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Música

Um homem chamado Jazz

Há 40 anos, morria Louis Armstrong, um dos gigantes culturais do século 20

Neto de escravos, Armstrong viveu os primeiros anos na pobreza e parecia destinado ao anonimato | Divulgação
Neto de escravos, Armstrong viveu os primeiros anos na pobreza e parecia destinado ao anonimato (Foto: Divulgação)

No dia 6 de julho de 1971 – um mês antes de completar 70 anos –, morria no bairro de Queens, em Nova York, Louis Armstrong, de um ataque cardíaco enquanto dormia. As últimas palavras que pronunciou, dias antes, foram uma espécie de avaliação de sua vida: "I had my trumpet, I had a beautiful life, I had a family, I had Jazz. Now I am complete." ("Tive meu trompete, uma bela vida linda, uma família, o Jazz. Agora estou completo.")

Picasso na pintura, Chaplin no cinema, Armstrong no hazz – foram grandes artistas e figuras midiáticas que marcaram nossa vida. O sucesso de Armstrong foi um verdadeiro milagre. Neto de escravos, filho de um operário e de uma criada, viveu os primeiros anos na pobreza e parecia destinado ao anonimato eterno. Isso explica talvez a intensidade dramática de sua voz quando gravou, ainda nos anos 1920, "Black and Blue": "My only sin...is in my skin/What did I do...to be so black and blue?" ("Meu único pecado está na minha pele/ Que foi que fiz para ser tão negro e triste?") A música salvou Armstrong da marginalidade.

Sempre apto a criar sua própria mitologia, dizia ter nascido na data simbólica de 4 de julho de 1900 – só nos anos 80, verificou-se a data correta, 4 de agosto de 1901. Conta também nas suas memórias que comemorou o Ano Novo dando tiros para o ar com a garrucha do padrasto, o que lhe valeu a internação num asilo de menores abandonados. Foi lá que começou a cantar num coral e numa banda de metais, ganhando a primeira corneta. Com seu talento, deixou Nova Orleans e mudou-se para Chicago, onde faria as gravações dos grupos Hot Five e Hot Seven, que, por sua força e originalidade, mudariam a história do jazz. São cerca de 60 músicas gravadas entre novembro de 1925 e dezembro de 1928 – ou seja, em três anos e um mês Louis Armstrong deixou sua marca na história da música.

Um clássico dessas sessões é "West End Blues", de 1928. Já tendo trocado a corneta (instrumento de bandas) pelo trompete (de origem erudita, mais brilhante), Louis exibe todo o colorido e riqueza de seu timbre cristalino e vai armando suas frases com uma lógica inconfundível, jogando com pausas e hesitações, inaugurando o uso do silêncio no jazz.

Entre estas obra-primas figura também "Heebie Jeebies", de 1926, durante cuja gravação Armstrong, tendo esquecido a letra da canção, inventou casualmente o scat singing, o canto sem palavras imitando o instrumento. Na época, "Heebie Jeebies" foi considerado um novelty act — uma daquelas inovações sensacionalistas a que os jazzistas recorriam para aumentar a vendagem dos discos no florescente mercado musical. O sucesso foi imenso: em poucas semanas, a música vendeu mais de 40 mil cópias e tornava-se o primeiro hit na carreira de Armstrong.

Segundo o crítico George Avakian, "Louis desenvolveu uma nova escola de jazz vocal, baseada na abordagem dos cantores do folk e do blues, que usavam a voz como um instrumento. Louis mostrou que o significado emocional da letra de uma canção pode ser expresso através de inflexões vocais e improvisações de uma qualidade puramente instrumental tão eficazmente – ou mais ainda – do que através de palavras. Essa linha de desenvolvimento correu paralelamente à sua influência instrumental. E ainda afeta todo cantor popular e de jazz dos nossos dias."

Armstrong – apelidado de Satchmo, satchel mouth = boca de sacola – fez do jazz a arte do solista por excelência. Depois dos Hot Five e Hot Seven, criou os All Stars (com o clarinetista Barney Bigard e o trombonista Jack Teagarden, partiu para a conquista da Europa, tornou-se celebridade de Hollywood e da tevê, viajou pelo mundo como "Embaixador do Jazz" e deixou uma canção outonal – e otimista – que faz sucesso até hoje, "What a Wonderful World".

Woody Allen, que sabe das coisas, definiu magistralmente o peso da arte de Armstrong numa cena de Manhattan em que o intelectual enumera "certas coisas que fazem a vida valer a pena". Na lista, ao lado de A Educação Sentimental, de Flaubert, filmes suecos, Marlon Brando, Frank Sinatra, as maçãs e as peras incríveis do Cézanne, figura "Potato Head Blues", de Louis Armstrong – um clássico gravado há 84 anos que continua uma amostra viva da arte genial do velho Satchmo.

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