
Há um momento no filme Razão e Sensibilidade (1995), sensível adaptação para o cinema do romance homônimo de Jane Austen, que sintetiza a capacidade ímpar da autora inglesa de tocar o dramático sem dele abusar, sempre brincando com as possibilidades da ironia.
Quase no desenlace da trama, Elinor Dashwood (Emma Thompson, que também assina o roteiro, vencedor do Oscar), desmorona ao descobrir que o reverendo anglicano Edward Ferrars (Hugh Grant), por quem é apaixonada, não se casou e voltou para declarar-lhe seu amor.
A personagem é uma mulher que, embora burguesa, não tem uma herança. Ela, a mãe e a irmã como ocorreu a Jane Austen na vida real vivem à custa do irmão mais velho, único herdeiro dos bens do pai. Se Elinor e a caçula, Marianne (Kate Winslet), não fizerem um bom casamento, ficarão à mercê da caridade fraterna.
A cena revela o lado vulnerável de Elinor, uma mulher que, por sua coerência e coragem, aprendemos a admirar no decorrer da trama. Ela está preparada para enfrentar seu destino, seja ele qual for. E, talvez por isso mesmo, sua emoção, suas lágrimas, sejam tão comoventes. Ang Lee (de O Segredo de Brokeback Mountain) conseguiu, também graças ao brilhante roteiro, transpor para a tela a habilidade da escritora de, rejeitando as possibilidades do melodrama, muito em voga na sua época, lidar com emoções verdadeiras.
Heroína
Há outras boas adaptações de obras de Jane Austen para o cinema. Além de Razão e Sensibilidade, outra transposição interessante é Orgulho e Preconceito (2005), de Joe Wright (diretor de Desejo e Reparação). Estrelado por Keira Knightley, no papel da protagonista Elizabeth Bennet (que, como Elinor, teria vários pontos em comum com Austen), o filme centra seu foco mais na personagem central, fazendo dela uma heroína, e seu drama romântico.
Wright dá menos atenção às tramas paralelas do que o livro, sobretudo à família de Elizabeth, retratada de maneira mais crítica no romance do que no longa-metragem.
A norte-americana Gwyneth Paltrow (Shakespeare Apaixonado), por sua vez, acerta ao emprestar um certo ar gaiato à sua encarnação do personagem-título de Emma (1996), de Douglas McGrath. Trata-se de um filme (e de um livro) menos ambicioso do que os citados acima, porém bem-sucedido à sua maneira.




