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Caso Master

Áudio de Flávio pedindo dinheiro a Vorcaro afeta pré-campanha; veja reações

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Flávio Bolsonaro afirmou que buscava patrocínio privado para o filme “Dark Horse” e negou irregularidades após divulgação de áudio envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro (Foto: Bruno Peres/Agência Brasil)

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A divulgação de um áudio em que o senador e pré-candidato ao Planalto Flávio Bolsonaro (PL-RJ) cobra dinheiro do banqueiro Daniel Vorcaro para financiar o filme “Dark Horse”, sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro, provocou reações no Congresso, mobilizou a cúpula do PL e levou governistas a pressionarem por novas investigações sobre o caso do Banco Master.

Enquanto parlamentares do PT passaram a defender quebra de sigilos e ampliação das apurações, aliados de Flávio atuaram para conter o desgaste político e reforçaram o discurso de que os recursos envolvidos eram privados e sem uso de dinheiro público. Pressionado, Flávio também defendeu uma CPI do Master, para "separar os inocentes dos bandidos".

O áudio foi revelado nesta quarta-feira (13) pelo Intercept Brasil, que afirma ter tido acesso a áudios, mensagens, documentos e comprovantes bancários relacionados às negociações para financiar o longa “Dark Horse”. Segundo a reportagem, pelo menos US$ 10,6 milhões — cerca de R$ 60 milhões na cotação da época — teriam sido repassados entre fevereiro e maio de 2025 para a produção do filme inspirado na trajetória política de Jair Bolsonaro.

No áudio atribuído a Flávio Bolsonaro, o senador afirma enfrentar um dos “momentos mais difíceis” da produção e cobra uma posição de Vorcaro diante do atraso nos pagamentos. O parlamentar menciona o risco de “dar calote” na equipe internacional envolvida no projeto, incluindo o ator Jim Caviezel e o diretor Cyrus Nowrasteh. “A gente não pode vacilar, não pode deixar de honrar os compromissos aqui, porque senão perde tudo”, diz o trecho divulgado.

O áudio foi enviado em 8 de setembro de 2025, quando o Master já era objeto de forte desconfiança no mercado, e fiscalização do Banco Central, por operações de alto risco e possibilidade de quebra. Em 16 de novembro, segundo mensagens divulgadas pelo Intercept, Flávio voltou a se comunicar com Vorcaro na véspera de sua prisão, quando já havia investigação criminal sigilosa contra o banqueiro na Polícia Federal. Na época, Flávio Bolsonaro ainda não havia se lançado como pré-candidato à Presidência.

Após a repercussão, Flávio Bolsonaro convocou integrantes da pré-campanha para uma reunião de emergência em Brasília e, horas depois, divulgou nota afirmando que buscava “patrocínio privado para um filme privado”, sem uso de recursos públicos ou verbas da Lei Rouanet. O senador negou ter oferecido vantagens indevidas a Vorcaro e voltou a defender a instalação de uma CPI para investigar o Banco Master.

Em conversa com jornalistas na porta do STF, após reunião com o ministro Edson Fachin, Flávio classificou a denúncia como “mentira” e afirmou que se trata de “dinheiro privado”. Procurada pela Gazeta do Povo, a defesa de Vorcaro disse que não iria se manifestar sobre o tema.

A Polícia Federal deverá agora investigar a relação entre Flávio e Vorcaro, bem como a origem do dinheiro prometido para o filme. O áudio foi extraído de um dos celulares apreendidos do banqueiro.

Nos bastidores do Congresso, o caso provocou cautela entre parlamentares do PL e da oposição. Lideranças evitaram comentários públicos ao longo do dia e passaram a aguardar uma posição oficial do senador antes de reagir. Integrantes do PL ouvidos pela reportagem admitem que Flávio foi aconselhado a argumentar que não há nenhum ilícito no fato de pedir patrocínio ao dono do Banco Master, ao mesmo tempo em que aliados vão investir no argumento de que Vorcaro teria financiado filme sobre outros políticos.

Em nota, o líder do PL na Câmara, deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), afirmou que “os fatos dizem respeito à busca de patrocínio privado para um projeto privado, sem qualquer utilização de recursos públicos” e declarou que a bancada permanece “unida e confiante no senador Flávio Bolsonaro, certa da lisura de seus atos”.

O deputado federal Mário Frias (PL-SP), que se apresenta como produtor executivo de “Dark Horse”, afirmou em nota que Flávio Bolsonaro “não tem qualquer sociedade no filme ou na produtora” e que o papel do senador se limitou à cessão dos direitos de imagem da família Bolsonaro. Frias também declarou que “não há um único centavo” de Daniel Vorcaro no projeto e afirmou que o longa foi financiado exclusivamente com recursos privados.

Segundo o deputado, o filme é alvo de “ataques políticos e ideológicos” desde o anúncio da produção. Frias ainda afirmou que deixou a Secretaria Especial da Cultura “com as mãos limpas” após gerir recursos da Lei Rouanet.

