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O ator norte-americano John Travolta | Fred Dufour/AFP
O ator norte-americano John Travolta| Foto: Fred Dufour/AFP

Assim como a Sala São Paulo, sede da Osesp, está no meio da Cracolândia, sendo uma ilha de qualidade em meio a um cenário de um filme policial dos mais violentos, a orquestra não deve ser uma ilha de qualidade em meio ao caos que são, em geral, nossa educação e cultura.

Presença de músicos estrangeiros ainda causa surpresa no Brasil

Após o texto que postei no meu blog Falando de Música, "A Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo no Proms em Londres, e a ignorância brasileira sobre a música erudita", muitos leitores criticaram o fato de a Osesp ter em seus quadros muitos músicos estrangeiros. Um leitor comentou: "pseudo orquestra brasileira (lotada de estrangeiros)". Outro escreveu: "Só lastimo que a Orquestra Sinfônica de São Paulo tenha no seu quadro uma maioria de músicos estrangeiros". Outro ainda: "Por que a Osesp não é regida por um brasileiro?"

Na história da música de concerto no nosso país, músicos estrangeiros foram de grande importância. O mais emblemático exemplo é o fagotista francês Noel Devos. Veio para o Brasil em 1952 para ser o primeiro fagote da Orquestra Sinfônica Brasileira. Apesar de estar aposentado, continua sendo uma referência e não apenas para fagotistas. Sua relação foi excepcional até do ponto de vista da composição musical brasileira. Para ele o compositor Francisco Mignone escreveu as 16 Valsas para Fagote Solo. Além de divulgar muito a música brasileira, foi, e ainda é um professor amado por seus discípulos.

Gostaria de citar grandes instrumentistas estrangeiros que transformaram para melhor a nossa vida musical. Pego um de cada país. A violinista tcheca Ludmila Vinecka, grande professora, e atual primeiro violino do Quarteto de Brasília. A excelente violinista venezuelana Carla Rincón, primeiro violino do fantástico Quarteto Radamés Gnattali. O falecido trompista italiano, Enzo Pedini, que me ensinou de forma primorosa não só a trompa, mas solfejo com os métodos que trouxe de seu país. Em São Paulo, o húngaro Bela Mori atuou por muitos anos como primeira viola da Orquestra do Teatro Municipal e foi professor. O trompista inglês Philip Doyle nos fascina com sua técnica e enriquece o Quinteto Villa-Lobos. Aqui em Curitiba, Olga Kium, pianista russa, colabora de forma significativa na preparação técnica de novos pianistas.

E os maestros? O primeiro exemplo que me vem à mente é Jenö Szenkar (1891-1977), regente húngaro de primeiríssima qualidade. Basta dizer que foi ele quem regeu a estreia mundial do balé O Mandarim Maravilhoso de Bela Bartók. Szenkar viveu no Brasil de 1944 a 1950. Junto com o compositor José Siqueira fundou a Orquestra Sinfônica Brasileira. Sua presença deixou um legado extremamente importante. Maestros como o argentino Simon Blech (Filarmônica de São Paulo), o italiano Sérgio Magnani (Sinfônica de Minas Gerais) e o húngaro Pablo Komlós (Sinfônica de Porto Alegre) se integraram de forma notável à nossa cultura, e fizeram, em muitos casos, do Brasil a sua pátria.

Capital especulativo

Quando um instrumentista ou maestro se recusa a falar o nosso idioma, mesmo depois de morar anos entre nós, quando assume uma postura de superioridade, ridicularizando nossa produção musical, aí creio que há algo errado. Nos últimos anos houve uma tendência, que posso chamar de "investimento especulativo". Vejamos. O que leva um americano a investir por uma semana no Brasil, e depois tirar todo o dinheiro? São as taxas de juros que tornam este investimento atraente e não fica nada de construtivo para o nosso país. O mesmo tem acontecido com os músicos. A causa disso não são os músicos estrangeiros, mas quem administra nossas orquestras.

