Blog Flavio Quintela

O desafio de uma imprensa plural

Foto: Pixabay
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Gazeta do Povo completa 100 anos em um ano especialmente importante para a imprensa brasileira. Depois de décadas de governos de esquerda, o Brasil iniciou 2019 com um governo que se declara conservador e de direita. Em qualquer democracia saudável, a imprensa existe para ser o quarto poder, aquele que fiscaliza os outros três, independentemente da orientação ideológica dos governantes, legisladores e magistrados. A imprensa ideal é a que busca a verdade, não se deixa contaminar pela parcialidade e nem por revanchismos, promove discussões e diálogos entre gente de diferentes opiniões e respeita a liberdade de expressão acima de tudo. Infelizmente, a imprensa brasileira entrou há algumas décadas em uma espiral negativa de desonestidade, falta de qualidade, preguiça e contaminação ideológica.

Depois que os militares tomaram o poder, lá em 1964, o general Golbery achou que seria inteligente providenciar uma válvula de escape para a esquerda brasileira. Foi com base em sua “Teoria da Panela de Pressão” que o governo militar fez vista grossa para a ocupação ideológica que se deu nas universidades e órgãos de imprensa durante o regime. As redações dos maiores jornais brasileiros foram, pouco a pouco, “eliminando” jornalistas e editores ideologicamente alinhados à direita em prol de seus pares alinhados à esquerda. O equilíbrio que existia até a década de 1950 foi desaparecendo tanto na imprensa quanto na academia. O fenômeno não foi exclusivo do Brasil: nos Estados Unidos, por exemplo, os maiores órgãos de mídia do país são quase todos de esquerda e, para cada opinião emitida por um professor universitário de direita, existem mais de 300 opiniões emitidas por professores de esquerda sobre o mesmo tema, segundo dados da Heterodox Academy, de Jonathan Haidt e Nicholas Rosenkranz. Em resumo, o marxismo foi abandonado em sua vertente armada e implementado em sua vertente cultural.

Mas voltemos a 2019. A importância deste ano está justamente no grande desafio que imporá à imprensa brasileira. A eleição de Jair Bolsonaro mostrou que os grandes jornais e emissoras do país não estão mais conseguindo transmitir informações de qualidade e verdadeiras. O jornalismo investigativo deu lugar a pesquisas preguiçosas no Google e na Wikipedia. Na grande maioria das vezes, o “repórter” nem sequer se levanta da cadeira para escrever a matéria toda. Esse modo piorado de fazer jornalismo acabou por isolar as redações do mundo real, aquele em que a população quer viver em paz, livre de bandidos, com dinheiro no bolso, filhos na escola e churrasco no fim de semana. Foi por não sair de sua bolha que a imprensa sedimentou a vitória de Bolsonaro: repórteres, âncoras e entrevistadores desperdiçaram todas as oportunidades que tinham de sabatinar o agora presidente, preferindo promover sua pauta de lacração com temas de pouquíssimo apelo ao grosso da população. A bolha é fruto de todo esse tempo de desequilíbrio, da ausência do contraditório nas redações.

Neste cenário, é uma grande satisfação comemorar os 100 anos da Gazeta do Povo, um dos poucos órgãos de imprensa deste país que se manteve plural, honesto e respeitoso à liberdade de expressão. Sua seção de Opinião, na qual tenho minha coluna semanal, é exemplo maior disso. Lá convivem colunistas de todo o espectro ideológico, livres para expressar suas ideias e para promover o debate sobre os mais variados temas. No mundo ideal, a Gazeta não faria mais que sua obrigação; no Brasil, merece parabéns efusivos. Feliz 100.o aniversário!

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