
Ouça este conteúdo
O filme Coyote vs. Acme, que estreia nos cinemas do Brasil, passou por uma trajetória tão improvável quanto as armadilhas montadas por seu protagonista. Concluído pela Warner Bros., o longa chegou a ser engavetado pelo estúdio como parte de uma estratégia fiscal, antes de ser recuperado e comprado pela distribuidora independente Ketchup Entertainment. O que poderia ter terminado como mais uma produção invisível de Hollywood transformou-se em uma causa entre fãs dos Looney Tunes e, agora, em um lançamento recebido com entusiasmo por boa parte da crítica. A ironia é difícil de ignorar: um filme sobre Wile E. Coyote, personagem condenado a fracassar sempre que tenta alcançar o Road Runner, quase teve exatamente o mesmo destino.
A história do resgate ajuda a explicar por que Coyote vs. Acme chega aos cinemas carregando um peso que normalmente não pertence a uma comédia familiar. A Warner Bros. inicialmente decidiu não lançar o filme, numa decisão que provocou reação entre admiradores dos personagens e transformou a produção em símbolo de uma discussão maior sobre as escolhas econômicas dos grandes estúdios. A crítica de cinema Isabela Boscov, em seu canal no Youtube, interpreta o episódio como uma rara vitória do público sobre uma decisão empresarial, enquanto o crítico Waldemar Dalenogare enxerga no caso uma espécie de reação poética ao cinismo corporativo. Essas leituras ajudam a entender a expectativa criada em torno do filme: antes mesmo de ser avaliado pelo que acontece na tela, ele já havia se tornado uma história sobre sobreviver à própria indústria.
Quando finalmente chega ao público, a recepção sugere que a insistência em salvá-lo não foi em vão. A Forbes registrou 96% de aprovação entre os críticos no Rotten Tomatoes, com 104 avaliações contabilizadas, colocando Coyote vs. Acme entre os filmes mais bem avaliados do ano no momento da publicação. O desempenho crítico aparecia acima de produções como Hoppers e Toy Story 5. Isso não significa que o filme esteja destinado a ser um sucesso comercial: a mesma reportagem citava estimativas de US$ 12 milhões a US$ 18 milhões para o primeiro fim de semana americano.
A explicação para essa recepção passa pela própria ideia do filme. Na trama, Wile E. Coyote decide processar a Acme depois de anos vendo seus produtos — foguetes, explosivos, ímãs e todo tipo de engenhoca — fracassarem justamente contra ele. Will Forte interpreta Kevin Avery, um advogado de segunda linha que assume o caso, enquanto John Cena interpreta o representante jurídico da Acme. A premissa transforma uma das maiores piadas recorrentes da animação em uma comédia de tribunal: se todos os produtos da empresa falham, talvez o problema não esteja no Coiote, mas na própria Acme.
É nesse ponto que o longa encontra uma das suas ideias mais interessantes. Nos desenhos clássicos, Wile E. Coyote é o responsável pela própria desgraça. Sua inteligência, sua obsessão e sua confiança em produtos absurdos fazem parte da mecânica da piada. Coyote vs. Acme altera esse equilíbrio e transforma o personagem em vítima. O jornal Guardian observa que ele passa de perseguidor quase psicótico a uma espécie de “Erin Brockovich” dos desenhos, enfrentando uma corporação suspeita. A mudança permite que o filme explore a cultura litigiosa americana e o poder de grandes companhias, mas também altera radicalmente a relação do público com o personagem.
Para Isabela Boscov, essa transformação não elimina o que havia de essencial no Coiote. Ao contrário, ela encontra na vulnerabilidade do personagem uma dimensão emocional inesperada. A sucessão de fracassos deixa de ser apenas uma sequência de gags e passa a representar uma forma quase heroica de persistência. Ele falha, volta a tentar e continua avançando. A comicidade continua presente, mas ganha uma camada de afeto que ajuda a explicar por que um personagem originalmente concebido para apanhar das próprias armadilhas pode sustentar uma história de longa duração.