No ano passado houve uma destrambelhada tentativa no Rio de Janeiro, aproveitando o câmbio favorável na época, de demitir mais de 30 músicos, muitos deles de comprovada competência. Ao mesmo tempo em que foram chamados no meio das férias para novas e inexplicáveis audições, anúncios em jornais estrangeiros anunciavam testes em cidades do exterior para ocupar as mesmas vagas. Houve uma revolta tão grande que acabaram voltando atrás. Artistas do nível de Nelson Freire e Cristina Ortiz apoiaram esta revolta e cancelaram suas apresentações. Os músicos aprovados no exterior viriam no âmbito de uma situação que certamente não faria com que eles tivessem qualquer vínculo com o Brasil, e diante da guinada cambial que houve, teriam feito as malas e ido embora.

O perigo, naquele caso, era de se tirar o emprego de brasileiros, para colocar estrangeiros no lugar. Além disso, os músicos estrangeiros seriam mais subservientes. Não questionariam nada, já que sua permanência no país estaria ligada eternamente a uma boa relação com as administrações e maestros das orquestras que os contratavam.

Temos que despertar para o fato de que o nível dos nossos instrumentistas subiu de maneira considerável nos últimos 20 anos, e considero algo muito duvidoso essa prática de se fazer audição em Londres ou Paris para vagas em uma orquestra brasileira. Se um estrangeiro se deslocar até o Brasil para fazer uma audição, e se for superior a qualquer candidato, aí, sim, deverá ficar com a vaga.

No caso da Osesp, creio que em sua reestruturação houve alguns excessos. A rotatividade de músicos foi muito grande durante certa época, tanto pelo capricho dos dirigentes, como pela própria conjuntura. Vou citar um exemplo: em 2007, foi executada pela Osesp a Sinfonia Romeu e Julieta de Berlioz. Nesta obra existe um solo de meio soprano, com pouco mais de cinco minutos. Pois bem, trouxeram para executá-lo Michelle De Young, cantora americana de grande renome. Viajou de primeira classe, deve ter ganho um belo cachê para cantar cinco minutos e fazer um solo que poderia ter sido realizado por pelo menos cinco brasileiras que conheço. Este desperdício de dinheiro e desprestígio ao artista brasileiro, são inaceitáveis. A Osesp é mantida, em sua maior parte, pelo governo de São Paulo. Um estado que tem tantas carências em termos de educação e saúde não pode se permitir o luxo de trazer uma estrela para cantar cinco minutos. Neste caso, creio que o estrangeiro está tirando o lugar de um brasileiro e gerando um gasto desnecessário.

Como percebemos, a maior parte das posturas negativas dos músicos estrangeiros é causada por uma administração ambiciosa e autoritária. A culpa não é do estrangeiro. A culpa é nossa. Se for para somar, trocar informações e desenvolver nosso ambiente artístico, o estrangeiro é muito bem-vindo. Mas se for para um estrangeiro vir para cá, a peso de ouro, ficar anos ocupando um posto musical importante, nem ser percebido pela comunidade e ter uma postura de "professor de Deus", então seria melhor ele ter ficado em seu país.

A Osesp, Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo é, sem dúvida alguma, o melhor conjunto sinfônico brasileiro da atualidade. Com seu orçamento extraordinário, comparável aos das melhores orquestras do mundo, ela dotou São Paulo de uma temporada de concertos de nível realmente internacional. Solistas da estatura de Andras Schiff, Jean-Efflan Bavouzet, Hilary Hahn, e muitos outros grandes nomes da cena musical erudita mundial, frequentam assiduamente os concertos na temporada da orquestra.

O repertório é também inovador, sendo que já foram apresentadas obras em primeira audição brasileira, como a complicada Sinfonia de Luciano Berio e a monumental Sinfonia Turangalila de Olivier Messiaen. Memorável também foi o ciclo Mahler, para comemorar o centenário da morte do compositor, quando todas as sinfonias do compositor austríaco, inclusive a Sinfonia do Mil (a de número 8) foram esplendidamente executadas. E pela primeira vez uma orquestra brasileira tem um contrato de gravações com dois selos internacionais importantes: Bis e Naxos.

