
Vigiar, como diria o filósofo francês Michel Foucault (1926-1984), se já não é um tipo de punição em si, antecede reprimendas que podem ir do silêncio que desaprova sem nada dizer, mas que encontra meios de se fazer evidente e machucar, a castigos mais rígidos, como a privação da liberdade, a desmoralização pública e a agressão física.
O Estado que tudo vê, e julga, como medida de controle social, já se faz presente no clássico paradigmático 1984, romance publicado por George Orwell em 1949, em que os olhos onipresentes do Grande Irmão perscrutam e violam, a todo instante, a liberdade fundamental de ir, ver e ser. É um conceito premonitório, do qual tanto o entretenimento quanto a vida real, sobretudo depois do 11 de Setembro de 2001, se apropriaram.
Premiado com o Oscar de melhor filme estrangeiro, o longa-metragem alemão A Vida dos Outros (2006), de Florian Henckel von Donnersmarck, é, em tese, um drama histórico.
Tem como personagem central Georg Dreyman (Sebastian Koch), maior dramaturgo da Alemanha Oriental, visto pelo Estado como o modelo perfeito de cidadão para o país: nada contesta com sua obra. Mas como é um artista, e talentoso com as palavras, algo deve estar errado nesse conformismo tão evidente. Ele pode ser um disfarce muito bem costurado para esconder ações subversivas do escritor.
Essa desconfiança faz com que o ministro Bruno Hempf (Thomas Thieme) coloque a Stasi, principal organização de polícia secreta e inteligência do país da Cortina de Ferro, no encalço de Dreyman; Ele deve ter, provavelmente, algo a esconder.
A missão é repassada para o agente Anton Grubitz (Ulrich Tukur), mas quem a assume é um subordinado, Gerd Wiesler (Ulrich Mühe), que passa a vigiar o dramaturgo e sua namorada, a atriz Christa-Maria Sieland (Martina Gedeck), 24 horas por dia, com fidelidade canina. Enquanto isso, Hempf, encarnação mais perversa do poder, que tira proveitos pessoais de sua posição de liderança, toma Christa-Maria como amante, passando a chantageá-la em troca de favores sexuais.
Interessa aqui, mais até do que a institucionalização da vigia, da violação das liberdades pessoais, rotineiras em um Estado controlador como era a Alemanha Oriental, a relação que se estabelece entre Wiesler e Breyman. É um vínculo de dependência: o autor, embora aparentemente no lado mais fraco da corda, domina, sem ter exata consciência disso, o espião, que aos poucos se rende à ideia de liberdade encarnada por Breyman. O teatrólogo tem uma vida infinitamente mais interessante do que o agente, que aos poucos se dá conta de existência medíocre que leva e acaba por ser "subvertido" pelo alvo de sua espionagem, em uma sacada brilhante do roteiro.
Não seria Wiesler, portanto, tão ou mais vítima do aparelho de vigia do Estado quanto Dreyman? Defensores dos direitos humanos discordariam. Filósofos mais sensíveis às intersubjetividades da história, talvez não.
Tragédia da vida privada
Em Caché (2005), filme rodado na França pelo também alemão Michael Haneke (de Fita Branca e Amor), não é o Estado que vigia. Estamos no século 21 e as câmeras que tudo veem já não são apenas privilégio do poder público. Estão em todo lugar, sobretudo como meio de proteção do patrimônio e da segurança pessoal de quem pode arcar com seus custos.
Um dia, Georges (Daniel Auteuil) e sua esposa Anne (Juliette Binoche), um casal de classe média alta, recebem uma fita de vídeo com imagens de sua casa, filmada por uma câmera instalada na rua, como tantas que existem espalhadas pelas grandes (e pequenas) cidades.
Embora tenham consciência da possibilidade de existência de equipamentos do gênero, e soubessem que, de alguma forma, seus movimentos cotidianos eram registrados, assim como os de seus vizinhos e os nossos, aqui do outro lado do Atlântico, eles não haviam parado para pensar que havia, de fato, um olhar de alguém a segui-los, a observá-los. E que as imagens, supostamente uma garantia de segurança desprovida de identidade humana, "apenas" com a função simbólica de proteger, assumem outro papel, o de instrumento de ameaça.
Depois disso. Georges e Anne começam a receber desenhos sinistros, que de alguma forma também denunciam uma instância vigilante que, mesmo sem revelar-se, é uma promessa de punição, hipótese que se confirmará com o desenrolar da trama. Assustado, o casal tenta descobrir o autor das ameaças, que perturbam a paz de sua família e aos poucos despertam fantasmas soterrados no passado de Georges.
Caché, título em francês do longa de Haneke não traduzido no Brasil, significa escondido. O particípio serve para definir o sujeito oculto que os espiona, movido por uma enorme mágoa acumulada ao longo do tempo, de conotações tão pessoais quanto políticas é um filho de imigrantes do norte da África que, quando menino, foi injustamente acusado e punido por um erro cometido por Georges.
Mas Caché também se refere ao olhar (escuta ou rastreamento) que invade, vasculha e viola sem que dele se tenha consciência. Algo que, sabemos, existe, está escondido, porém presente, sempre à espreita. Cada vez mais.




