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Joca Reiners Terron: menos experimental em seu novo romance | Renato Parada/Divulgação
Joca Reiners Terron: menos experimental em seu novo romance| Foto: Renato Parada/Divulgação

Na mitologia grega, irmãos gêmeos representavam a imortalidade. Detinham poderes de vida e morte por causa de seu corpo duplo. No caso de Pólux, irmão de Castor, a imortalidade foi um castigo. Quando Castor morreu em uma batalha, Pólux, inconformado, pediu para que Zeus trouxesse o irmão de volta à vida. Como não podia resgatá-lo de Hades, o deus dos mortos, Zeus propôs a Pólux que dividisse sua imortalidade com o irmão morto, o que ele aceitou de prontidão.

Assim, os dois irmãos intercalariam um dia no inferno e outro na Terra, sem nunca se encontrarem. Essa teria sido a sina de Castor e Pólux, caso Zeus não tivesse decidido colocá-los lado a lado no firmamento, transformando-os na constelação de Gêmeos e unindo-os por toda a eternidade.

William e Wilson, gêmeos protagonistas de Do Fundo do Poço Se Vê a Lua, mais novo romance do escritor cuiabano radicado em São Paulo Joca Reiners Terron, não contam com a mesma sorte dos deuses gregos. Dividem a tarefa de evitar se tornarem vítimas de uma única sina, a mesma que persegue os gêmeos mais famosos das histórias antigas – Castor e Pólux, Caim e Abel, Rômulo e Remo, todos separados pela morte.

Nascidos em São Paulo, nos anos finais da ditadura, órfãos de mãe e criados pelo pai, um ator, William e Wilson crescem para atuarem juntos, mas as brincadeiras de infância logo dão conta de revelar que a semelhança entre eles é apenas física. William é violento, taciturno e masculino, enquanto Wilson é feminino e dono de uma inteligência tão sagaz quanto compulsiva. "Aos oito anos de idade eu ainda não ouvira falar de Calamity Jane, esse era meu problema. Se naquelas brincadeiras de bangue-bangue eu pudesse ter sido uma mulher (em vez de Wyatt Earp, Jesse James ou Wild Bill Hickcock), meu cavalo não teria sido em tão pouco tempo baleado mortalmente exatas duas mil trezentas e cinquenta vezes", lamenta Wilson, cuja voz narra o romance.

Desde sempre obcecado pela questão do duplo e pela lenda do doppelgänger, o pai dos gêmeos, dono de um teatro decadente no Centro da capital paulistana, com medo de que um dos filhos venha a morrer como nas lendas, concebe uma estratégia para que ambos "driblem" a morte todas as noites. William e Wilson passam a estrelar um conjunto de peças temáticas batizado de o Ciclo do Duplo, em que estiveram em cartaz peças como Os Menecmos (Plauto), A Calandra (cardeal Bibbiena) e Titã (Johann Paul Friedrich Richter), esta última, a grande obra-prima do ciclo, cujo grand finale inesperado acaba separando os gêmeos por quase quatro décadas.

Egito

A batalha de Wilson para livrar-se da imagem espelhada do irmão e se transformar em uma figura feminina inspirada pelo objeto de sua obsessão, a rainha egípcia Cleópatra – sobretudo como encarnada no cinema por Elizabeth Taylor, no épico dirigido por Joseph L. Mankiewicz, em 1963 – é a espinha dorsal de Do Fundo Poço.... O romance integra a coleção Amores Expressos, idealizada pela produtora RT Features em parceria com a editora Companhia das Letras, que já enviou ao exterior autores como Bernardo Carvalho, Luiz Ruffato e Daniel Galera, com a condição de que eles escrevessem uma história de amor ambientada nos países que visitaram.

No caso de Terron, o destino foi o Cairo, capital do Egito, para onde o personagem William também parte em determinado momento da trama, em busca pelo irmão, que ele não vê desde os 18 anos. Acompanhado de sua mulher, a editora Isabel Santana, Terron passou um mês no Cairo, em 2007, o que refletiu profundamente nas descrições das sórdidas paisagens egípcias por onde circula a história. "O caos depreendido da maneira com que se dispõem ao longo da rotatória em torno da praça, sem respeitar faixas de pedestres, e as sinalizações tornadas invisíveis devido à areia cinza que cobre quase todo o asfalto fazem com que de súbito ele (William) se recorde de uma visita feita na infância por nós dois com papai aos carrinhos bate-bate de um parque de diversões. Da mesma forma que nós então, os motoristas egípcios comportam-se feito meninos numa tarde de domingo", narra.

Intercalando passado e presente com episódios marcantes, entre eles mudança de sexo, assassinatos e amnésia, Terron construiu seu romance mais longo e menos experimental, dando pistas de novos caminhos a serem seguidos por sua escrita. A começar pelos protagonistas, complexos e imprevisíveis, com os quais o leitor cria uma intimidade ao longo das 279 páginas que levam até o "fundo do poço" sugerido no título. GGG

Serviço:

Do Fundo do Poço Se Vê a Lua, de Joca Reiners Terron. Companhia das Letras, 280 págs. Preço médio: R$ 36,60.

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