O orçamento deste ano da Osesp, que foi anunciado na imprensa, é de R$ 83 milhões, sendo que o estado de São Paulo custeia a maior parte desta quantia. Esta soma mostra aos governos que para se ter uma orquestra de excelência é necessário investir alto. O orçamento de um mês da Osesp é maior do que o de um ano da maioria das orquestras brasileiras, e incluo nisso as formações paranaenses. O último grande êxito da orquestra paulista foi sua presença no Proms, um dos maiores festivais de música clássica do mundo, realizado em Londres. A Osesp foi a primeira orquestra brasileira a se apresentar neste evento, que recebeu também neste ano as orquestras filarmônicas de Berlim e de Viena.

Histórico

Entre reviravoltas e reconstruções, Osesp se consolida

Na atividade há quase seis décadas, orquestra pauslita passou por períodos de decadência e reestruturações. Hoje o grupo é ícone de qualidade técnica e artística

Fundada em 1954, a Osesp ficou por algumas décadas desativada. Foi em 1972 que o grande maestro brasileiro Eleazar de Carvalho retomou a ideia de São Paulo ter de volta sua Orquestra Sinfônica. No início, a partir de 1973, os concertos eram realizados no Teatro São Pedro. Posteriormente, a partir de 1976, a orquestra passou a atuar no Teatro Cultura Artística. Este foi o auge da gestão de Eleazar de Carvalho. Graças à sua constante presença, a orquestra adquiriu personalidade e desenvolveu projetos de grande alcance, como a série Jovens Solistas, que anualmente atraía um público excepcional. Este trabalho foi ainda mais difundido graças às transmissões da TV Cultura, que atualmente também exibe a maior parte dos concertos da Osesp.

A longa decadência da orquestra começou com a eleição de Orestes Quércia, em 1987. A Osesp foi transferida para um cinema, o irrespirável Cine Copan, e mais à frente para o Memorial da América Latina, na Barra Funda, uma da piores acústicas do país. A verba para as temporadas foi diminuindo a cada ano e nada mudou no início da gestão de Mário Covas, em 1995. Eleazar de Carvalho, já velho e doente, teve de conviver com o desprezo daqueles que posteriormente posaram como os "salvadores da pátria". É muito comum os nossos políticos deixarem, por exemplo, uma ponte desabar, e depois ganharem os louros por serem seus "reconstrutores". Foi exatamente o que se passou com a Osesp. Depois da morte de Eleazar de Carvalho, em 1996, a orquestra entrou numa fase de reestruturação, que levou à nomeação do maestro John Neschling como diretor artístico e maestro titular da orquestra. Ele comandou uma completa reviravolta no grupo, promovendo audições no Brasil e no exterior, o que explica até hoje o número considerável de estrangeiros no conjunto. Neschling lutou para melhorar o salário dos músicos e para obter uma verba para o funcionamento da orquestra jamais vista anteriormente. A inauguração da Sala São Paulo, em 1999, um dos melhores espaços para concertos do país, coroou esse processo de renovação.

Mas nem tudo foram flores no início desta reestruturação. Os músicos que foram reprovados nas audições de avaliação ou que se recusaram a fazê-las foram encaminhados a uma nova orquestra, a Sinfonia Cultura, orquestra da Rádio e TV Cultura de São Paulo. Os instrumentistas deste conjunto, fundado em 1998, que fizeram um excelente trabalho, sobretudo no que se refere à música nova brasileira, foram tratados de forma sádica pelos líderes do momento. Ensaiavam numa espécie de corredor e pareciam mesmo as irmãs preteridas, sendo que os músicos da Osesp eram incentivados a fazer chacotas sobre seus colegas da outra orquestra. Mesmo fazendo um trabalho correto e útil, a Sinfonia Cultura foi sumariamente extinta em 2005 pelo então "todo poderoso" Marcos Mendonça, grande amigo de Neschling, então presidente da Fundação Padre Anchieta, que administra a TV Cultura.

