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Música

Um liquidificador musical chamado João Donato

O pianista e compositor que ajudou a sacramentar a bossa nova e já tocou com Chet Baker se apresenta de sexta-feira a domingo no Teatro da Caixa, em Curitiba

Aos 76 anos, comemorados na última terça-feira, João Donato diz ser otimista em relação aos rumos da música brasileira contemporânea: “Eles tocam porque gostam” | Divulgação
Aos 76 anos, comemorados na última terça-feira, João Donato diz ser otimista em relação aos rumos da música brasileira contemporânea: “Eles tocam porque gostam” (Foto: Divulgação)
Donato e Tom Jobim (de pé). Primeira parceria foi no LP Chá Dançante (1956) |

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Donato e Tom Jobim (de pé). Primeira parceria foi no LP Chá Dançante (1956)

Na última terça-feira João Donato fez 76 anos. Ouviu um parabéns deste repórter, mas agradeceu sem muita empolgação. "É só mais uma data." A modéstia é companheira do pianista e compositor, filho de um aviador, que saiu do Acre para ajudar a construir a bossa nova. "Não sei, não. Isso são coisas que os outros dizem", rebate o músico, atração do Teatro da Caixa, em Curitiba, de amanhã (20) a domingo (22), com a apresentação"João Donato: 60 Anos de Vida e Obra" (confira o serviço completo do espetáculo).

A história de Donato é tamanha que haverá alguém para contá-la no palco. No primeiro momento do espetáculo, o jornalista e crítico musical Antônio Carlos Miguel comanda uma espécie de talk show em que Donato, ao piano, conta as suas histórias e as de suas músicas. O segundo momento traz dois dos melhores instrumentistas brasileiros, parceiros de João Donato nos palcos há 30 anos: Rober­­tinho Silva (bateria) e Luiz Alves (contrabaixo), que embalam uma representação musical dessas narrativas.

Fusões

Se há algo que sempre marcou a carreira de João Donato é a inventividade. Apontado pelo jornalista e crítico musical Nelson Motta como principal responsável pela renovação da música brasileira na década de 1950, Donato absorveu o jazz para desdobrá-lo no samba. Ouviu ritmos latinos – principalmente os cubanos – para dar frescor à música já quadradinha que se desgastava por aqui.

"Faltava um pouco de romantismo, de ‘americanismo, de jazz, de cinema bem-feito. Aquilo, naquela época, influenciava o mundo inteiro", diz o músico, que, no Acre, ouvia os discos de 78 rotações, as bandas militares no coreto da praça de Rio Branco e o pai – "o primeiro piloto acreano" – tocando seu acordeão por distração. "A música brasileira estava muito estereotipada, banalizada. Queríamos criar uma coisa mais emocionante, mais suave e tranquila. Sentíamos a necessidade de que a música fosse outra e nós já estávamos acostumados a esses acordes dissonantes e modernos", conta o pianista, que começou justamente no acordeão – moda naquela época devido ao tremendo sucesso de Luiz Gonzaga –, passou pelo trombone e violão, até definir o piano como principal instrumento para nele criar um estilo ainda hoje indecifrável.

João Gilberto

Aos 11 anos, João Donato mudou-se para o Rio de Janeiro. Precoce, "devagarzinho", começou a frequentar dois fãs-clubes rivais, o Frank Sinatra-Dick Farney e o Lúcio Alves-Dick Haymes – ambos em homenagem a cantores que admirava. Quem também batia pernas por lá eram Nora Ney, Johnny Alf e Luis Bonfá. Anos depois, se juntou a dois dos integrantes do grupo Os Cariocas para acompanhar uma apresentação no Copacaba­­na Palace. Lá conheceu um certo João Gilberto, que fazia parte do grupo Os Garotos da Lua.

"Éramos adolescentes com esperanças de que a música nos trouxesse um futuro. Eram nossos sonhos dourados, mas também um passatempo. O sonho está realizado, foi se tornando realidade a cada dia", explica Donato. Para ele, encontrar amigos e parceiros é uma coisa que acontecia naturalmente. "Dick Farney me convidava para ouvir discos, coisas novas na casa dele. Foi a primeira vez que tive ligação mais intensa com o jazz. Abri ouvidos e horizontes", lembra Donato.

Chet Baker

João Donato chegou aos Estados Unidos antes da bossa nova. O músico recebeu um convite da violonista Nanai para se juntar ao Bando da Lua em apresentação nos Estados Unidos, em 1959. Donato não hesitou e fez da viagem uma eterna troca de experiências musicais, que durou mais de uma década e moldou seu estilo.

"Eles ficaram encantados com o que ouviram. Queriam saber de quem era a música, mesmo que não entendessem uma palavra. Foi uma troca de informações muito boa", lembra o pianista, que dividiu palco com o saxofonista Stan Getz e com o classudo trompetista Chet Baker. "Não me arrependo de nada que fiz, mas gostaria de ter tocado com o Chet mais algumas vezes. Seus sentidos melódicos e sua verve sentimental eram tão bonitos. Sinto falta disso", confessa o músico.

Sobre a música brasileira atual, Donato diz ter uma espécie de "otimismo genético", já que vê com bons olhos o trabalho que os filhos de grandes da MPB (Baden Powell, Tom Jobim e do próprio Donato) estão fazendo. Ques­­tionado se algum deles tem a possibilidade de se tornar um João Donato da vida, a resposta é rápida. "Sim. Sou otimista, graças a Deus."

Serviço

João Donato – 60 anos de Vida e Obra. Teatro da Caixa (R. Cons. Laurindo, 280), (41) 2118-5111. Dias 20 e 21, às 21 horas; e dia 22, às 19 horas. R$ 20 e R$ 10.

» Confira a programação completa de shows em Curitiba

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