Bolsonaro e o Brasil - Carlos Ramalhete
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Bolsonaro e o Brasil

Fernando Frazão/Agência Brasil
Fernando Frazão/Agência Brasil

A situação do Brasil é preocupante. Além de todos os problemas já costumeiros – miséria, níveis inauditos de criminalidade, poluição, grupos guerrilheiros de “sem-terra” etc. –, os anos perdidos com o país nas garras do petismo nos deixaram uma triste herança de divisão. É coisa sem base alguma na nossa cultura, mas importada, como costuma acontecer, da política americana pelas esquerdas. Foram 12 anos, ou mais (já que a mídia apoia as campanhas do PT desde muito antes de sua subida ao poder, e continua em grande medida a fazê-lo), em que se tentou lançar brasileiro contra brasileiro: pretos contra brancos, pobres contra ricos, ciclistas contra motoristas, “sem-terra” contra fazendeiros, homossexuais contra heterossexuais, e por aí vai.

O modo de fazer política do PT é na verdade a antipolítica, baseando-se na divisão da pólis em grupos identitários que só existem por oposição uns aos outros. Dividir para reinar. Fazendo-se de aliado dos grupos soi-disant minoritários ou mesmo “oprimidos”, o PT deixou uma herança de ódio que teve sua confirmação mais trágica no atentado contra Bolsonaro na semana passada.

O próprio Bolsonaro assumiu, de muito bom grado, aliás, a figura de alvo das investidas petistas, com suas declarações politicamente incorretas e mesmo grosseiras. O horrendo atentado que sofreu, diga-se de passagem, foi justamente em decorrência disso: demonizaram-no a tal grau que um comunista louco achou estar agindo em nome de Deus ao esfaqueá-lo. Independentemente de se houve mandantes no atentado, foi isso que afirmou o criminoso, e não vejo razões para duvidar dele. Há deficientes mentais que incendeiam o Reichstag, ainda que outros lhes ponham o archote na mão. Em outro nível, mas ainda na lista de ataques absurdos com o único objetivo de demonizar Bolsonaro, foi um grande alívio perceber que não foi à frente a grotesca acusação de racismo feita contra ele por conta de umas poucas grosserias proferidas numa palestra ao eleitorado judeu. Aliás, em flagrante contraste com as delirantes acusações de que ele seria nazista (!), este eleitorado o apoia entusiasticamente em grande medida. É até interessante notar que sua assessoria dispensou a UTI aérea do hospital árabe Sírio-Libanês, que já voara a Juiz de Fora logo depois do atentado para pegá-lo, e transferiu-o, em vez disso, para o Hospital Israelita Albert Einstein.

Mas o problema perdura. O próximo presidente herdará um país dividido, um país em que o ódio e a adesão a visões identitárias da realidade (que, repito, só existem por oposição: o preto é o não branco e o antibranco; o homossexual é o não heterossexual e anti-heterossexual; o ciclista é o antimotorista por antonomásia; e por aí vai, nesta bizarra e violentíssima visão de mundo que o PT nos legou) impedem a realização de uma verdadeira política, que é e só pode ser baseada na civilidade comum. Civis e pólis, a origem etimológica da “civilidade” e da “política”, são a mesma palavra em latim e em grego.

Far-se-ia necessário um estadista, alguém que conseguisse voltar a unir o país em torno de um projeto comum, de uma visão comum de pátria em que houvesse lugar para todos, lado a lado, sem oposição. Não há razão alguma para essas oposições identitárias violentas, importadas de uma cultura de origem calvinista e, portanto, dualista, em que a divisão (entre “ganhadores” e “perdedores”, pretos e brancos etc.) é impensada, culturalmente esperada e incontestada. A nossa cultura é outra: aqui somos pelo diálogo, pela tolerância, pela busca do consenso, pela união que a cultura americana não conhece. Importar esta forma americana de fazer uma antipolítica foi não apenas um atentado à própria política, à própria arte do compromisso e da busca de consenso, como um atentado contra a nossa própria cultura brasileira.