A extinção da orquestra (deixaram de existir, numa "canetada", 60 cargos de músicos) foi quase ignorada pela imprensa, sobretudo a especializada em música clássica, que temia perder as polpudas somas de propaganda da Osesp. Por falar em "polpudas somas" Neschling causava inveja aos nossos deputados e senadores. Com um salário astronômico, era o senhor absoluto de uma verba de muitos milhões. Ele sozinho definia quem tocava, quem regia, e não admitia ser questionado por trazer, inutilmente, estrangeiros para atuarem em minúsculas partes solistas. Neschling demitiu sumariamente diversos músicos que se rebelaram, e acabou saindo da orquestra em meio a brigas, inclusive com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, atual presidente da Fundação Osesp.

Nacional

No início da gestão de Neschling houve um extraordinário acerto em relação à música brasileira, com primorosas gravações (para o selo Bis) das sinfonias de Camargo Guarnieri e das obras sinfônicas de Mignone. Nos dias de hoje, a Osesp parece incentivar mais compositores populares do que os ligados à música erudita. O jornalista de O Estado de S.Paulo João Marcos Coelho afirmou recentemente: "Os compositores contemporâneos que de fato praticam música de invenção são minoria nas encomendas da Osesp (...) tentativas frustradas de ‘crossover’ caem num neonacionalismo canhestro".

Concordo totalmente com a opinião de João Marcos. A Osesp, por sua excelência, e por ser uma orquestra pública, tem obrigação de promover e incentivar a composição musical pensada na criatividade, e não no sucesso comercial. Não compreendo a Osesp ter gravado obras de um compositor francês de segundo time, Florent Schmitt (1870-1958), e não ter registrado uma nota sequer de Almeida Prado (1943-2010) ou de Marlos Nobre. Mas o lançamento, neste mês, pelo selo Naxos, de duas sinfonias de Heitor Villa-Lobos com a orquestra paulista, acende a esperança de uma mudança salutar de atitude.

Futuro

A Osesp, ao pensar grande, deseja ser uma orquestra que tenha uma personalidade. Existem no mundo conjuntos que estão além de serem bons, são orquestras únicas, identificáveis. Para que a Osesp alcançe este objetivo seria necessário que alguém fizesse um trabalho contínuo e regular. No meu entendimento, há um obstáculo para que isso seja alcançado. Seria muita inocência achar que a norte-americana Marin Alsop, a atual maestrina principal da orquestra, que não mora no país e permanece aqui durante dez semanas por ano, seja capaz de forjar esta individualidade. Se Neschling teve lá seus excessos, ao menos ele morava em São Paulo, e estava com a orquestra o maior tempo possível. Neste aspecto, ele deixou claro que um trabalho mais constante era importante.

A ausência de uma personalidade da orquestra, destacada na imprensa europeia quando de sua última excursão naquele continente (opiniões bem diferentes e menos elogiosas do que a dos jornalistas que viajaram a convite da Osesp), mostram que o caminho para uma orquestra chegar à maioridade passa por um trabalho mais regular com seu maestro principal.

A Osesp deve nos encher de alegria por dotar o país de uma orquestra e de uma estrutura de funcionamento de altíssimo nível. Só não podemos esquecer que ela, ao contrário de orquestras como as filarmônicas de Berlim e de Viena, está sediada num país pobre, cujos hospitais e escolas são altamente deficitários.

Assim como a Sala São Paulo, sede da Osesp, está no meio da Cracolândia, sendo uma ilha de qualidade em meio a um cenário de um filme policial dos mais violentos, a orquestra não deve ser uma ilha de qualidade em meio ao caos que são, em geral, nossa educação e cultura. E que a Osesp não se porte como um "capricho" e uma "obra" do PSDB, pois uma virada política pode comprometer sua continuidade. A Osesp deve permanecer, seja lá qual partido esteja no Palácio dos Bandeirantes, e não pode permitir ser identificada como a orquestra de um determinado partido, que uma hora ou outra sairá do comando. Para isso, a conduta do grupo e de seus dirigentes deve ser inquestionável. Que a Osesp não se encastele em sua excelência. Que ela, com sua qualidade técnica e artística, faça de nosso país um lugar melhor.

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