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Já há algum tempo os dados estatísticos apontam para um fenômeno comum a quase todos os países do mundo: a proporção de idosos tem aumentado e menos crianças estão nascendo. Aqui mesmo, no Brasil, entre 2023 e 2024, a pesquisa "Estatísticas do Registro Civil", do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostrou que houve uma queda de 5,8% (146.366, em termos absolutos) no número de nascimentos.
O Censo Demográfico de 2022 mostrou que a taxa de fecundidade total teve queda rápida no Brasil nas últimas décadas: num período de 60 anos (1960-2022), o número de filhos por mulher caiu de 6,28 para apenas 1,55, o que é bem abaixo do nível de reposição populacional, de 2,1 filhos.
Tradicionalmente, a queda na taxa de natalidade costuma ser relacionada a fatores econômicos – como as crises financeiras regionais e a empregabilidade – e sociais – como a maior escolaridade, maternidade tardia e uso de métodos contraceptivos.
Mas pesquisas recentes e especialistas ouvidos pela Gazeta do Povo trazem outra variável para explicar parcialmente o fenômeno: o impacto da hiperconectividade trazida pelos smartphones – e, com a maior facilidade digital, o consumo da pornografia.
Queda da fertilidade de homens jovens estaria relacionada com o uso de celulares, diz estudo
Em estudo publicado em abril deste ano, os pesquisadores Nathan Hudson e Hernan Moscoso-Boedo, da Universidade de Cincinnati, nos Estados Unidos, propõem uma relação entre a queda global da fertilidade de jovens, a partir de 2007, e a difusão dos smartphones, que alterou profundamente as interações sociais juvenis. Eles argumentam que as telas passaram a substituir a convivência real, reduzindo encontros, namoros e, consequentemente, a atividade sexual.
“Quando um número substancial de adolescentes está usando o celular, é pelo aparelho que sua rede de pares se concentra. Então, o tempo presencial diminui drasticamente e o contato não estruturado, no qual a maioria das concepções não planejadas entre adolescentes ocorre, também”, afirmam os autores.
O estudo –The collapse of teen fertility in the digital era – estabelece 2007 como o "ano zero" da conectividade móvel. Cruzando os dados de expansão do 4G nos Estados Unidos e no Reino Unido, os pesquisadores conseguiram identificar um padrão que se repete em 128 países, mostrando que, independentemente da cultura ou região geográfica, as taxas de natalidade despencaram acentuadamente logo após a digitalização extrema.
Portanto, o fenômeno da queda na fertilidade dos jovens, especialmente – e, por consequência, a redução na taxa de natalidade –, não é biológico, mas comportamental, de acordo com eles.
Outras pesquisas recentes ligam diretamente a pornografia a fatores que costumam reduzir a fecundidade.
Nos Estados Unidos, um estudo divulgado neste mês de junho pelo National Bureau of Economic Research analisou a difusão do iPhone entre 2007 e 2011 e apontou que o avanço dos smartphones esteve ligado a menos interação presencial, menor frequência sexual e maior uso de pornografia, possíveis fatores para a queda de nascimentos no período.
Na China, uma pesquisa de 2026 da Sichuan Normal University, feita com 2.049 mulheres de 17 a 24 anos, encontrou associação entre consumo de material sexualmente explícito na internet e menor intenção de ter filhos, menor número ideal de filhos e mudança na idade considerada ideal para a maternidade.
Pornografia é um dos principais artifícios antinatalidade, diz especialista
Para o terapeuta Caio Etchichury, especialista no atendimento de homens com compulsões sexuais e vícios digitais, a pornografia é um dos maiores artifícios antinatalidade que existem. Ele, que também é professor do Instituto de Psicologia Tomista, explica que, sob a ótica neuroquímica, o consumo de conteúdo adulto é um “shot” de dopamina no cérebro e interfere no mecanismo biológico de saciedade.
“Se comemos muito, uma hora nosso corpo vai reagir. Da mesma maneira com as drogas. Mas, quando o conteúdo é um entretenimento visual, o corpo não tem essa mesma regulação. O público com o qual trabalho é o de homens, e não é incomum saber de alguns que passam mais de três horas, até oito, consumindo pornografia”, revela.
Ele reforça que isso altera o mecanismo fisiológico do indivíduo e, aos casados, impacta no relacionamento conjugal. “Então ele se satisfaz, primeira e maximamente, com o conteúdo adulto, ao invés de se relacionar e de ter uma satisfação plena e genuína com a esposa”.
Para aqueles que ainda não têm um compromisso firmado, como o casamento, Etchichury diz que o acesso constante à pornografia trazido pela facilidade de se ter tudo disponível por meio dos smartphones resulta no que ele chama de “luxúria solitária”. E a consequência é um pavor da intimidade e também da parentalidade.
“Esse sujeito adicto morre de medo de ter intimidade porque isso exige sacrifício. Ele vai ficando acostumado só com aquele prazer, de tal modo que as outras coisas da vida, como gerar e cuidar dos filhos, ter intimidade com a esposa, lavar uma louça, realizar as atividades cotidianas, dedicar-se ao trabalho, vão se tornando realidades muito mais entediantes, cinzentas, cruas e maçantes do que elas deveriam ser”, enfatiza.
Consumo precoce da pornografia reforça imaginário que afeta relações futuras
Rodolfo Canônico, especialista em políticas públicas para a família e diretor-executivo do Family Talks, aponta que a "gamificação" do smartphone desestimula tarefas de longo prazo, e sinaliza que esse ambiente hiperconectado atua como catalisador de dinâmicas que desgastam a base familiar. "O smartphone desestimula as tarefas árduas que exigem longanimidade, ou como dizem hoje, resiliência, que é o caso do casamento e da formação de uma família”.
Canônico pondera que, embora não existam dados estatísticos definitivos para dizer que a pornografia é uma causa direta do encolhimento das famílias, não se pode negar o impacto devastador do consumo precoce no imaginário dos jovens.
"O acesso precoce à pornografia tem moldado o imaginário da sexualidade de muitos adolescentes. O que é representado ali é totalmente irreal e artificial, e causa um desejo nas pessoas que não tem como ser correspondido", afirma, destacando a urgência de ferramentas como o ECA Digital, em que a ONG Family Talks atuou para tornar obrigatória a verificação etária em sites adultos, vedada à autodeclaração.
“E é muito rápido chegar à pornografia. Uma pessoa busca no Google determinadas palavras e o conteúdo pornográfico vai aparecer logo. Precisamos fazer uma reflexão sobre o nível de facilidade de acesso à pornografia”.
O diretor-executivo do Family Talks finaliza alertando para o fato de que as pessoas estão trocando a vivência sexual saudável e o aprendizado afetivo pela iniciação pornográfica, cujos reflexos na desestabilização familiar ainda estão sendo mensurados.







