Blog Francisco Escorsim

“Eu odeio Bolsonaro, mas meu voto é dele”

Apoiadores de Bolsonaro levantam um balão com o candidato com a faixa presidencial.
Nelson Almeida/AFP

Dias atrás um amigo me enviou um áudio de um carioca falando sobre a votação de domingo. Daquele jeito praiano divertido, foi contando a outrem o que lhe haviam dito umas senhoras americanas sobre o Trump. Que o sujeito seria um babaca, mas, como vem sendo bom presidente, é o que importa. O carioca fez a mesma analogia com a situação brasileira, concluindo que Bolsonaro pode ser um “escroto”, mas que seu voto seria dele porque não teria outro para enfrentar o PT.

Creio que é o sentimento de boa parte do eleitorado de Bolsonaro. Para muitos, não está sendo fácil votar nele. O sujeito se sente traindo a si mesmo. Está inseguro, temendo que sua decisão contribua para algo pior. Ainda assim, por mais que repense, vacile, sabe não ter alternativa. Ou é Bolsonaro ou o império do crime.

Já passei por essa fase. Estava também nas manifestações gigantescas dos últimos anos, vestido de Brasil, formando o coro de “Fora PT” e pensando com meus botões: “Só espero que apareça alguém melhorzinho porque se só tivermos Bolsonaro…” Aí cortava o pensamento e preferia não imaginar o depois, focando naquele agora: “Primeiro a gente tira a Dilma, depois vê o que faz”. Você não pensava assim também?

Pois então, o depois chegou e só sobrou Jair Bolsonaro mesmo. E agora? Se votar nele, estarei defendendo e promovendo o machismo, a misoginia, o racismo, a tortura, a ditadura militar, o fascismo? Se nele não, estarei sendo cúmplice e promovendo o crime, a corrupção, a mentira, o controle da imprensa, a ditadura venezuelana, o comunismo? Não é melhor anular o voto, então, ou nem aparecer para votar, viajar para algum lugar e justificar ou mesmo pagar a multa de valor irrisório por não votar?

Se você ainda está paralisado diante dessas dúvidas, então é porque ainda permanece no cárcere do politicamente correto. Mas, se você decidiu não se acovardar e assumir a responsabilidade de votar nele, em Jair Bolsonaro, com todos os riscos que isso implica, então ao menos uma boa notícia tenho para lhe dar: você tem boas chances de começar a sair dessa prisão politicamente correta.

Não se preocupe, não farei um textão tentando desmentir ou justificar o que Bolsonaro já disse ou acusam de ter dito. Isso existe aos montes, tanto para defendê-lo como condená-lo. Mas não me interessa transformar Bolsonaro no que não é, seja para mais ou para menos. Ainda que seja tudo verdade, quem nele decide votar é porque considera isso menos pior, menos grave, do que auxiliar, ainda que indiretamente por votar em outros candidatos sem chance, o PT a retornar ao poder. Não considera existir equivalência possível entre os defeitos de Bolsonaro e os crimes petistas. E nesses termos vai todo o universo dessa diferença: defeitos e crimes.

Um dos lemas do tal movimento “Ele não” diz que a divergência com quem vota em Bolsonaro não é política, é moral. Sem dúvida que é. E a moral do “Ele não” é a do politicamente correto que, por somente não tolerar voto em Jair Bolsonaro, está a pregar que ser bandido é menos grave que ser um grosseirão. Porque Haddad seria tolerável. E Haddad é Lula. E Lula é um criminoso condenado a 12 anos de prisão por corrupção e lavagem de dinheiro. Se Bolsonaro é o inaceitável nesta eleição, então votar em criminoso é aceitável para a turma do “Ele não”. Não à toa nas manifestações o tal do “Lula Livre” abundou por todo canto.

Bill Maher, famoso esquerdista americano, também comediante, tinha um show na tevê que durou de 1994 a 2002 chamado Politicamente Incorreto. Embora de esquerda, Maher detesta o politicamente correto, que define com perfeição: ser politicamente correto é colocar sua sensibilidade acima da verdade. É precisamente o caso do “Ele não”. Por mais ofensivo que Bolsonaro seja à sua sensibilidade, por maior que seja seu temor do que ele possa vir a fazer, nada disso se compara à verdade factual, à realidade objetiva de termos um candidato e partido sendo comandados por um criminoso de dentro da prisão. Nada pode ser pior do que isso numa eleição presidencial. Nada. Repito: nada.

Se é preciso explicar a você por que isso, sim, é inaceitável e intolerável, então é porque o seu senso moral não é seu mais. Você não sente mais conforme a realidade, mas tão somente por uma segunda realidade moldada pela sensibilidade politicamente correta. Você pensa trocentas vezes antes de dizer algo para se certificar que ninguém se sinta ofendido? Eis o sintoma mais comum de se estar encarcerado nessa prisão mental em que seus pensamentos estão sendo controlados com sua anuência e, por consequência, sua sensibilidade foi se afinando somente conforme esse mundo mental, não segundo o que acontece na realidade de fato.

É óbvio que todo politicamente correto acaba sendo histérico, daí porque você vê tantos por aí surtando, crentes que se Bolsonaro vencer viveremos sob um governo nazista. Uma coisa é ter receio de algo assim, outra é fazer desse sentimento uma certeza de fato e tratar quem discorda de você como se fosse um nazista.

Mas se você, por mais odioso que lhe pareça Bolsonaro, não conseguiu considerá-lo pior que Haddad, então é porque conseguiu escapar dessa prisão, ainda que por um breve intervalo de tempo, e sabe que é melhor uma verdade cheia de problemas, riscos e defeitos do que uma mentira perfeita. Na época do impeachment, o raciocínio era: “se um bandido invade sua casa, você primeiro tem de tirá-lo de lá”. Agora é a mesma coisa. Se um bandido quer voltar a invadir à sua casa, a primeira coisa a fazer é evitar que entre de novo. Você pode até odiar Jair Bolsonaro, como o carioca disse odiar, mas entre um candidato representante de bandido e outro representante da polícia, não pode haver dúvida alguma na escolha.

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