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Literatura

Uma boa história atravessa o Pacífico

A Vida de Pi ganha nova tradução e faz lembrar que inspiração para o romance veio de obra de Moacyr Scliar

Yann Martel constroi epopeia de um jovem que enfrenta as forças da natureza | Geoff mHowe/Divulgação
Yann Martel constroi epopeia de um jovem que enfrenta as forças da natureza (Foto: Geoff mHowe/Divulgação)
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A vida de Pi é uma elegia à arte de contar uma boa história, e o lançamento da nova tradução, com revisão do autor, pela editora Nova Fronteira, e sua adaptação para o cinema pelo cineasta tai­­uanês Ang Lee reanimam o interesse pela obra. O protagonista é Piscine Patel, ou Pi, indiano de 16 anos que naufraga no Oceano Pacífico, a caminho do Canadá. Ele chega lá, mas o percurso é feito num bote e leva mais de 200 dias.

A sacada do autor, o canadense Yann Martel, para escapar ao tradicional relato de náufrago e das coisas que é obrigado a comer e beber, é manter a tensão dentro do bote salva-vidas onde Pi se refugia.

Além dele, estão ali um orangotango, uma zebra com a perna quebrada, uma hiena assassina e um tigre de Bengala – este último, seu companheiro durante boa parte da epopeia.

Os animais integravam o zoológico da família em Pondicherry. Parte dele foi vendido para instituições canadenses e norte-americanas quando a família decide se mudar, por questões políticas. Eram os idos da década de 70.

Assim é que os animais vão parar na embarcação que vai a pique em circunstâncias suspeitas, deixando o jovem Pi à deriva.

Fora do bote, Pi também encontra os tradicionais riscos enfrentados por náufragos, como tubarões e o Sol que desidrata. Alguns são mais fantasiosos, como árvores com dentes numa ilha que não lhe serve de salvação.

O próprio processo de criação de Martel é fascinante e renderia outro livro, conforme ele conta em nota que precede as 400 páginas da história. Conduzindo o lei­­tor a acreditar tratar-se de uma história verdadeira, ele sugere, porém, que usou sua imaginação. "Espero que a minha forma de contar a sua história não vá desapontá-lo", diz na nota, referindo-se a Patel, que ele teria conhecido no Canadá. O fim do livro também deixa no ar uma versão diferente para o ocorrido.

Plágio

Se não bastasse a boa história, o Man Booker Prize e a atual filmagem por Ang Lee, A Vida de Pi chama a atenção dos brasileiros pelo escândalo de plágio envolvendo o gaúcho Moacyr Scliar. Plágio a favor do brasileiro. O caso veio à tona quando o livro foi premiado, em 2002. Só assim Scliar soube que era citado no início da obra como "a centelha de vida" da obra, pela qual Martel o agradeceu.

A inspiração veio de Max e os Felinos, publicado por Scliar em 1981. Um garoto alemão naufraga junto com a família e um zoológico enquanto fogem do nazismo. Ele vai parar num bote junto com um jaguar, com o qual ruma à deriva até o Brasil.

Scliar – que se recupera de um acidente vascular cerebral sofrido em janeiro – recusou as sugestões de processo judicial e diz se ressentir apenas da falta de aviso sobre a utilização de sua ideia.

Aproveitando a dupla elaboração em torno de uma trama semelhante, houve análises acadêmicas que enxergaram diversos significados nas duas obras. Foi o caso de Zilá Bernd, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, para quem a travessia ecoa aquela dos imigrantes que aportaram nas Américas. Ela fala na Arca de Noé, nas utopias americanas e de sincretismo religioso (Pi se interessa ao mesmo tempo pelo hinduísmo, o cristianismo e o Islã). O tigre seria a opressão, o nazismo, a ditadura brasileira.

Talvez uma boa história seja aquela que permite a leitura que quisermos dela.

O castigo do sucesso

Yan Martel escreve, na nota do autor de A Vida de Pi, que o livro surgiu no processo de recuperação de um fiasco editorial. O consolo veio na forma de um grande sucesso. O problema é que um grande livro traz o fardo da expectativa, e seu novo lançamento, Beatriz & Virgílio, inevitavelmente será recebido pelo leitor de A Vida de Pi com um livro menor. Curiosamente, ele conta a história de Henry, escritor que já chegou ao sucesso e agora tenta um novo acerto, dessa vez sobre o Holocausto, num livro dividido em ficção e ensaio.

Enquanto está lutando para defender a obra, passa a auxiliar um taxidermista com a elaboração de uma peça teatral, e acaba se envolvendo com a história da mula Beatriz e do macaco Virgílio.

Em 2004, Martel publicou We Ate the Children Last (Nós Comemos as Crianças por Último).

Serviço

A Vida de Pi, de Yann Martel. Nova Fronteira, 424 págs., R$ 49,90. Romance.

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