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Memória

Uma pedra fundamental da música brasileira que ainda guarda mistérios

Ernesto Nazareth, cujo nascimento completou 150 anos em março, uniu música popular e refinamento clássico em uma obra que permanece viva e aberta a descobertas

Ernesto Nazareth em 1926, aos 63 anos, fotografado do Rio de Janeiro | Ilustração: Robson Vilalba / Foto: ernestonazareth150ano.com.br (Instituto Moreira Salles)
Ernesto Nazareth em 1926, aos 63 anos, fotografado do Rio de Janeiro (Foto: Ilustração: Robson Vilalba / Foto: ernestonazareth150ano.com.br (Instituto Moreira Salles))
Folhas de rosto da valsa

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Folhas de rosto da valsa

Músicas como "Odeon", "Apanhei-te Cavaquinho" e "Brejeiro", do carioca Ernesto Nazareth (1863- 1934), ainda hoje são hits das rodas de choro. Na verdade, diriam chorões como o bandolinista curitibano Daniel Migliavacca, é difícil ir a uma e não ouvir criações do compositor, cujos 150 anos de nascimento foram comemorados em março.

A permanência, de acordo com Migliavacca – que participa de uma homenagem a Nazareth na próxima terça-feira, Dia Nacional do Choro –, é explicada pela qualidade da obra do pianista carioca, tese com a qual concordam não apenas seus admiradores, mas estudiosos como José Ramos Tinhorão.

"Alguns pianistas tiveram sucesso em fins do século 19 e início do 20, como Chiquinha Gonzaga (1847-1935) e Sinhô (1888-1930). Mas o único cuja obra de pianista popular se distingue por um certo tratamento e sofisticação é Ernesto Nazareth. Nesse sentido, é um personagem único", explica o jornalista, que chama a atenção para as influências de Chopin sobre o brasileiro. "São poucas figuras, que ficam nesta posição intermediária – que, como têm muito talento, aproveitam ritmos populares e dão a eles essa dimensão erudita. Dão à música do povão da época uma certa desenvoltura que marca suas composições como uma coisa diferente. Neste sentido, Nazareth é um personagem único", diz o jornalista.

A influência indissociável da música popular urbana em suas composições também faz de Nazareth uma figura emblemática do período em que viveu, conforme explica o fagotista do Quinteto Villa-Lobos, Aloysio Fagerlande. "Nazareth é o retrato de uma época muito particular no Rio de Janeiro e no Brasil. Ele conseguiu sintetizar bem esse momento da história da música brasileira quando todas as danças europeias de salão estavam sendo relidas, repensadas com olhar brasileiro nos séculos 19 e 20", diz o músico, que é professor da Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Migliavacca, que credita a Jacob do Bandolim uma importância fundamental para a disseminação de Nazareth até os dias de hoje, explica que o compositor carioca foi um dos pilares do que seria reconhecido como o choro.

"Ele criou um estilo muito próprio de compor, tocando estilos com uma raiz europeia de forma mais abrasileirada, que até hoje se discute sobre como denominar. Tem quem chame de tango brasileiro, tem quem fale em maxixe", diz.

Esta influência do Rio de Janeiro antigo, somada à qualidade melódica, à sofisticação das harmonias e à engenhosidade de sua escrita para piano, criaria "uma música irresistível", de acordo com o pianista e pesquisador Alexandre Dias, que se debruça sobre Nazareth há 15 anos ininterruptos.

Coordenador do site ernestonazareth150anos.com.br, lançado em 2012 pelo Instituto Moreira Salles (IMS), o brasiliense compilou uma lista de homenagens que Nazareth recebeu de músicos eruditos e populares que vão de Villa-Lobos a Armandinho Macedo.

"É um índice da presença e da influência em todas as gerações que vieram depois. Sem exagero, podemos dizer que ele é uma pedra fundamental. Há quem se refira a Nazareth como o início da música popular brasileira", explica Dias.

