
O norte-americano James Ivory tentou fazer com a obra do escritor Henry James (1843-1916), seu conterrâneo, o que acabou concretizando um pouco mais tarde, e com muito mais êxito, adaptando para o cinema romances do inglês E. M. Forster (1879-1970). Primeiro com Os Europeus, em 1979, e, cinco anos mais tarde, em Os Bostonianos, e sempre escorado pelo produtor indiano Ismael Merchant e pela roteirista alemã Ruth Prawer Jhabvala, o diretor buscou traduzir a prosa de James, rica em detalhes, comentário social e profundidade psicológica, para a linguagem da imagem em movimento.
Muitas vezes comparado ao italiano Luchino Visconti (de O Leopardo), pelo requinte estético de suas produções de época, Ivory acerta e erra na adaptação de Os Bostonianos, obra que retrata as transformações sociais pelas quais a tradicional cidade do nordeste dos Estados Unidos passa na segunda metade do século 19.
O roteiro de Ruth Prawer Jhabvala (vencedora de dois Oscars, pelas adaptações de Uma Janela para o Amor e O Retorno de Howards End, livros de Forster) toma a liberdade de acrescentar à obra de James um elemento ausente no texto original: a discussão sobre o nascente movimento feminista nos Estados Unidos.
Vanessa Redgrave, em atuação que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor atriz, vive o papel de Olive Chancellor, uma militante feminista, integrante de um grupo que luta pela aprovação do voto feminino. Bastante abastada, mas solitária e emocionalmente instável, ela acaba se encantando pelos talentos de oratória da jovem Verena Torrent (Madeleine Torrent), filha de um espírita charlatão que se torna uma espécie de curandeiro da alta sociedade na Boston da época.
Como Verena comunga do ideário das sufragistas, Olive a adota, primeiro como protegida, mas com a expectativa de com ela manter uma relacionamento ambíguo, platônico, mas não totalmente destituído de demonstrações físicas de afeto. O que não espera é ter de disputar o afeto de sua pupila com Basil Ransom (Christopher Reeve, de Super-Homem), um primo distante recém-chegado do Mississippi, cujas posturas conservadoras irritam Olive profundamente.
Os belos figurinos, a direção de arte minuciosa e a mise-en-scène sempre elegante e cheia de nuances de Ivory, um diretor requintado ainda que por vezes conservador, compensam algumas limitações de Os Bostonianos, como o ritmo irregular da narrativa e a atuação algo forçada de Reeve, que na época ambicionava voos mais altos em sua carreira. Sem falar do genial desempenho de Vanessa Redgrave. GGG1/2








