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Atores movem-se sobre um tablado e descem ao proscênio por rampas e uma escadaria, no hábil cenário do próprio diretor | Elenize Dezgeniski/Divulgação
Atores movem-se sobre um tablado e descem ao proscênio por rampas e uma escadaria, no hábil cenário do próprio diretor| Foto: Elenize Dezgeniski/Divulgação

É difícil hoje ver uma montagem realista de Shakespeare, e o Lear dirigido por Paulo Vinícius, cuja última apresentação ocorreu neste domingo, se insere na mais usual investida em experimentação de linguagem. Resultou num visual marcante, digno do figurinista e cenógrafo que ele é. O enxugamento da peça é que criou algumas confusões pelo caminho.

Contornando o problema do tamanho do Miniauditório do Guaíra – pouco palco para muito texto –, os personagens foram reduzidos de 20, fora serventes e cavaleiros, para quatro, restando o núcleo duro da peça: o rei Lear e suas três filhas.

A ação, que no original é repleta de entradas e saídas, discussões, atos violentos e uma mitológica jornada em meio à tempestade, foi resumida a curtos movimentos pelo palco e diálogos. A conversa entre os personagens adquiriu tons de monólogo, quando os atores encaram a plateia, imóveis, sem interação entre si. Tudo em meio ao escuro, com o preto dominante.

As movimentações ganharam por cenário um tablado do qual se desce por uma pequena escadaria, ao centro, e duas rampas laterais. As falas realizadas nas rampas funcionam melhor para Lear, com seu seguro coturno, do que para as filhas, que precisam erguer o vestido, olhar para o chão e descer devagarinho em seus sapatos. Essa postura de lady não combina com as duas mais velhas (Lubieska Berg como Goneril e Liz Santos como Regana), que estão mais para Lady Macbeth ao assumir cada uma metade do reino do pai e imediatamente porem-se a humilhá-lo – nesta montagem, a filosofia de Sêneca é acrescentada a essas personagens.

Cordélia (Valesca Moura Jorge), a mais nova, é deserdada por recusar-se a bajular o pai, apesar de ser a única que o ama. Depois desse ato antinatural, existe uma trajetória de enlouquecimento e reavaliação do rei, que entrega os deveres do reino sem abdicar de suas regalias, e só ao final percebe que viera acreditando nas aparências, e não na verdade. E Fabiano Amorim faz um grande trabalho para entregar essa transformação, apesar da imobilidade – os atores realizam gestos contidos, mas emblemáticos.

Porém, o texto que ele diz inclui trechos, por exemplo, de uma figura-chave de Shakespeare: o bobo. "Não devias ter ficado velho antes de ficares sábio", diz o servo desbocado, único com a prerrogativa de dizer a verdade ao monarca. Como na adaptação de Andy Gercker suas palavras ficam com o próprio rei, confunde-se o espectador sobre a tardia autopercepção de Lear, que assim parece ter-se dado conta de seus erros muito antes.

Seria desejável também receber mais sutilezas nas interpretações, que optam por um tom raivoso e cheio de si quase o tempo todo.

Quanto ao enredo, o fato de se eliminar o motivo de discórdia entre as irmãs mais velhas (a paixão pelo mesmo homem, ausente da montagem) acaba deixando no ar o motivo de suas mortes.

Por outro lado, a dramaturgia visual ganha uma poderosa aliada na iluminação de Wagner Corrêa, que cria diferentes efeitos quando projetada sobre faixas dispostas em toda a altura do fundo do palco, criando a sensação de profundidade. Com dezenas de fachos de luz, cada cena ganha múltiplos focos, que iluminam ora a parte de um rosto, ora vários personagens. As mortes trágicas são simbolizadas pela entrada da única cor do espetáculo – o vermelho.

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