A dupla posição – clássica e popular – de Nazareth na música brasileira seria comparável ao caso do pianista Scott Joplin nos Estados Unidos, conforme explica Tinhorão. "Scott Joplin está para o ragtime – ritmo popular americano que deu origem ao jazz – assim como o Nazareth está para o maxixe – dança nascida nos bailes populares", analisa.

Descobertas

A analogia pode guardar uma ligação direta pouco conhecida, de acordo com Dias. Embora essencialmente autodidata, Nazareth teve aulas com um professor de piano chamado Lucien Lambert, que acreditava-se ser francês. Mas Lambert era de Nova Orleans, Estados Unidos, e veio ao Brasil nos anos 1860 assim como o amigo e conterrâneo Louis Moreau Gottschalk (1829-1869), que criou as bases para o ragtime, cujas síncopes guardam parentesco com os tangos brasileiros do compositor carioca.

"Não está claro o que essas aulas ensinaram a Nazareth, mas é um possível link entre a música negra de Nova Orleans e Nazareth", explica Dias.

A hipótese seria um fato dos mais relevantes para as investigações sobre as primeiras influências do jazz, entendido em um sentido mais amplo, sobre a música brasileira – tema trabalhado pela pianista e pesquisadora curitibana Marilia Giller, que estuda a música popular da primeira metade do século 20 em Curitiba.

"Quando se fala no começo da influência do jazz no Brasil, fala-se nos Oito Batutas, que trouxeram o saxofone em 1922, e na formação das jazz bands", explica Marilia. "Mas existe essa possibilidade deste proto-ragtime ter influenciado o Ernesto Nazareth 40 anos antes."

Como outros diversos aspectos da obra de Ernesto Nazareth, o fato mal começou a ser investigado. "Nazareth é um nome que vem permeando a musicologia há décadas. Mas, agora, temos mais subsídios para olhar sua música em detalhes. Muito ainda vai ser elucidado nos próximos anos."

O "pianeiro" que inventou um estilo brasileiro

Embora tenha sido classificado como um "pianeiro" – termo usado para definir pianistas populares sem formação clássica –, Ernesto Nazareth é considerado criador de um estilo brasileiro de piano popular.

A sofisticação estética de suas melodias, influenciada pela música clássica, também se traduz em uma notável complexidade técnica em suas composições – razão pela qual peças de Nazareth são usadas como material didático no Brasil e no exterior, de acordo com o pianista e pesquisador Alexandre Dias.

"São verdadeiros estudos pianísticos", diz. "A escrita pianística de Nazareth é extremamente refinada e inteligente. Ele realmente utiliza as potencialidades do piano de uma maneira muito rica, tridimensional, lembrando Chopin, seu maior ídolo", explica Dias.

O jornalista musical e pesquisador José Ramos Tinhorão chama atenção para a preocupação do compositor em requintar suas músicas, que nunca classificou como "maxixe", mas como "tango brasileiro", exatamente para não se caracterizar como um "pianeiro" popular. "A preocupação era não se ‘conspurcar’, porque ele tinha certa pretensão de erudição", explica o jornalista – que escreve, no livro Pequena História da Música Popular: Segundo Seus Gêneros (1974), que esta necessidade de requinte faria com que Nazareth nunca conseguisse ser um compositor de maxixes inteiramente populares.

Para a pianista e pesquisadora curitibana Marilia Giller, Nazareth pode ser considerado "o pai do piano brasileiro" ao fazer uma ponte entre um instrumento "da corte" e a música dos cines e salões. "A técnica que está descrita na obra dele deu o toque do piano brasileiro. Ele tornou possível executar a rítmica sincopada, a raiz africana da música brasileira no piano", explica Marilia.

"Quem passa pela obra de Nazareth tem acesso aos trejeitos, à polirritmia que caracteriza a música popular, mas sem deixar de ter uma forma erudita de tocar", diz a pesquisadora, para quem outros "pianeiros" contemporâneos do carioca, como Chiquinha Gonzaga, se assumiam claramente como populares, sem a "pompa" encontrada em suas músicas.

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