Aliados de Flávio estudam impactos do áudio na pré-candidatura do PL

A divulgação do áudio também provocou apreensão entre integrantes da pré-campanha de Flávio Bolsonaro, que passaram a monitorar a repercussão política e a tentar medir o potencial de desgaste do episódio para a corrida presidencial de 2026. Segundo relatos obtidos pela Gazeta do Povo, parlamentares ligados ao PL acionaram interlocutores próximos de Daniel Vorcaro para entender a extensão da relação do banqueiro com o senador e avaliar se há risco de surgirem novos materiais envolvendo o caso.

Em grupos de WhatsApp da oposição, deputados e senadores passaram a cobrar orientações sobre como reagir publicamente nas redes sociais e diante da imprensa. A orientação predominante, até o início da noite, era evitar manifestações contundentes antes de um posicionamento oficial de Flávio Bolsonaro. O silêncio inicial de parte da bancada foi interpretado por aliados como uma tentativa de evitar amplificar o caso antes de compreender o tamanho real da crise.

Na avaliação do advogado e ex-juiz de direito Adriano Soares da Costa, o episódio ainda não representa um dano irreversível para a pré-candidatura do senador. Segundo ele, o conteúdo divulgado até agora trata de uma tentativa de captação de recursos privados para um projeto audiovisual, sem indícios públicos de troca de favores ou vantagens indevidas. “Isso é explicável e contornável politicamente”, afirmou.

Para o analista, o principal fator capaz de ampliar o desgaste seria o surgimento de novos elementos envolvendo a relação entre Flávio e Vorcaro. “O próprio Flávio sabe se existem outras tratativas ou novos áudios que possam agravar a situação. Se não aparecer mais nada, é um episódio administrável. Mas, se surgirem novos vínculos ou negociações mais profundas, aí a viabilidade eleitoral pode entrar em estágio terminal”, avaliou Adriano Soares da Costa.

PT pressiona por investigação e tenta ampliar desgaste de Flávio

Enquanto a bancada do PL mensura os efeitos do áudio vazado, aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aproveitaram a crise para tentar desgastar a imagem de Flávio Bolsonaro. Em entrevista à imprensa nesta quarta-feira (13), deputados do PT afirmaram que a divulgação das conversas fortalece suspeitas sobre a proximidade entre o senador e o banqueiro Daniel Vorcaro.

O líder do PT na Câmara, Pedro Uczai (SC), afirmou que o conteúdo revelaria uma relação “pessoal, política e até afetiva” entre Flávio e Vorcaro. Segundo o parlamentar, a oposição teria atuado nos bastidores para impedir o avanço da CPI do Banco Master durante as negociações envolvendo a derrubada de vetos presidenciais no Congresso. “O que estava em jogo não era apenas derrotar o presidente Lula ou a democracia. O que estava em jogo era impedir a leitura da CPI”, declarou.

Os governistas anunciaram que pretendem pressionar o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, para fazer a leitura imediata do requerimento de instalação da CPMI protocolada por parlamentares da esquerda. Na Câmara, a base aliada também quer cobrar do presidente da Casa, Hugo Motta, a instalação de uma CPI para investigar operações envolvendo o Banco Master e o Banco de Brasília (BRB).

Além da ofensiva política, deputados governistas afirmaram que encaminharão uma “notícia de fato” à Polícia Federal pedindo abertura de inquérito para apurar a relação entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro. Entre os pedidos defendidos pelos parlamentares estão quebra de sigilos bancário e telefônico, busca e apreensão de documentos ligados ao financiamento do filme “Dark Horse” e investigação de operações envolvendo empresas associadas ao Banco Master.

Em nota oficial, o líder da oposição na Câmara, Cabo Gilberto (PL-PB), reagiu às críticas da base governista e acusou o PT de tentar transformar o caso em uma “operação política de criminalização” contra a família Bolsonaro. O parlamentar também acusou o partido de Lula de relativizar encontros de integrantes do governo com empresários investigados. “Esse é o método”, afirmou o deputado, ao sustentar que há uma tentativa de gerar “desgaste político artificial” contra a família Bolsonaro.

Segundo o cientista político Elias Tavares, o governo do presidente Lula tende a explorar politicamente a repercussão do episódio para tentar neutralizar parte dos ataques relacionados ao Banco Master. “Se antes o Banco Master era utilizado como instrumento de ataque ao governo e ao establishment, agora o Planalto pode tentar usar essa repercussão para argumentar que o problema não está restrito a um único grupo político”, disse.

Segundo ele, o principal fator para medir o tamanho do desgaste será a repercussão nas redes sociais e o impacto do episódio nas próximas pesquisas de opinião. “A grande dúvida é o tamanho da repercussão que isso terá nas redes sociais e nas próximas pesquisas, porque hoje a velocidade da internet tem capacidade de transformar um episódio pontual em desgaste político permanente”, completou.

Mercado reage ao caso e dólar volta a superar R$ 5

A repercussão envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro também teve impacto no mercado financeiro nesta quarta. O dólar disparou durante a tarde e voltou a superar a marca de R$ 5 após a divulgação da reportagem sobre a relação entre o senador e o ex-banqueiro.

