem nenhum espírito punk além de um corte de cabelo do Sid Vicious e uma guitarra barulhenta. Mas, pensando em mim, acho que eu fiz muito quando descobri que tinha um dom além da música e que deveria usá-lo. Não sei quando vou fazer outras apresentações de spoken word de novo porque a banda consome muito tempo, e claro que agora é a época de fazê-los. Eu estive em poucos acampamentos do movimento Occupy e eu sinto que deveria estar mais lá, mas também percebo que grande parte da influencia das pessoas desse movimento é a minha música e meus shows de spoken word. É uma corda bamba e eu faço o melhor que posso.

Gazeta do Povo - Como você descobriu o seu talento para a retórica?

J.B - Na escola. Um professor de debates me pediu para fazer um discurso sobre como eu deveria respeitar a lei, e isso foi logo depois que o Nixon foi pego no escândalo de Watergate. Então se ele não respeita a lei, por que eu deveria? E esse foi meu discurso. E a próxima coisa que eu lembro é que eu fiz um discurso para a escola inteira numa solenidade, com o prefeito e outras pessoas presentes para fazer uma crítica ao meu discurso. E eu pensei "que m***!", mas eu fiz. Um dos espectadores da solenidade era um advogado de defesa e ele me disse: "mantenha-se louco", e isso não foi muito difícil pra mim. Todos estavam tentando me empurrar para uma linha mais intelectual e acadêmica, mas eu queria ser um músico do rock. Eu achava que nunca seria porque naquela época você não deveria subir num palco e tocar guitarra se não tocasse tão bem quanto Jimmy Hendrix. Achei que tivesse nascido tarde demais, mas aí veio o punk, a oportunidade voltou, a música era muito melhor e eu percebi que havia nascido mesmo no momento certo. E aí comecei a fazer uns shows de spoken Word e saraus em que eu lia poesias em cafés. Isso continuou até que a polícia de Los Angeles veio até São Francisco, viajando 710 quilômetros de distância só pra revirar minha casa por causa do álbum Frankenchrist dos Dead Kennedys. Eu fui acusado de obscenidade pela capa do disco [que reproduzia a tela Penis Landscape, do artista H.R. Giger], o que nunca havia acontecido com um álbum na história dos Estados Unidos. E de repente eu passei de saraus em cafés para grandes palestras em universidades sobre censura, e não parei mais.

Gazeta do Povo - Como foi sua experiência em concorrer para prefeito de São Francisco em 79 e para as prévias presidenciais pelo Partido Verde em 2000?

J.B - Eu nunca quis ser um político. Eu concorri a prefeito de brincadeira. Foi um ato deliberado de sabotagem, e funcionou. Havia uns dois mil punks em São Francisco e quase nenhum deles votavam. E mesmo assim eu tive 6600 votos. Isso forçou o prefeito e seu rival a um segundo turno. E seu porta-voz disse: "Se o Jello Biafra consegue esse total de votos, então essa cidade está realmente em apuros". E depois eu fui banido de concorrer a prefeito de novo. Aprovaram uma lei em que você só poderia se candidatar com seu nome de batismo e nunca com um nome artístico, pseudônimo ou apelido. O caso de 2000 também foi um acidente. Algumas pessoas na convenção do Partido Verde em Nova York me inscreveram para as prévias presidenciais do partido e eu fiquei em segundo atrás do Ralph Nader. Ligaram para mim para perguntar se eu queria concorrer e só lá pela terceira ou quarta vez que ligaram perguntaram: "ah, por acaso você é membro do Partido Verde?" E pra sorte deles eu era. Não tinha tempo pra isso na época, mas aí pensei que estando ali meu nome seria uma boa oportunidade para pessoas que não conheciam o partido verde ou o Ralph Nader se informarem e aparecer para votar. Ajudou a trazer o espírito do rock n roll para o Partido Verde.

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