E aí é que surge o problema: onde está este estadista? Que eu saiba, em lugar nenhum. Bolsonaro tem a vantagem de, no “nós contra eles” petista, em que o “eles” é o grosso da população, fazer parte deste último grupo. Ele não é, ao contrário do que pregam ad nauseam os petistas e seus aliados, “divisivo”, “racista”, “homofóbico” ou o que quer que seja. Na verdade, costumo dizer que ele poderia ser substituído por um taxista aleatório e ninguém perceberia a diferença. Ele é simplesmente uma pessoa comum, inteligente, com um sistema de valores moldado pela experiência militar e sua ênfase no “rusticismo” – que para os desacostumados pode parecer grosseira –, com uma religiosidade difusa, confusa e desordenada como infelizmente é hoje de praxe, após pouco mais de meio século de mistura entre espiritismo e protestantismo pentecostalista sobre a base católica de nossa cultura. Como já escrevi anteriormente, ele espertamente assumiu no Congresso, quando o discurso único petista parecia invencível, uma postura de “bobo da corte”, em que seus exageros e grosserias o faziam parecer tão absurdo que ninguém o levaria a sério, e usou esse palco para fazer chegar ao grosso da população a percepção de que haveria alguém ali que não havia enlouquecido. O que parecia loucura para os petistas foi percebido como sanidade pelo eleitorado, ou por grande parcela dele. São Paulo Apóstolo aprovaria.

Mas ele não é um estadista. Mais ainda: nem ele nem nenhum de seus concorrentes, de que tratarei brevemente mais abaixo, são estadistas, e muito menos o estadista de que o Brasil precisa. O modo pelo qual ele operou a sua subida à posição que hoje ocupa foi derivado da política divisiva do PT, colocando-se como antítese de todas as teses pregadas por eles. Não é nem de uma antítese nem de uma síntese que precisamos, ao contrário do que prega o materialismo dialético que, em versão pós-moderna, orienta o maquiavelismo petista. Precisamos, ou antes precisaríamos, dada a sua inexistência, de alguém que soubesse se colocar acima dessas divisões, não de alguém que as surfa e as usa de rampa de lançamento, como Bolsonaro fez e faz.

Ainda que ele seja, de longe, o mal menor em comparação com seus concorrentes, uma sua ascensão ao poder só fará recrudescer o discurso divisivo petista, que já conseguiu pregar nele, com sua colaboração entusiástica, o rótulo de inimigo pessoal de cada uma das identidades raivosas. O antipreto, anticiclista, anti-homossexual etc. Em outras palavras, ele não se colocou como inimigo da divisão, sim como componente dela, assumindo a postura de defensor da maioria contra as minorias ensandecidas. Este é um papel necessário no parlamento, mas não pode ser a postura do Executivo. Mas é um papel. Quem desempenha um pode desempenhar outro, se isso lhe for permitido.

Não sei, sinceramente, se sua excelente assessoria conseguiria retirá-lo da posição em que ele mesmo se colocou. Com certeza, o PT e seus aliados (basicamente os partidos de todos os seus concorrentes na campanha presidencial, mais a mídia, mais os professores, sindicalistas, subversivos profissionais etc.) de tudo farão para continuar a mantê-lo nesse papel. Se isso acontecer, o que poderia e deveria ser feito pacificamente por um estadista teria de ser feito de maneira violenta, calando o discurso divisivo e vitimando, como efeito colateral, aqueles que atrelaram a ele a sua própria identidade. Evidentemente, isso só faria fortalecer o discurso vitimista do PT. É uma armadilha da qual Bolsonaro (que, repito, continua sendo o mal menor) teria enorme dificuldade de escapar, por melhores que sejam seus assessores. E ele tem de confiar neles: saiu do Exército capitão apenas, logo, sem ter feito Escola de Estado-Maior. Ele conhece tática, não estratégia. Curto, não longo prazo. Ação local, não ação global. Neste ponto é um alívio que tenha se cercado de generais, mas resta saber o quanto ele os ouviria no Planalto.

E quem são seus opositores?

