
Na última terça-feira João Donato fez 76 anos. Ouviu um parabéns deste repórter, mas agradeceu sem muita empolgação. "É só mais uma data." A modéstia é companheira do pianista e compositor, filho de um aviador, que saiu do Acre para ajudar a construir a bossa nova. "Não sei, não. Isso são coisas que os outros dizem", rebate o músico, atração do Teatro da Caixa, em Curitiba, de amanhã (20) a domingo (22), com a apresentação"João Donato: 60 Anos de Vida e Obra" (confira o serviço completo do espetáculo).
A história de Donato é tamanha que haverá alguém para contá-la no palco. No primeiro momento do espetáculo, o jornalista e crítico musical Antônio Carlos Miguel comanda uma espécie de talk show em que Donato, ao piano, conta as suas histórias e as de suas músicas. O segundo momento traz dois dos melhores instrumentistas brasileiros, parceiros de João Donato nos palcos há 30 anos: Robertinho Silva (bateria) e Luiz Alves (contrabaixo), que embalam uma representação musical dessas narrativas.
Fusões
Se há algo que sempre marcou a carreira de João Donato é a inventividade. Apontado pelo jornalista e crítico musical Nelson Motta como principal responsável pela renovação da música brasileira na década de 1950, Donato absorveu o jazz para desdobrá-lo no samba. Ouviu ritmos latinos principalmente os cubanos para dar frescor à música já quadradinha que se desgastava por aqui.
"Faltava um pouco de romantismo, de americanismo, de jazz, de cinema bem-feito. Aquilo, naquela época, influenciava o mundo inteiro", diz o músico, que, no Acre, ouvia os discos de 78 rotações, as bandas militares no coreto da praça de Rio Branco e o pai "o primeiro piloto acreano" tocando seu acordeão por distração. "A música brasileira estava muito estereotipada, banalizada. Queríamos criar uma coisa mais emocionante, mais suave e tranquila. Sentíamos a necessidade de que a música fosse outra e nós já estávamos acostumados a esses acordes dissonantes e modernos", conta o pianista, que começou justamente no acordeão moda naquela época devido ao tremendo sucesso de Luiz Gonzaga , passou pelo trombone e violão, até definir o piano como principal instrumento para nele criar um estilo ainda hoje indecifrável.
João Gilberto
Aos 11 anos, João Donato mudou-se para o Rio de Janeiro. Precoce, "devagarzinho", começou a frequentar dois fãs-clubes rivais, o Frank Sinatra-Dick Farney e o Lúcio Alves-Dick Haymes ambos em homenagem a cantores que admirava. Quem também batia pernas por lá eram Nora Ney, Johnny Alf e Luis Bonfá. Anos depois, se juntou a dois dos integrantes do grupo Os Cariocas para acompanhar uma apresentação no Copacabana Palace. Lá conheceu um certo João Gilberto, que fazia parte do grupo Os Garotos da Lua.
"Éramos adolescentes com esperanças de que a música nos trouxesse um futuro. Eram nossos sonhos dourados, mas também um passatempo. O sonho está realizado, foi se tornando realidade a cada dia", explica Donato. Para ele, encontrar amigos e parceiros é uma coisa que acontecia naturalmente. "Dick Farney me convidava para ouvir discos, coisas novas na casa dele. Foi a primeira vez que tive ligação mais intensa com o jazz. Abri ouvidos e horizontes", lembra Donato.
Chet Baker
João Donato chegou aos Estados Unidos antes da bossa nova. O músico recebeu um convite da violonista Nanai para se juntar ao Bando da Lua em apresentação nos Estados Unidos, em 1959. Donato não hesitou e fez da viagem uma eterna troca de experiências musicais, que durou mais de uma década e moldou seu estilo.
"Eles ficaram encantados com o que ouviram. Queriam saber de quem era a música, mesmo que não entendessem uma palavra. Foi uma troca de informações muito boa", lembra o pianista, que dividiu palco com o saxofonista Stan Getz e com o classudo trompetista Chet Baker. "Não me arrependo de nada que fiz, mas gostaria de ter tocado com o Chet mais algumas vezes. Seus sentidos melódicos e sua verve sentimental eram tão bonitos. Sinto falta disso", confessa o músico.
Sobre a música brasileira atual, Donato diz ter uma espécie de "otimismo genético", já que vê com bons olhos o trabalho que os filhos de grandes da MPB (Baden Powell, Tom Jobim e do próprio Donato) estão fazendo. Questionado se algum deles tem a possibilidade de se tornar um João Donato da vida, a resposta é rápida. "Sim. Sou otimista, graças a Deus."
Serviço
João Donato 60 anos de Vida e Obra. Teatro da Caixa (R. Cons. Laurindo, 280), (41) 2118-5111. Dias 20 e 21, às 21 horas; e dia 22, às 19 horas. R$ 20 e R$ 10.








