Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Literatura luso-africana

Uma ficção que se impõe pela qualidade

Entrevista com a doutora em Literatura Jane Tutikian

A literatura pode, e certamente é, uma espécie de termômetro ou mesmo raio-X da vida social, econômica e política da região em que foi e é escrita. A partir de tal pressuposto, a professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Jane Tutikian desenvolve uma série de reflexões a respeito do que foi, é e pode vir a ser a literatura luso-africana, objeto de seus estudos de doutorado. Confira:

Gazeta do Povo – Há algum ponto de contato mais evidente entre a ficção produzida por autores de países africanos de expressão portuguesa?

Jane Tutikian – Há, sim. O nacionalismo está presente, e de forma pulsante, pela própria condição histórica, nessas literaturas, com abordagens estéticas absolutamente criativas, voltadas para a desalienação e a conscientização da necessidade de resistência de certos valores nacionais dentro das dificuldades impostas pela História colonial e nacional.

E a busca por identidade?

A questão da identidade se alinha, de forma especial, ao repensar pós-revolucionário que, longe de significar um esforço meramente historiográfico de reconstituição documental do passado, significa a abertura de possibilidades de discussão do processo histórico e da ideologia envolvida na sua representação oficial. A História literariamente representada ganha muitas vozes e múltiplos pontos de vista, deixa de ser considerada um todo cristalizado e homogêneo, e passa a ser analisada como conseqüência de fenômenos sociais e políticos. Assim, ao mesmo tempo em que as literaturas africanas de língua portuguesa acabam realizando um inventário de ideais perseguidos, igualdade, justiça e solidariedade, ao longo da luta independentista, fazem a história ideologicamente exposta dos acontecimentos das últimas décadas do século 20 e do nosso tempo.

Mitos são edificados?

Na verdade, mitos são derrubados e reconstruídos, utopias são construídas, destruídas e reconstruídas, buscam-se saídas para as incertezas contemporâneas nos países africanos, descortina-se, enfim, e esse é o maior ponto de contato, um outro papel para essas literaturas que prepararam a independência: elas, agora, têm a missão de traduzir seus novos signos.

A literatura brasileira alimentou, dialogou, serviu de fonte e inspiração para autores de países como Moçambique, Angola e mesmo Cabo Verde?

O Brasil é a ex-colônia que deu certo. São muito maiores as afinidades com o Brasil do que com o país que os subjugou por cinco séculos (Portugal). Afinidades nas crenças, na música, na culinária, na cultura, enfim. Luanda tem até o mercado Roque Santeiro. E, evidentemente, um diálogo muito sólido com a literatura brasileira. Em Cabo Verde, por exemplo, influenciados pelo modernismo brasileiro e baseados na semelhança com o Nordeste, os escritores claridosos buscam uma literatura própria, nacional, rompendo com o arquétipo europeu. A pasárgada, de Bandeira, é tema recorrente na literatura caboverdeana, desde Baltasar Lopes, um dos iniciadores do Movimento Claridoso, que escreveu "Em Pasárgada eu saberia/ Onde Deus tinha depositado/ o meu destino", e está incorporada ao imaginário do arquipélago. É entretanto, com o romance de 30 brasileiro que o diálogo efetivo acontece, via autores como José Lins do Rego, Jorge Amado, Marques Rebelo. Gilberto Freyre também tem uma influência muito grande em Cabo Verde, por exemplo.

Esses autores luso-africanos desmontam a idéia de que África é apenas miséria, pobreza, doença e guerra?

De certa forma, agora, sim. Talvez o melhor exemplo seja o do jovem Ondjaki, e poderiam ser outros. Observe-se que, no romance Bom Dia Camaradas, Ondjaki trabalha com o tema da infância para, através de seu olhar, apresentar a percepção da Angola dos anos 1980, da independência já estabelecida no socialismo local, quando o menino-narrador conta seu dia-a-dia com os amigos, com os professores cubanos, falando de sua escola, de sua casa e de sua cidade, a Luanda das décadas finais do século 20; este mesmo menino, o tema e ambientação são retomados no livro de contos Os da Minha Rua, que constitui um verdadeiro álbum de fotografias em que cada conto revela as pessoas simples de uma Luanda pós-independência e pós-guerra. Sobretudo, as gentes da Rua Fernão Mendes Pinto. São narrativas curtas, simples, singelas que deixam falar a criança, o narrador protagonista, de seu mundo, construído pela galeria familiar e pelos amigos e suas descobertas. É claro que a história está lá, mas é um outro tempo, a consciência do presente passa a compor criticamente a nova estruturação do passado. As minas de outrora, eram, agora, o "código para o cocó quando estava na rua pronto a ser pisado." O mausoléu de Agostinho Neto, primeiro presidente de Angola independente, construído pelos soviéticos, ganhava o apelido de "foguetão." É um outro tempo, uma outra geração.

Como o mundo não-africano recebe essa ficção luso-africana?

É interessante observar que o final do século 20, com todas as suas transformações de todas as ordens, tanto do ponto de vista político quanto econômico e social, a chamada mobilidade das fronteiras com a queda das barreiras político-ideológicas tipificadas pelo muro de Berlim, o extermínio do império soviético, a falência das utopias, o avanço do neoliberalismo e do capitalismo, o avanço das comunicações, a globalização e o multiculturalismo, enfim, também desperta o interesse pelas chamadas literaturas "terceiro-mundistas". E, aí, ainda que um africanista como Patrick Chabal afirme que para nós, no Ocidente, a África seja a parte do mundo que continua a ser dotada de mistério e exotismo. O mistério, por não compreendermos a sua realidade, e o exotismo, porque carrega uma qualidade de inexplicabilidade assustadora. Creio que coube à literatura proporcionar a superação desse olhar e, nesse sentido, as literaturas africanas de língua portuguesa vêm se impondo pela qualidade. Seus escritores vêm sendo traduzidos na Europa e nas Américas. No Brasil, boas editoras abrem caminho para a sua divulgação. Nas universidades, as cadeiras de literaturas africanas são muito procuradas. Nas escolas públicas, os projetos relacionados à África, até por força de lei, crescem nesse sentido. E, cá entre nós, os textos literários, já dizia Edward Said, não são inocentes. E não são mesmo: eles revelam mesmo quando escondem.

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.