Essa relação com a tradição dos Looney Tunes é justamente uma das maiores virtudes apontadas por Boscov e Dalenogare. O filme procura homenagear criadores como Tex Avery, Chuck Jones e Michael Maltese, não apenas recuperando personagens conhecidos, mas tentando preservar regras de movimento, timing e comportamento que deram identidade aos desenhos. Perna Longa, Patolino, Piu Piu e Frangolino aparecem ao longo da história, e a mistura entre personagens animados e atores de carne e osso é uma tentativa explícita de recuperar uma tradição que Uma Cilada para Roger Rabbit levou ao auge.
Dalenogare considera que o diretor Dave Green entende esse legado e consegue fazer com que a combinação entre animação e live-action não pareça apenas uma coleção de referências nostálgicas. Will Forte, segundo ele, funciona como o coração da história, enquanto John Cena encontra o tom adequado para o advogado que representa a corporação. A estrutura de tribunal também é vista como uma fonte eficaz de humor, embora o crítico reconheça que a conspiração envolvendo a Acme faz a narrativa crescer mais do que deveria.
É justamente nesse ponto que surgem as principais ressalvas. Para a revista especializada Variety, Coyote vs. Acme é simpático, nostálgico e suficientemente divertido para justificar sua existência, mas não consegue reproduzir a energia anárquica dos desenhos que pretende homenagear. O problema não está na falta de referências. Pelo contrário: há tantos personagens, citações e situações reconhecíveis que o filme às vezes parece estar apontando para os Looney Tunes em vez de simplesmente deixá-los acontecer. A crítica considera que a loucura dos curtas de Chuck Jones tinha uma ferocidade difícil de transportar para uma produção de 101 minutos.
O Guardian chega a uma conclusão parecida por outro caminho. O articulista Peter Bradshaw considera o filme peculiar e divertido, mas também excessivamente pedante em alguns momentos. Para ele, a ideia de transformar Acme na vilã de uma conspiração corporativa é interessante, porém o resultado está longe de ser uma obra-prima. A comparação com Bee Movie, de Jerry Seinfeld, é particularmente reveladora: também ali uma criatura animada enfrentava uma grande corporação nos tribunais, mas com uma construção cômica considerada mais inventiva.
As divergências são importantes porque impedem que o entusiasmo em torno do resgate seja confundido com unanimidade artística. Boscov e Dalenogare enxergam um filme mais caloroso, inventivo e consciente do legado que carrega. Variety e Guardian identificam limitações justamente na tentativa de transformar a anarquia dos curtas em uma narrativa convencional de longa-metragem. Uma parte da crítica avalia o quanto Coyote vs. Acme preserva o espírito dos personagens; outra pergunta até que ponto ele consegue criar algo tão livre quanto aquilo que está homenageando.
Essa talvez seja a questão mais interessante deixada pelo filme. Os desenhos de Coiote e Papa-Léguas funcionavam em uma lógica quase perfeita de repetição: o personagem elaborava um plano, acreditava ter encontrado a solução definitiva e era derrotado por ela. Não era necessário explicar demais. A piada dependia da velocidade, da surpresa e da escalada do absurdo. Um longa-metragem precisa construir personagens, estabelecer conflitos, criar uma trama e encontrar uma resolução. Ao transformar a velha perseguição em um processo judicial contra a Acme, Coyote vs. Acme encontrou uma maneira engenhosa de expandir aquele universo, mas também aceitou o risco de tornar mais convencional justamente aquilo que nasceu para ser imprevisível.
Por isso, a história do lançamento acaba sendo tão adequada ao personagem. O filme sobreviveu a uma indústria que parecia determinada a eliminá-lo do catálogo, encontrou compradores, ganhou o apoio de fãs e chegou aos cinemas com uma recepção crítica consideravelmente positiva. Ainda não se sabe se conseguirá transformar essa segunda vida em sucesso de público. Mas sua existência já demonstra que personagens criados há décadas continuam capazes de gerar novas histórias e, sobretudo, novas discussões sobre o que fazia aqueles desenhos funcionarem.