Ciro Gomes é um coronelzinho nordestino tradicional, com a desvantagem de ser um boquirroto brigão que faz Bolsonaro parecer um modelo de moderação. Que eu saiba, Bolsonaro nunca bateu em quem o xingasse na rua (coisa que vem junto com a carreira política), ao contrário de Ciro. Eleito presidente, Ciro alternaria entre comprar deputados à moda tradicional e brigar com todo o mundo. Decididamente não é o estadista que viria acabar com as divisões plantadas artificial e artificiosamente pelo PT, partido que, aliás, ele apoia. Basta ver suas declarações acerca do presidiário de Curitiba.

Marina é o PT pintado de verde. Qual ser da floresta ignota, levanta-se a cada quatro anos de seu jazigo no meio da selva para assombrar as eleições presidenciais. Eleita, seria uma Dilma em versão 2.0, provavelmente até com direito a discursos desconexos como sua antiga colega de partido. Não dá nem para síndica de prédio, que dirá para estadista. Seu lugar, como o de Bolsonaro, é o parlamento, onde opiniões extremadas – como as suas em relação ao meio ambiente – servem de bússola em votações, sem jamais conseguirem maioria.

Alckmin é a parteira do PCC. Foi ao longo de seu longuíssimo reinado, direto e indireto, sobre o estado de São Paulo que aquela facção criminosa conseguiu dominar os presídios e organizar todas as ações criminosas do Estado, espalhando-se ainda pelo Brasil afora. A diminuição de homicídios devida às ordens do PCC (para não atrair polícia e não interromper as lucrativas ações de roubo, furto e venda de drogas) embelezou as estatísticas e ajudou a esconder o fato de que no seu plantão a polícia judiciária de São Paulo foi quase destruída. É o oposto de um estadista. É alguém que só vê a publicidade, as aparências, e não sabe pensar no médio e longo prazo. Provavelmente conseguiria ser pior que todos os concorrentes, com a exceção do seguinte.

Boulos é um criminoso, que deveria estar preso. De preferência na mesma cela de seu mentor Lula, tomando cuidado para que não acontecesse com ele o mesmo que quase aconteceu com o “menino do MEP”. Ou não. Um filhinho de papai mimado, como Ciro Gomes, com a agravante de ter feito carreira invadindo e depredando a propriedade alheia. Eleito – coisa que não tem chance alguma de acontecer, graças ao bom Senhor Deus –, ele levaria o país no caminho nem um pouco saudável que tomou a Venezuela. Um aspirante a ditador, perigoso e antissocial.

Haddad é uma piada, que saiu corrido da prefeitura de São Paulo depois de ter feito fama ao derramar tinta vermelha pela cidade afora afirmando estar a criar ciclovias. É o segundo poste do Lula. Depois de a Lava Jato ter posto a nu alguns dos horrores e roubalheiras da gestão petista, Lula há de ter voltado aos seus 30% de apoio de que gozava antes de seus publicitários o transformarem em “Lulinha Paz & Amor”. Se tanto. Só aqueles que foram vitimados pela lavagem cerebral petista (ministrada numa escola perto de você, nas aulas que deveriam ser de História, Geografia, Filosofia, Sociologia, Português…) conseguem levar a sério o presidiário barbudo. Destes, alguns passarão a votar no Haddad, por ordens do Chefe. Mas Haddad presidente é algo que provavelmente nem a mãe dele quer de fato. Pobre senhora.

E é por isso que sobra o Bolsonaro. Mas para ganhar ele precisa operar a mágica – que a facada talvez ajude a conjurar – de abrandar a sua persona de “bobo da corte” parlamentar, de parte na disputa entre Fulanos e Beltranos importada pelo PT, e mostrar-se como quem ele verdadeiramente é: não, infelizmente, o estadista de que o Brasil precisa, mas uma pessoa normal. Ele não é um monstro racista, nazista, fascista, saxofonista, o que seja. Ele é simplesmente um brasileiro médio, com um bom talento para perceber o que está no ar. Se ele conseguir, a Presidência é sua. E na Presidência, talvez, quem sabe, um brasileiro médio consiga começar o que há de ser a longa obra de restaurar a unidade do Brasil.

Que Deus nos ajude.

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