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DVD

Uma chance para os monstros

Filme de Spike Jonze inspirado em livro de Maurice Sendak trata dos dilemas da infância e exige entrega lúdica do espectador

Representando dilemas da infância, os monstros travam contatos reveladores com o garoto Max: filme de Spike Jonze é diversão para adultos | Fotos: divulgação
Representando dilemas da infância, os monstros travam contatos reveladores com o garoto Max: filme de Spike Jonze é diversão para adultos (Foto: Fotos: divulgação)
Max: garoto rebelde vira rei de sua própria imaginação |

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Max: garoto rebelde vira rei de sua própria imaginação

"É só isso?", perguntou o amigo ao meu lado direito, abrindo os braços e confirmando a frustração. "É uma viagem espetacular", disse o colega do lado esquerdo, sorrindo enquanto os créditos de Onde Vivem os Monstros subiam na tela do cinema.

O filme de Spike Jonze (Adaptação) que sai agora em DVD pôs em discórdia tanto crítica quanto público. E não poderia ter sido de outra forma, já que mexe e remexe com a capacidade escapista de seus espectadores. Baseado no livro ilustrado de Maurice Sendak – que teve a artimanha de criar uma história completa e extraordinária com 341 palavras –, a adaptação nos exige. É necessário que tenhamos por 101 minutos ao menos parte da inocência de Max, o protagonista da trama fantástica que trata da infância de forma metafórica e com dose dupla de pessimismo.

A viagem que propõe Jonze começa com as travessuras do garoto interpretado por Max Records. Depois de se decepcionar com uma brincadeira que simplesmente não dá certo, Max entra em casa revoltado e desobediente. A discussão sugerida por Sendak no livro – é possível passar horas debruçado sobre as ilustrações do americano – é aprofundada por Jonze e o roteirista Dave Eggers na criação dos diálogos. Então uma negativa da mãe, naquele momento, é o fim do mundo para Max. A tempestade em copo d’água, compreensivelmente infantil, não demora a acontecer: o garoto "tem vontade de estar em algum lugar onde alguém goste dele de verdade".

A última oportunidade para você embarcar – literalmente – no filme, é a cena seguinte, em que o menino, dotado de imensa criatividade, segue para um reino desconhecido vestido de lobo. É lá que vivem os monstros.

Max não teme os bichos estranhões que vagam por aquele lugar ermo. Cada criatura tem sua personalidade muito bem definida, e representa os dilemas da infância e do amadurecimento.

O menino se aproxima muito da impetuosa, porém frágil, Carol. Outros seres vão surgindo aos poucos e a representação do que significam na vida do garoto torna-se palpável. Alexander é um bode carente e inocente. Judith reflete a agressividade latente de Max e Ira seu lado mais terno. O Touro é a melancolia, a tristeza enraizada, e Douglas o companheiro de todas as horas – os amigos, os irmãos. Há ainda KW, com quem Max tem uma relação sinuosa tal qual tem com a própria mãe.

A partir dos diálogos que o menino – agora rei daquelas terras – estabelece com seus novos amigos, já é possível compreender como uma ferramenta, por exemplo, pode consertar tudo e até a si mesma. Lembre daquelas brincadeiras em que crianças dizem "sou melhor que você" ad infinitum, que sugerem expressões hiperbólicas como "meu brinquedo é o melhor de todos os tempos do mundo todo do universo" e a passagem faz muito sentido. Novamente, o aviso: é preciso abrir a cabeça. Senão há o risco da frustração, além do não entendimento de como um vampiro pode morder um prédio.

Estreitando os laços com os monstros, Max tenta fazer valer seu cargo. Coroa na cabeça, ordena por exemplo que seja construído um forte, sem sucesso. Em outro momento, propõe uma guerra de lama. E aí alguém – como na vida real – acaba se machucando.

A fotografia espetacular e a trilha sonora certeira de Karen O, vocalista da banda Yeah Yeah Yeahs, somadas aos diálogos ora poeticamente inspirados, ora inocentemente ridículos, transformam a adaptação de Jonze em um estudo divertido sobre a natureza da criança e do pré-adolescente.

O que é estranho, porém, é que todos esses aspectos não fazem de Onde Vivem os Monstros um filme infantil. Justamente porque é mais fácil um adulto reencontrar seus bichões adormecidos na cabeça do que uma criança aceitar que eles existam. GGGG

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