A moeda americana chegou à máxima de R$ 5,0130 e encerrou o dia em alta de 2,31%, cotada a R$ 5,0086, no maior valor de fechamento desde 10 de abril. Já o Ibovespa aprofundou as perdas ao longo do pregão e fechou em queda de 1,80%, aos 177.098 pontos. Operadores do mercado relataram que o caso aumentou a percepção de incerteza política em torno da sucessão presidencial de 2026.

O movimento, porém, ocorreu em meio a um ambiente externo já desfavorável para ativos brasileiros. Além da repercussão política, investidores monitoravam dados de inflação nos Estados Unidos, alta dos rendimentos dos títulos do Tesouro americano e sinais de piora nas expectativas para juros no Brasil.

Também houve desconforto no mercado com o anúncio de novas medidas do governo Lula para conter os preços dos combustíveis, o que alimentou receios de ampliação de medidas de perfil populista. Para o economista Felipe Miranda, fundador da Empiricus, o episódio provocou uma leitura inicial de enfraquecimento político da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro, embora ainda seja cedo para medir os efeitos eleitorais do caso.

“Num primeiro momento, há um enfraquecimento da pré-candidatura do Flávio. Ainda assim, esse enfraquecimento, sozinho, não parece suficiente para tirá-lo do segundo turno. Seriam necessárias novas notícias e um desenrolar diferente dos fatos”, afirmou.

Segundo Miranda, o mercado também passou a considerar possíveis mudanças no tabuleiro eleitoral da direita. “Fica também a dúvida: será que Bolsonaro mudaria a estratégia e colocaria Michelle como candidata? Mas isso, de certa forma, seria colocar o filho na fogueira e reconhecer que ele enfrenta problemas políticos mais sérios”, avaliou.

Pré-candidatos da direita cobram explicações e ampliam pressão

A repercussão do áudio envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro também provocou reação entre pré-candidatos da direita. Logo após o caso se tornar público, nomes que disputam espaço no campo conservador vieram a público cobrar explicações.

O ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo) afirmou que o episódio representa um “tapa na cara dos brasileiros de bem” e classificou como “imperdoável” o pedido de recursos ao ex-controlador do Banco Master. “Não adianta nada criticar as práticas de Lula e do PT e fazer a mesma coisa. É preciso ter credibilidade para mudar o Brasil”, disse Zema em vídeo publicado nas redes sociais.

Segundo aliados do ex-governador mineiro, a revelação sobre a relação entre Flávio e Vorcaro praticamente enterrou qualquer possibilidade de composição de chapa entre os dois para 2026. O ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD) também cobrou esclarecimentos públicos do senador. “Tudo que envolve Master e cifras milionárias precisa ser tratado com total transparência com a população”, afirmou Caiado em nota.

Já Renan Santos (Missão) adotou um tom ainda mais duro e chegou a defender a prisão do senador. “Onde há escândalo de corrupção, há Flávio Bolsonaro. E agora isso está mais do que claro”, afirmou.

O partido Missão anunciou que pretende apresentar uma representação no Conselho de Ética do Senado pedindo a cassação de Flávio Bolsonaro, além de acionar o Ministério Público Eleitoral para apurar eventual uso de recursos ilícitos na produção do filme sobre Jair Bolsonaro.

Para o cientista político Elias Tavares, a reação de pré-candidatos da direita mostra que o episódio abriu espaço para adversários de Flávio Bolsonaro disputarem o eleitor conservador mais crítico à política tradicional.

Segundo ele, o caso atinge justamente uma das principais bases narrativas da família Bolsonaro. “O bolsonarismo construiu parte importante da sua narrativa em torno do combate ao sistema, aos bastidores políticos e aos grandes esquemas de poder. Quando surge uma reportagem ligando diretamente o núcleo bolsonarista ao caso Banco Master, isso naturalmente gera desgaste narrativo e cria um ambiente de contradição que tende a ser explorado pelos adversários políticos”, afirmou.

Vorcaro também se aproximou de Lula, PT e ministros do STF

O áudio de Flávio a Vorcaro revela mais um elo construído pelo banqueiro no mundo político e judicial. Em dezembro de 2024, Vorcaro se reuniu com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Palácio do Planalto. O encontro não oficial (fora da agenda pública) foi articulado pelo ex-ministro Guido Mantega, contratado pelo Master como consultor.

O Master também adquiriu, junto ao governo da Bahia, o Credcesta, programa de crédito consignano privatizado por Rui Costa, ex-governador e atual ministro da Casa Civil de Lula.

Vorcaro também contratou o escritório de advocacia do ex-ministro da Justiça Ricardo Lewandowski; parte dos pagamentos de R$ 5 milhões, para consultoria, foram efetuados enquanto ele ainda estava no cargo.

O Master ainda contratou para serviços de advocacia e compliance Viviane Barci, mulher do ministro do STF Alexandre de Moraes, por R$ 129 milhões. Um fundo ligado ao banqueiro ainda comprou parte de um resort de luxo de uma empresa familiar do ministro Dias Toffoli.

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