
Um dos principais líderes do Centrão no Congresso Nacional foi alvo de um mandado de busca e apreensão nesta quinta-feira, por ordem do ministro do STF André Mendonça, relator das investigações sobre o Banco Master na corte. Ciro Nogueira (PP-PI), presidente nacional de seu partido, é acusado de receber pagamentos mensais que variavam de R$ 300 mil a R$ 500 mil, além de várias outras vantagens – como o uso de imóveis, a aquisição de uma empresa por valor muito inferior ao de mercado, e o custeio de viagens de luxo –, bancadas por Daniel Vorcaro. Em troca, Nogueira atuaria no Legislativo em favor de medidas que beneficiassem o Banco Master.
Uma peça central nas investigações é uma emenda a uma PEC que pretendia aumentar a autonomia do Banco Central. A emenda apresentada por Nogueira previa que o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) pudesse cobrir até R$ 1 milhão em prejuízos de pessoas físicas ou jurídicas que tivessem dinheiro depositado em bancos liquidados – o limite atual é de R$ 250 mil. O Master tinha interesse direto nessa mudança, pois usava o FGC como chamariz para convencer potenciais clientes a investir no banco, que prometia retornos muito acima da média do mercado com estratégias agressivas que se mostraram insustentáveis. Com o limite atual, o FGC já terá de desembolsar mais de R$ 50 bilhões para compensar os clientes do Master; com o limite ampliado, as consequências seriam catastróficas. As investigações da PF apontaram que a emenda apresentada por Nogueira foi redigida pela equipe do Master.
Vorcaro não tinha preferência político-ideológica, estreitando laços com qualquer um que pudesse ajudá-lo: no Executivo, no Legislativo e no Judiciário; na esquerda, no centro e na direita
O PT resolveu aproveitar o fato de Nogueira ter sido ministro de Jair Bolsonaro para colar o escândalo no antecessor de Lula (e pai do principal adversário do petista nas próximas eleições). A malandragem eleitoreira ignora que Vorcaro não tinha preferência político-ideológica, estreitando laços com qualquer um que pudesse ajudá-lo: no Executivo, no Legislativo e no Judiciário; na esquerda, no centro e na direita. O governo petista da Bahia, por exemplo, é um dos que mais privilegiaram o Master em suas decisões; no Brasil inteiro, previdências estaduais e municipais aplicaram dinheiro no banco de Vorcaro – um dos casos envolve um aliado do presidente do Senado, Davi Alcolumbre.
As investigações sobre a extensão da teia montada por Vorcaro não podem poupar ninguém, esteja onde estiver – aliás, informações de bastidores apontam que Mendonça estaria inclinado a rejeitar a proposta de delação premiada do banqueiro se ela deixasse de lado personagens importantes, sobre os quais já haveria informação suficiente nos celulares apreendidos. Nogueira está longe de ser o único figurão em uma rede de relacionamentos que também inclui ministros do STF, autoridades do Poder Executivo, da Procuradoria-Geral da República e até da Polícia Federal. Os valores que teriam sido pagos a título de mesada a Nogueira, recorde-se, empalidecem diante do contrato do Master com o escritório da esposa de Alexandre de Moraes.
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Além disso, os mesmos petistas que se refestelam com os mandados contra Nogueira são os que se empenharam em jogar para debaixo do tapete os mesmos métodos quando aplicados a outro escândalo, o roubo bilionário do INSS. A Contag, uma das principais beneficiadas pelo esquema, e presidida pelo irmão de um deputado petista, redigiu emendas a uma medida provisória, com o objetivo de enfraquecer a fiscalização e o combate a fraudes na Previdência. E uma outra mesada, também de R$ 300 mil mensais, ligaria Fábio Luís Lula da Silva, o “Lulinha”, filho do presidente da República, ao “careca do INSS”. Nada disso foi apurado como deveria, graças a manobras de governistas no Congresso e à ajuda do STF, que derrubou quebras de sigilo. A corte também tem sido pródiga em decisões que blindam seus próprios membros em meio ao escândalo do Master.
Já existem pedidos de instalação de CPIs do Banco Master, mistas ou em apenas uma das casas do Congresso, e uma tentativa de fazer o Supremo forçar Hugo Motta a instalar a comissão na Câmara já fracassou. Governistas dizem aceitar uma investigação, desde que nos seus próprios termos, o que já aponta para a possibilidade de blindagem. Outros parlamentares afirmam que, quanto mais as eleições se aproximam, mais difícil será instalar as CPIs, que atrapalhariam as campanhas dos congressistas. Se de fato essa previsão se confirmar, que ao menos Mendonça e a PF mantenham o ímpeto, sem omissões ou acobertamentos.







